As palavras no galpão

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Meu fascínio pela letra impressa não foi produto do acaso nem de um nobre pendor familiar. Sou neto de imigrantes – e ao que me consta nenhum dos meus avoengos tinha tratos literários. Do lado da minha mãe, um avô anarquista, construtor de pontes e de muralhas; uma avó camponesa, versada em generalidades domésticas e ávida leitora de folhetins. Italianos, pobres, generosos. Saíram de sua pátria para Buenos Aires, de lá vieram para Curitiba. Aqui tiveram uma dezena de filhos, aqui foram enterrados seus ossos.

Meu avô ficou cego – e era eu, aos quatro anos, que o guiava em suas fugas de casa. O pobre velho achava ultrajante ficar dormitando no portão, apoiado numa bengala, ele que correra mundo e era contra todos os poderosos da terra. Aos setenta e poucos anos, forte e enfezado, prendê-lo em casa era tarefa difícil. Principalmente quando eu estava por perto, longe da vigilância das mulheres. Aproximava-me do seu banquinho, ninguém olhando, e tocava-lhe o ombro.

– Nono…

O velho de um salto, punha-se de pé.

– Andiamo, piccinino. Andiamo via.

E saíamos os dois, pelas ruas de terra, tropeçando nos sulcos endurecidos que as rodas abriam quando chovia. Não importava o rumo. Meu rebelde avô Isidoro queria era se afastar o mais distante do portão, do humilhante pastio onde as mulheres da casa o confinavam. Augusta cabeça branca, bigodões, fortes sobrancelhas – quem visse seus olhos bem abertos, firmes a fitar o vazio a sua frente, jamais deveria julgar que a luz deles sumira para sempre. Seu orgulho, hoje compreendo, o impedia de confessar a quem quer que fosse sua deficiência. Isidoro Bassani enxerga como um falcão!, diriam os outros, admirados da destreza com quem conduzia uma criança de quatro anos pelas perigosas barrancas que margeavam o rio.
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A aventura terminava pouco tempo depois, a família toda mobilizada numa caçada infernal. Aí então o velho impunha suas condições: retornar como viera, pela mão do neto, o séquito de captores no mínimo dez passos atrás. Eu jamais deveria voltar a cabeça. Ele exigia: desconhecêssemos solenemente aqueles que seguiam nossos calcanhares.
O Nono morreu logo depois. Embora passasse a vaguear por outras paragens, talvez até pelos campos macios e perfumados do paraíso, eu ainda imaginei, anos a fio, escondido atrás do portão, o bote armado para o convite irresistível:

– Andiamo via, piccinino. Andiamo via, subito.

Meu avô paterno, mais moço, só deixou este mundo de Deus bem mais tarde. Riskalla, um sírio de Homs, de quem herdei toda a minha inaptidão para o lado comercial da existência, foi, apesar, um próspero comerciante em Curitiba. Era dono da Casa Oito, na praça Tiradentes. Da noite para o dia perdeu tudo – casa, móveis, bens, amigos. Conservou apenas os mais fieis e uma grande mesa de jantar, em torno da qual fazia questão de reunir, todos os domingos, seus filhos e filhas, genros e noras, os netos que afetuosamente espetava com uma barba sempre por fazer. Nessa mesa meu avô despendia quase tudo que ganhava numa pequena fábrica de acolchoados de algodão. Forrava-a de quibes e sorridente, cantava, tocava alaúde, brindava minha avó falecida com uma palavra árabe cujo significado mais profundo só ele parecia conhecer.

Meu avô Riskalla nunca se deu por achado com a peça que a vida lhe pregara. Nunca deixou de ser rico, nunca deixou que a grande mesa perdesse a fartura de antes – embora, eu percebia, acompanhasse o fiel alaúde, todo lavrado em marfim, com um furo na sola dos pés.

