Nêgo Pessoa (1942-2017) Amizade revisitada

aroldo_0_abre

Esperei um pouco mais de mês para revisitar Nêgo Pessoa e o seu universo, depois de sua “passagem”.

Relutei em encarar o itinerário de reencontro com o amigo com quem partilhei dias da infância no Colégio São Vicente de Paulo, em Irati, anos 1950, e depois, variados tempos, desde 1960 até agora, de minha vida adulta em Curitiba.

Relutei, não sou forte para rememorar mortos e partilhar pompas fúnebres. Evito velórios, até porque os percebo inapropriados nos dias hoje: o defunto fica em, quase sempre, segundíssimo plano.

Encaro bem missas de sétimo dia. Com ressalva: gostaria que todas começassem com o salmista proclamando “Introibo ad altare Dei”, como na Missa dita de Pio V.

Visitar túmulos? Nem o dos meus pais.

É verdade que, a despeito de gostar ou não, ultimamente tenho atendido pedidos para falar em despedidas de defuntos amigos.

Não me é fácil aceitar as convocações. Se pudesse, eu as evitaria.

A fala dessas ocasiões transcorre – e aí minha restrição maior –, dentro dessas cenográficas cerimônias de despedida, carregadas de “mise-en-scène”, sob a presidência de um mestre de cerimônias.

Profissional, ele é um simulador de dores às famílias enlutadas. Comporta-se “comme il faut”, com dignidade, imperturbável, irrepreensível, obedecendo a roteiro um tanto hollywoodiano.

Esse cerimonialista da morte poderá, até, enxugar lágrimas apenas insinuadas. É tudo parte do ofício (e script) que avulta numa sociedade com pouco tempo para o derradeiro rito de passagem. Pois, nesses dias, luto tem de ser rápido e carregado de tons –pós-modernos. Algo meio “prêt-à-porter”.

No futuro, prevejo, o ofício comercialmente bem montado do luto poderá até incluir novas carpideiras. É o que falta.

A liturgia das capelas-crematórios, tenho comigo, é sugestão raquítica, sem charme, de uma distante Parusia. Até pode forçar sinais de Eternidade, a tecnologia sufocando dores. Não passa disso.

Mesmo assim, esse cenário é bem mais respeitoso do que os velórios via web. Eles existem.

Dos males, pois, o menor, nessa sociedade que vai encurtando os “guardamentos”, outrora cheios de dignidade e oportunidade de vivência do luto. A partir dos trajes.

E não esquecer: curtir o luto, a moderna psicologia admite como essencial para apaziguar mentes e corações. Nisso os mais velhos tinham razão, pura intuição – pode ser.

 

NÃO HÁ CONTRADIÇÃO

Preciso me explicar: se não me agradam os ritos de passagem para a morte, tenho aceitado a tarefa de falar nessas cerimônias como homenagem a certos mortos de minha grande estima. Ofereço a missão à alma de quem partiu. Isso mesmo: eu acredito em alma, em Paraíso e igualmente na distância que alguns ficarão de Deus (jamais Inferno, com azeite quente e fogo e assemelhsados). Sou um enquadrado – e “quadrado” – fiel às minhas raízes luso-germânicas e cristãs, origens um pouco luteranas; católicas, sobretudo. No “necessariis unitas”, união no necessário, como Agostinho proclama.

Sou ainda um pouco o menino que, como Nêgo Pessoa, foi catequizado no São Vicente, Irati, pela sabedoria daqueles notáveis mestres oriundos do histórico Seminário do Caraça, Minas Gerais – padres Rui, Nicolau, Lima, Motta, Marcello Carneiro, Wilson…

Aqui me corrijo: embora catequizado por padres lazaristas, Nêgo fez a primeira comunhão com frei Nereu, capuchinho, na Matriz de Nossa Senhora da Luz. Quem fez a comunhão comigo foi Jeca, irmão um pouco mais velho do Nêgo Pessoa.

Mas a fala daquelas horas em que recordo defuntos amigos custa dores. É a tristeza que fica, não aceita antidepressivos. Consigo driblar tentações oratórias e lugares-comuns. Ajo com a dignidade de um improvisado ministro de exéquias. Continuo eu mesmo, não experimento nenhum “frisson” sobrenatural. A voz fica embargada, é certo.
aroldo_nego_noite2
Não me aperto nessa fala do luto. Socorro-me de salmos, que recito no latim da Vulgata de São Jerônimo. Assim repito o que faço em casa, de manhã, todos os dias. Não é esforço, mas “chave de ignição” para começar o louvor a quem nos deixou.

