Louvor da aldeia

mazza

Quando era mais intensa a campanha seccionista de “o sul é o meu país” o jornalista Evandro Fadel replicou, ironicamente, com “o Boqueirão é o meu país” e numa exaltação ao Zoológico e à pista de canoagem do rio Iguaçu, sem falar no quartel do Exército lá sediado e, sobretudo, no templo do Inri Cristo e sua corte de seguidoras. Fora daquele clichê clássico de que é impossível cultuar o país sem esquecer da aldeia é de concluir-se também que se deve olhar a totalidade em que estamos inseridos.

Claro que mesmo a nossa província teve experiência mutiladora com a criação do Território do Iguaçu, gestado sob Vargas, e que só foi abolido na reconstitucionalização do país em 1946 e ocupou áreas nossas e de Santa Catarina com o desempenho parlamentar de Bento Munhoz da Rocha Neto. Essa circunstância histórica em várias oportunidades foi explorada no oeste e sudoeste em nome da nostalgia de um suposto passado brilhante, na verdade uma pressão para que o governo olhasse área tão estratégica pela resposta de sua produção e tão tensa nas disputas de terras que chegou a gerar no fim dos anos 1950 uma “guerrilha” de posseiros contra a ação das colonizadoras protegidas pelo governo.

Mesmo depois da intervenção, no governo João Goulart em frente comum com a administração de Ney Braga, na área e com a entrega de mais de 50 mil títulos de propriedade tivemos, sucessivas vezes, o agito da volta do agora Estado do Iguaçu. Algumas obras no sentido de integração regional como a BR-35, depois denominada BR-277, levaram décadas para chegar ao ponto atual, ainda não concluído, face principalmente às demandas de tráfego. Mesmo com obras públicas como as de rodovias e hidrelétricas e passagens dramáticas como a do fim da Sete Quedas para o surgimento de Itaipu, a maior do mundo, a arenga aventureira insistia na secessão até extinguir-se por força da ausência de motivação.

Também o norte paranaense, imantado pela cafeicultura, aborrecido com o seu isolamento, apesar da Estrada do Cerne, feita por Manoel Ribas, ensaiou a criação do “Estado do Paranapanema” e tirando sarro do território de que se libertaria chamando-o, ironicamente, de “Paranapamonha”.

Tudo isso passou e a ligação norte-sul, ainda que precária, no início dos anos 1950, fez do porto de Paranaguá o maior do mundo em termos cafeeiros, superando Santos e que tinha a sua continuidade pela Graciosa com veículos de pequeno porte. Essas contingências mostram que a unidade é um trabalho contínuo de gerações e que estão no fundamento da integridade irrenunciável do país. Marx ao corrigir Hegel teria dito que na história as coisas se dão como tragédia e se repetem como farsa. No caso de “O sul é meu país”, há mais anedota do que farsa, que mesmo bufa tem mais dignidade.

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