Hoje, nem sei por que ou por quem, meu avô Riskalla é nome de rua do bairro do Xaxim. Não a conheço, mas deve ser uma ruazinha torta e esburacada, como os seus sapatos.
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Mas não são os avós o objeto deste precário exercício de memória. Também não estou interessado em revirar minha vida pelo avesso. Sou um cidadão absolutamente sem importância. O que busco não sei. Óbvio: se soubesse o que iria escrever, simplesmente não estaria escrevendo. Talvez algumas cápsulas de inconsciência, vazios que procuro preencher para tornar o grande vazio um pouco mais coerente. Meu fascínio pela letra impressa, dizia, deve ter surgido nessa mesma casa em cujo portão meu avô Isidoro assestava sua cegueira. Era um chalé com sótão e porão pintado de uma cor que nunca era a mesma por muito tempo e que de tão volúvel acabou por ter cor nenhuma. Havia um muro, um jardim de flores antigas e um corredor lateral que ia dar nos fundos da casa. Uma videira, grossa e retorcida, senescia junto a um galpão onde todas as noites uma luz forte pendia sobre um homem jovem, de grandes bigodes. Um homem e sua máquina. Esta é uma das imagens que guardo do meu pai. Um tipógrafo-impressor, extraindo pilhas de cartões de um prelo manual. Minha mãe às vezes o auxiliava, ora acionando o prelo, ora retirando os cartões já impressos. Eu ficava por ali, a brincar com os calços de madeira e aparas de cartolina, e foi ali que experimentei minha primeira sintaxe de espantos – como é que aqueles pedacinhos de ferro, alinhados um ao lado do outro, podiam desenhar no papel umas cobrinhas que as pessoas olhavam, olhavam, e sorriam satisfeitas? Eu via nas cobrinhas apenas o que elas eram – cobrinhas. Mas gostava delas do mesmo jeito.

De dia não havia movimento algum no galpão: era escuro e das traves do teto pendiam teias enegrecidas. Sem luz e sem vida, os tipos de metal exibiam uma solidão desarticulada, embora contivessem a gênese de todas as palavras do mundo. Às vezes a mudez se estendia noite a dentro, pois meu pai chegava em casa muito cansado para dar voz aos seus pedacinhos de ferro. Desde cedo, a falência de meu avô obrigara os filhos a uma vida de trabalho e privações – de dez, dois morreram meninos e somente os dois últimos chegaram a um banco universitário. E só se formaram porque um dos irmãos, vendendo cigarros e charutos, custeava os grossos livros de anatomia de que necessitavam.
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Meu pai desviou-se do caminho. Deixou sua inteligência vagar sem destino, colhendo aqui e ali algum conhecimento: livros religiosos, Seleções do Reader’s Digest, revista Eu Sei Tudo. Ganhava vez por outra um livro de assunto veterinário ou militar, impresso por ele próprio, com a dedicatória do autor. Quando cresci um pouco mais, não ainda para ler livros, meu pai os comprava para mim – o que lhe dava oportunidade de se entregar a um luxo que a si próprio negava. Assim, bem antes de rastrear com segurança uma linha impressa, extraindo-lhe o mágico e oculto sentido, eu já era dono de uma coleção de histórias de aventuras cuja sinopse, prazerosamente, meu pai me transmitia.
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Quando finalmente aprendi a ler, transpus os limites de minha coleção e avancei sobre os livros do velho. Li o que entendia e o que não entendia. Na escola minhas redações primavam por longos períodos de tortuoso gosto poético. Havia uns pássaros, umas flores aquosas, um sol rubro sempre poente inundando de luz amarela meus cadernos. Já naquela época, uma sombra escura alastrava-se dentro de mim. Algo soturno, intrinsecamente mau, ia roendo meu espírito. O primeiro sinal de alarme foi indescritível medo de chuva. Eu entrava em pânico toda vez que o céu armava um aguaceiro. A chuva passou, mas o medo permaneceu – mórbido, cambiante, procurando no mundo exterior os objetos mais inocentes e transformando-os em seres aterradores. Sofri a ameaça das coisas mais imponderáveis. Berinjelas, latas de tinta azul, alguns tipos de cactos. Bastava vê-las ou tocá-las. A vista escurecia, a cabeça doía, vomitava, passava dias na cama, magro e esverdeado.

Sucederam-se os anos e os medos, os venenos e os encantamentos – eu oscilando de uma instância a outra do real. Enquanto a coisa má se manifestou no plano objetual, fenomênico, eu ainda pude me defender. Mas quando entrou em cena aquilo que os pavlovianos denominam o segundo sistema de sinais, aí então me estrepei por completo. Fiquei à mercê dos signos. Não eram mais as coisas que me apavoravam; a ingênua maçã da Branca de Neve transformara-se numa tóxica e letal entidade bifronte, num demônio acústico de significado ambíguo que se associava – pelos labirintos de sintagmas e paradigmas – a outros seres tão terríficos quanto ele. As palavras. Que é o escrever senão uma tentativa vã, desesperada, de exorcizar esses demônios e arrancar deles um sentido?

jamil_1_jamil Jamil Snege nasceu em Curitiba em 1939 e morreu em 2003. Escritor, sociólogo, publicitário. Considerado o melhor escritor de sua geração no Paraná. Escreveu vários livros, entre eles “O Jardim e a tempestade”, romances como “Tempo sujo” e “Como eu se fiz por si mesmo”.

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