Dos mortos só se pode dizer o bem, recomenda o ritual romano muitas vezes centenário da Santa Madre. E assim eu ajo.

“De mortui nil nise bene”.

VOLTANDO AO PÓ

Com a morte de Carlos Alberto Pessoa, o Nêgo, aconteceu o que eu, no fundo, não queria que acontecesse: no dia do velório, ampliei dores e outros impedimentos, todos reais, para assim justificar minha falta às pompas fúnebres.

Minha consciência, no entanto, não ficou leve com essa justificativa para a falta bem plausível.

No fundo, sei que fiz de tudo para evitar o encontro com o cadáver que, horas depois, estaria retornando ao pó, incinerado, essa forma dita ecológica de nos livrarmos de nossos mortos na moderna sociedade cristã. Assim nos comportamos como as sociedades pagãs. No entanto, acredito, a cremação acabará garantindo que não haverá culpas de familiares e amigos por ausências em datas futuras de “visitas”, como em Finados e aniversários natalícios.

As cinzas, se não forem lançadas ao vento, poderão ficar num vaso, numa urna, em lugar de respeito, na sala, no quarto, ou até num espaço especial, alugado, do crematório.

“Inquilinato de cinzas”, eis nova realidade, pós-moderna.

Cinzas poderão ser “despejadas” por falta de pagamento de taxas?

Ainda para ajuda na composição de uma etnografia de pompas fúnebres no Sul do país, recordo: sou dos tempos em que meus familiares empreendiam longas viagens para “passar Finados” numa cidade distante. Iam  “visitar” ancestrais e descendentes lá enterrados.

Era, entendo hoje, também exercício de penitência (jamais vocalizada) por falhas eventuais praticadas contra os entes queridos defuntos. Ou para compensar amores e resgatar respeitos não suficientemente proclamados em vida.

Uma espécie, enfim, de redescoberta do tempo perdido, com a licença de Proust.

 

MÚSICA E BACALHAU

Sou também desses mesmos tempos em que as rádios respeitavam a data de Finados, o 2 de novembro: só tocavam música clássica, canto gregoriano e marchas fúnebres em geral. “Em homenagem aos mortos”, o locutor avisava.

Nenhum estribilho festivo-popular era aceito. Voto de silêncio mais ou menos comunitário.

Afinal, Finados, naqueles dias, anos 1950, andavam no tônus da herança ibérica, tudo casado com a religião católica, então estonteantemente majoritária.

No fundo, cá pra nós, também havia medo, nunca enunciado, daquelas almas do outro mundo, dominantes em nossas vidas. Elas poderiam até nos “cobrar”, em forma de muitas “aparições”, se as esquecêssemos. Eram “visagens”, temores de crianças, jovens e adultos.

Nêgo Pessoa, como eu, teve, naqueles dias de criança em Irati, medo das procissões fúnebres – com a carroça típica polonesa puxando o cortejo. Isso ele me confessou. Senti-me aliviado, o menino medroso tinha tido parceiro.

Na verdade, o Plauto, meu irmão um ano mais velho, partilhou comigo igualmente desses fantasmas cobradores.
aroldo_nego_flu
Na Irati daqueles dias, essa visão deve ter gestado muitos traumas de infância: era impressionante a carroça fúnebre, com toldo, coberta por enfeites coloridos, puxada por pelo menos quatro ou seis cavalos igualmente adereçados com enfeites de cores muito vivas. Como era próprio da cultura polaca passada pelos imigrantes.

Atrás, às vezes rezando em voz alta, a procissão reverenciava a carga preciosa. Preces intercessórias pelo morto se sucediam.

Rezavam-se ave-marias e pais-nossos em português, quase sempre; às vezes, as preces eram em polonês. Neste caso, “o eco das dores soava mais triste a meus ouvidos”, confidenciou-me, numa manhã de rememorações, o Nêgo Pessoa.

