As trevas do caminho

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Esta é a primeira vez que a população consegue saber direitinho e sem muito esforço quem é quem na República. Os nomes estão aí, a um clique de quem tem interesse. E os processos, as condenações, as absolvições, também. Informações aos montes.

Há bem pouco tempo, o cidadão comum não tinha acesso à formação da Câmara de Vereadores de sua cidade. Deputados? Nem pensar. E saber currículo de quem forma a Suprema Corte? Era quase tarefa para detetive.

A internet mudou isso. Melhor, a internet, em gerúndio, está mudando isso. Mas não podemos esquecer que, segundo o Instituto Paulo Montenegro, em pesquisa feita ano passado, apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números, e isso não ajuda muito. A triste classificação que nos coloca num lugar desesperador aponta a população como analfabeta (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%).

Mas é notório que um fato independe do outro. O número de escândalos a que somos expostos todos os dias se dá justamente porque os meios de comunicação mudaram muito. E tudo circula com muita rapidez – inclusive detalhes picantes, que antes eram exclusivos a pequenas rodas e que quando chegavam ao público, vinham tão distorcidos por fofocas e negociatas que pouco tinham de suas raízes.

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Hoje, com um pouco de atenção às notícias é possível identificar o tamanho das confusões das instituições brasileiras. O discurso “eu acredito na justiça do meu país” serve àqueles que têm poder de manipulação e acordos. O grande público que enfrenta os percalços diários com leis fora de forma, advogados, tribunais e processos sabem que precisam se municiar de muita paciência e recorrer às subjetivas esperança e sorte para alcançar resultado.

É justamente o sistema o que vale para um não vale para todos, a diferença dos privilegiados com foros ou poder ou influência que está a causar um tipo de confusão perigosa e cheia de armadilhas pelo caminho.

De uma hora para outra a democracia passou a ser sinônimo de corrupção. São tantos os exemplos que saem de trás das cortinas, que boa parte dos brasileiros, por ignorância ou cansaço, está disposta a largar os bets e entregar a grande conquista dos últimos 30 anos à mão pesada de um regime ditatorial, na ingenuidade de que ele é melhor. Tem gente que clama por isso nas ruas.

Democracia não significa bandalheira. Ditadura não é moralidade e decência. Por mais cretina que esteja nossa situação, a liberdade, ou a ideia de liberdade, é superior a qualquer outra. E é por causa dela que hoje podemos gritar “fora Temer”, “volta Lula”, “o Sul é meu país”, “não às reformas” e até “intervenção militar já”. A democracia permite, apoia e incentiva isso.

O que nossos políticos fizeram com esse conceito é que deve ser combatido.

Chegamos ao triste momento da história que se a eleição fosse hoje, teríamos como presidente da República um dos dois polos perigosos e maléficos: de um lado, o populismo de Lula e de outro a rudeza de Bolsonaro. Nenhum dos dois é bom para democracia – a não ser como exemplo sobre o que não fazer em momentos de desespero.

E o Congresso Nacional, talvez ainda mais importante no sistema todo que o próprio presidente? Vemos negociatas de tudo quanto é tipo. Absolutamente tudo está a venda para garantir força e poder. Deputados trocam votos por emendas, por verbas, por cargos, por qualquer coisa que lhes garanta a permanência na marcha pública, de preferência com abundância financeira. Escola que aprenderam nas câmaras municipais. Do micro ao macro, nossas instituições estão corrompidas.

Há tanto tumulto entre o que é certo e o que é errado no país, que a definição Estado Laico parece que é só uma chacota pregada no meio da Constituição. Os feriados católicos, a frase “Deus seja louvado” nas cédulas, os crucifixos espalhados em gabinetes, os discursos. O corpo público se mostra cristão e faz questão de colocar a preferência na maioria de lugares que puder.

Fossem só símbolos e palavras que ferissem a laicidade do país até conseguiríamos passar sem grandes danos. Mas a situação atual é pior e inspira cuidados. As bancadas evangélicas nos municípios, estados e país avançam. Mais que isso, avançam organizadas e com propósitos claros.

Enquanto partidos se debatem para conseguir voz única, o “plano de poder” da Igreja Universal caminha a passos largos. Rádios, TVs, jornais, diretores, vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e muitos, muitos mesmo, pastores trabalham em uníssono pregando o mesmo verso. Pouco importa que tenham facções diferentes e que em alguns momentos se engalfinhem pelo mesmo espaço. O discurso é o mesmo, porque a intenção é única.

Retirar a condição laica do Estado, que reconhece que seu povo tem religião, mas acima de tudo respeita o pluralismo e a diversidade, não se trata apenas de fé. Tem ligação direta com leis importantes.

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Exemplo recente: no dia 27 de setembro, o STF considerou que o ensino religioso nas escolas públicas pode ter natureza confessional. O que, de modo prático, significa que as aulas podem seguir os ensinamentos de uma religião específica. Trocando em miúdos, se o professor for muçulmano, as aulas serão ministradas a partir do islamismo.

Pelo texto aprovado pelo STF, “o ensino religioso nas escolas públicas deve ser facultativo, sendo ofertado dentro do horário normal de aula”. Ora, facultativo nas escolas públicas durante o período de aula? As escolas mal conseguem se organizar dentro das grades curriculares, imagine ter que inventar um outro tipo de atividade para “ocupar” os alunos durante as aulas de religião. A decisão ficou muito longe da realidade e, embora os donos das togas neguem, é conflitante com a Constituição.

O exemplo não é isolado, em quase todos os assuntos do país, a Igreja tem mais direito que opinião, tem poder de voto. E quem pensar em defender bandeira contrária, automaticamente torna-se o anticristo apontado e repudiado com a força que os templos e seus representantes têm.

Neste ponto da história nós já devíamos ter aprendido a catástrofe que é priorizar religiões ou raças. E como se já não estivéssemos na lona, ainda há o mais preocupante, coisa que sabemos bem: já que o tempo atual está perdido, o mais importante é saber quem chegará o ano que vem para governar.

Tem que ter uma saída diferente de um populismo barato, um retorno de um governo ditatorial ou uma teocracia evangélica de direita. Tem que ter!

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