Ruas secretas

ilana

Adoro andar por ruas pela primeira vez. Adoro essa sensação de poder descobrir algo novo numa cidade em que vivo há mais de quarenta anos. Dobro a esquina e é um deslumbramento.

Geralmente essas ruas são pequenas, em bairros mais afastados, pelo menos afastados dos meus itinerários. Algumas são ainda revestidas de antipó, sem calçada, com a grama fazendo o contorno lindo da via. Ruas onde o tempo parece não passar com o mesmo frenesi do nosso corre-corre diário. A maioria é residencial, no máximo tem uma vendinha na esquina. O grande comércio e a especulação imobiliária ainda não acharam esses oásis urbanos. As casas, sim casas, têm janelas abertas e se procurarmos bem, achamos lá bolos esfriando. Os muros são baixos, crianças passam em bandos, brincando. Parece que estamos numa idílica vizinhança dos anos 1950.

Adoro essas ruas que mostram que a gente não está assim tão distante de um tempo bom. Que toda a modernidade futurista, os prédios de vidro, os tubos dos ônibus, os carros possantes e o caos podem desaparecer virando uma esquina. Que existe espaço para o humano.

Em Curitiba temos muitas ruas secretas onde os vizinhos conversam no portão, vendedores de sorvete assopram seus apitos e as pessoas voltam pra casa a pé ou de bicicleta. Ruas onde se bate palma no portão, onde se lava o carro na frente de casa, cheias de pipas presas nos fios de luz e cachorros em cada fresta de muro.

Ruas escondidas que revelam um pouco da alma da cidade que passeia graciosamente do moderno ao mais prosaico em menos de um metro. Essa coexistência e essa dualidade me dão o melhor dos dois mundos.

Gosto de ter esse lado, dessa proximidade, dessa mistura, dessa quase esquizofrenia urbana. Gosto de sentir que quanto mais me perco pela cidade, mais a encontro.

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