Ele também me confessou que não ficara imune às “visagens” e aos temores provocados pelas carroças carregando os caixões pelas ruas da cidade, com cavalos enfeitados, tudo segundo o preceito eslavo transplantado.

 

ETERNIDADE SEM TEMORES

Um dia, já nos anos 1990, concluímos Nêgo e eu, ao prosear sobre a Eternidade – em que acredito, e sobre a qual ele era um cético, apesar dos apelos de dona Matilde –, que foi tão somente contemplando as procissões fúnebres à polonesa que acabávamos tendo pesadelo com almas do outro mundo. E o Inferno.

Nessas ocasiões do passeio fúnebre pela cidade, o comércio ia fechando as portas, à passagem do caixão, “maneira de dizer que ali se participava da dor dos enlutados”, lembrou-me Pessoa. Eu estava me esquecendo do detalhe do comércio reverente, tema precioso para eventuais composições etnográficas.

A Farmácia Pessoa, do pai, um endereço icônico de Irati, procurada muito pelos pobres em busca da caridade de seu Pessoa e dona Matilde, jamais deixava de cerrar suas portas nessas ocasiões.

Nêgo, que sabia tudo de Irati e do Sul do Paraná – garantiu-me que até anos recentes esses cortejos trazidos pelos imigrantes poloneses estariam presentes, sem arrefecimento, em áreas rurais de Irati, General Carneiro e Cruz Machado e, “quem sabe, em União da Vitória”.

Enquanto rememorávamos quadros como esses, inseparáveis de nossos arcabouços psicológicos, Nêgo, de certa feita, saiu-se com esta: “Imagina se em Irati tivéssemos o olhar de hoje, com os saberes absorvidos na leitura de Durkheimer e Eliade?”

Enfim, esse foi apenas parte do universo que partilhei muito com o Nêgo Pessoa, deambulando em torno de sociologia, filosofia e antropologia para decifrarmos trilhas do ser humano. Sem começo nem fim. Sendas como as das pompas fúnebres e outras peculiaridades encontráveis no burgo de nossa meninice.

Dessas preocupações, Nêgo pouco dividiu, acho, com dois dos seus mais próximos confidentes, Jamil Snege e Fábio Campana. Com eles o mergulho se dava em outros universos, como o político, o futebol, a literatura brasileira e universal, o fantástico dos contos e da amizade de Dalton Trevisan, a insaciável procura pelas parceiras ideais, quase sempre mulheres inabordáveis e inalcançáveis.

 

CASA DE BERNARDA ALBA

O tempo de Finados – recordo mais ainda – tinha mulheres trajando à moda Casa de Bernarda Alba, de Lorca, luto completo; os homens, que usassem uma faixa preta no antebraço, o chamado “fumo”, luto também, discreto.

Nêgo enriquecia minha coleta do passado: nossa herança cultural comum foi muito parecida, teve forte acento ibérico com sua queda para a tragédia, o trágico como fonte inesgotável de prosa e poesia.

Na minha casa, ‘nada de cantoria’, decretavam meus pais que, graças, não nos levavam em suas peregrinações àqueles espaços de Sheol. Na do Nêgo Pessoa, as coisas andavam no mesmo diapasão. E o “pior”, um dia me confessou:

– O mais chato de tudo isso eram as proibições que, na Semana Santa, só davam lugar àqueles horrorosas fitas da Paixão de Cristo. Nos Finados, nada de filme festivo. Quando muito, só o seriado do “Caveira”, que embalou minha meninice, exibido por meses a fio no Cine Central do José Wasilewski. Parece que um preto e branco do Tom Mix se permitia igualmente.

Eu, ainda no meu inventário muito pessoal de Finados, lembro que meus pais empreendiam longas viagens de trem, Irati ao RS, para cumprir a obrigação com seus mortos queridos. Dois trens icônicos de minha infância, preenchiam todas as minhas ânsias por deambulações – o Direto e o Internacional. Deles meus pais se serviam para “passar” finados no Rio Grande do Sul. Ida e volta.

“Das profundezas do Sheol ele ouviu Javeh”…

Manoel e Nandy saíam, pesarosos, para cumprir a missão de chorar os mortos. Mas não forçavam parcerias. Nisto, exceção, eram democráticos.

