No escurinho do cinema

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Embalada pela ideia do amigo e colega de revista, José Augusto Jensen, que além de saber tudo de música erudita, do bom cinema, da história cultural de Curitiba, tem ótimas inspirações.

Foi ele quem teve a ideia de visitarmos durante o mês de novembro as trilhas sonoras que ninaram filmes. Eu, como não sou boba nem nada, entrei na dança e a coluna deste mês se dedica ao complemento perfeito, a esta comunhão que nada separa: música e cinema.

adriana1_otariosO primeiro filme brasileiro a ter música foi a comédia Acabaram-se os otários, produção de Luiz Barros, de 1929. Desde antes, e sem pular única geração, Carinhoso, parceria dos mestres Pixinguinha e Braguinha, está por aí. Primeiro veio a música, composta na segunda década do século passado, depois chegou a letra e o conjunto é uma das obras mais importantes da MPB. É bom saber que o primeiro filme brasileiro sonoro teve esta companhia.

No cenário preto e branco é bom lembrar de Carmen Miranda. O destaque, entre tantos possíveis, vai para O carnaval cantado, produção de 1932, com assinatura de Vital Ramos de Castro. Em preto e branco, o filme conta a história do carnaval no Rio. Foi o primeiro da portuguesa mais brasileira da história e também o primeiro a mostrar cenas noturnas da cidade, que só foram possíveis graças aos refletores do exército, que foram emprestados para gravações. Não dá nem para dizer que a película é uma raridade, trata-se propriamente de uma impossibilidade. Das várias cópias que percorreram o país na estreia, não sobrou uma sequer, nem o negativo. Mas, resta a voz de Carmen, que cantou, entre outras, Bamboleô, de André Filho: Bamboleô, bamboleá / A vida eu levo cantando / Pra não chorar / Todos se queixam da sorte / Quase sempre reclamando / Mas eu que conheço a escrita / Deixo tudo e vou girando”.adriana3_orfeu1

Aconteceu no finalzinho, último suspiro, da década de 1950. Marcel Camus e Jacques Viot adaptaram a peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes e transformaram em filme franco-ítalo-brasileiro. Os créditos da trilha sonora são de Tom Jobim e Luís Bonfá, muita honra. Mas Agostinho dos Santos, Antônio Maria e o próprio Vinicius, que também se dedicaram à música na produção, não tiveram os nomes marcados. Com diálogos em bom português, foi o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960, representando a França. Antes disso, recebeu a Palma de Ouro em Cannes e ganhou um Globo de Ouro. É deste momento da história a imortal Manhã de Carnaval, de Luís Bonfá e Antônio Maria: “Manhã, tão bonita manhã / Na vida, uma nova canção / Cantando só teus olhos / Teu riso, tuas mãos / Pois há de haver um dia / Em que virás”.

adriana4_deuseodiaboConsiderado o marco do cinema novo, Deus e o diabo na terra do sol, teve direção de Glauber Rocha; figura na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema entre os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos – está em segunda posição, na frente dele, apenas Limite, de Mário Peixoto. Glauber resumiu assim: “O vaqueiro Manuel se revolta contra a exploração de que é vítima por parte do coronel Morais e mata-o durante uma briga. Foge com a esposa Rosa da perseguição dos jagunços e acaba se integrando aos seguidores do beato Sebastião, no lugar sagrado de Monte Santo, que promete a prosperidade e o fim dos sofrimentos através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Ao presenciar o sacrifício de uma criança, Rosa mata o beato. Ao mesmo tempo, o matador de aluguel Antônio das Mortes, a serviço dos coronéis latifundiários e da Igreja Católica, extermina os seguidores do beato. Em nova fuga, Manoel e Rosa se juntam a Corisco, o diabo loiro, companheiro de Lampião que sobreviveu ao massacre do bando. Antônio das Mortes persegue de forma implacável e termina por matar e degolar Corisco, seguindo-se nova fuga de Manoel e Rosa, desta vez em direção ao mar”.

Então vamos por partes: a trilha de todas as músicas de Deus e o diabo são assinadas por Sérgio Ricardo e Glauber Rocha: “Vou contar uma história / Na verdade e imaginação / Abra bem os meus olhos / Pra enxergar com atenção / É coisa de Deus e Diabo / Lá nos confins do sertão”.

adriana2_limiteJá, o filme Limite, que data de 1931 e é o primeiríssimo colocado no ranking dos críticos, trata da passagem do tempo e da condição humana. Durante a estreia o filme chocou a sociedade e muita gente quis demonstrar a revolta sentida, teve quebra-quebra, foi tirado de cartaz, só voltou a aparecer em 1958 e ganhou destaque em 1971, depois de passar por restauração de quase treze anos. Ganhou nova restauração nos anos 2000 e voltou às telas em 2010, no festival Films from the South, realizado em Oslo, na Noruega. Não posso falar de sua trilha sonora, porque isso é com a coluna de Jansen, já que a MPB ficou de fora. As músicas são de Erik Satie, Claude-Achille Debussy, Serghei Sergheievitch Prokofiev, Maurice Ravel, Igor Stravinsky, Aleksandr Porfirevitch Borodin, César Franck.

E Bye bye Brasil de Cacá Diegues? Tem artista mambembe, tem gente pobre se maravilhando com espetáculo de teatro, tem o Brasil que não está na TV e tem a música-tema de Roberto Menescal e Chico Buarque: “Oi, coração / Não dá pra falar muito, não / Espera passar o avião / Assim que o inverno passar / Eu acho que vou te buscar / Aqui tá fazendo calor / Deu pane no ventilador / Já tem fliperama em Macau / Tomei a costeira em Belém do Pará / Puseram uma usina no mar / Talvez fique ruim pra pescar / Meu amor”. Curiosidade: Cacá, amigo dos dois adriana5_byebyebrasilcompositores, queria uni-los em música, passou a sinopse do filme, fez o pedido e marcou data de gravação. A combinação foi que o primeiro que terminasse sua parte, entraria em contato e cada um seguiu para o seu lado. Menescal, disciplinado, tratou da música na poltrona do avião, espremido entre dois sujeitos enormes durante um voo de trabalho. No dia do estúdio a letra de Chico ainda não era conhecida. Pressionado por prazos e locações, Cacá resolveu tratar de forma instrumental, no último minuto o letrista chegou esbaforido, com uma letra quilométrica que precisava de cortes. Sem saber como encurtar a canção, cortou o papel em uma parte e decretou: ‘até aqui está bom!’. Ainda assim a letra de Chico é enorme, difícil de ser decorada, associada às voltas que Menescal deu em sua melodia, é para poucos cantarem. E mesmo com todos esses percalços, se tornou sucesso.

Foi do livro de Jorge Amado que nasceu Dona Flor e seus dois maridos. A comédia de Bruno Barreto manteve-se por 34 anos como recordista de público do cinema nacional. Mais de 10 milhões de pessoas assistiram. Teve adaptação nos Estados Unidos, virou minissérie e ganhou dois Kikitos de Ouro, um como melhor diretor e outro como melhor trilha sonora. E é desse filme as três densas canções, de novo de Chico: O que será. Abertura: “O que será que lhe dá / O que será meu nego, será que lhe dá / Que não lhe dá sossego, será que lhe dá / Será que o meu chamego quer me judiar / Será que isso são horas dele vadiar”; À flor da pele: “O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá / Que brota à flor da pele, será que me dá / E que me sobe às faces e me faz corar / E que me salta aos olhos a me atraiçoar”
e À flor da terra: “O que será que será / Que andam suspirando pelas alcovas / Que andam sussurrando em versos e trovas / Que andam combinando no breu das tocas / Que anda nas cabeças, anda nas bocas”.adriana6_donaflor

Porque o espaço é pouco para tanto assunto, a coluna chega ao fim com aquele amargo de que uma imensidão muito representativa ficou de fora. Encerro com Bicho de sete cabeças, filme que aborda os abusos feitos pelos hospitais psiquiátricos, a questão das drogas e as relações familiares.

De 2000, cheio de prêmios e com ótima bilheteria, foi dirigido por Laís Bodanzky, com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos.

Arnaldo Antunes foi o primeiro pinçado para trilha, com letras que já existiam e se encaixavam no roteiro. Depois André Abujamra recebeu encomenda e tratou de criar a partir do enredo. Além deles, outros compositores também aparecem, como Zé Ramalho, Renato Rocha, Geraldo Azevedo, música-tema: “Não dá pé / Não tem pé, nem cabeça / Não tem ninguém que mereça / Não tem coração que esqueça / Não tem jeito mesmo / Não tem dó no peito / Não tem nem talvez ter feito / O que você me fez desapareça / Cresça e desapareça”.

Post scriptum: Flagra, de onde tirei o título, No escurinho do cinema, música de Roberto de Carvalho e Rita Lee, não estampou nenhum filme. Foi trilha da novela Final Feliz, coisa da década de 1980 ou da coluna do mês passado.

Agora sim, The End.

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