Não eram, no entanto, democratas quanto a outra “obrigação anual”, e também impregnada de luto: a de a família toda ser obrigada a comer bacalhau, prato definitivo ao longo da Semana Santa, semana de dores e luto pelo Senhor Morto. Tudo dentro do decretado período de “luto e respeito”, no qual eram chamados de “hereges” os que não agiam com essa compunção penitencial.

Lá em casa, esse ato penitencial tinha origem nos Cáceres, Garcia e Gomes, ancestrais espanhóis e portugueses, naturais de São Francisco de Assis e Santiago do Boqueirão, Rio Grande. Os Haygert, com resquícios de luteranismo, e tantinho do esoterismo de madame Blavatsky, eram discretos.

Cultuavam seus mortos com moderação.

Os Haygert faziam parte de restrito rol dos esclarecidos de um mundo modelado por magias e fantasmas. Sabiam, por exemplo, explicar fenômenos como os que ocorrem quando corpo orgânico entra em decomposição, liberando gás metano, “fogos fátuos”.

Esse era um dos saberes que limitavam ou eliminavam o universo fantasmagórico nos lares.

 

TELEFONEMAS NOTURNOS

Não fujo do assunto-base, Nêgo Pessoa: não me arrependo de não o ter partilhado no ritual de despedida de Carlos Alberto Pessoa. Foi melhor assim, lembrar-me agora dele e suas pregações políticas, o liberalismo como religião, nada a ver com o catolicismo de dona Matilde, a mãe e fanal de Nêgo.

Lembro-me dela levando café na cama para o “Neguinho”, como chamava o preferido da enorme prole gerada por ela e seu João Pessoa.
aroldo_negojovem
Matilde descendia de ítalo-brasileiros que fizeram fortuna em Irati; seu Pessoa, farmacêutico universitário, tinha o timbre ibérico de uma família de ilustres paranaenses, irmão do Dr. Plínio Pessoa e outras celebridades curitibanas da Universidade, do Direito e Judiciário.

Voltando às pompas fúnebres: ficando em casa, recordei os longos telefonemas de Nêgo, tarde da noite. A psicanálise social que ele propunha não apresentava alternativas. Concordava com quase tudo de sua digesta telefônica, especialmente sobre a malta que os brasileiros elegemos para nos governar.

“Uma ninguenzada”, dizia, citando antropólogos que faziam parte de seu repertório argumentativo.

Mesmo Darcy Ribeiro, cientista à “gauche”, compunha esse rol.

Na fala do catequista dono de monocórdias verdades, ele esperava minha cumplicidade às suas teses. Geralmente estavam muito mais à direita até de meu epicentro político.

E olha que sou um conservador.

Mas que ninguém duvidasse de suas certezas liberais, com Hayek e Campos, entre outros preferidos mestres.

Houve um dia em que quase encrencamos. Foi quando eu, inapropriado e dissonante, disse-lhe que “liberal é o indivíduo que ainda não foi assaltado”. Foi momento infeliz, reprodução de frase de Ronald Reagan, que falava dos liberais à americana, que para ele seriam a esquerda de lá. Olhe só!

Pessoa virou fera. Fez-me escutar uma aula de definições clássicas de liberalismo. Tudo, claro, no reto tom, passado o choque inicial.

 

AVIDEZ ÀS CLARAS

Nessas falas catequéticas de Pessoa, ele me parecia quase sempre tomado pela “pleonexia”, aquela avidez de que os gregos nos falam.

A dele, a de ser ouvido, acatado, respeitado. Era a autoridade intelectual dona de verdades a toda prova. Meu silêncio diante de tal pregação era endosso que parecia alegrá-lo.

Eu o via, naqueles momentos, como um possuído por avidez que não controlava: a do discurso sem fim, parte mais evidente de seu ethos.

Podá-la, nesses momentos de quase transe intelectual, bela catarse, seria forma de aleijá-lo espiritualmente. Mais que isso, seria burrice: o espetáculo era precioso demais para ser interrompido.

Nêgo Pessoa, neste 2017 – como eu – era um idoso. Jamais, como eu também, acolheu essa bobagem de “melhor idade”. Nisso sempre concordamos, até porque nossos achaques septuagenários mostravam outra realidade.

Ele, sábio idoso, tinha poucos ouvintes qualificados nos seus últimos dias. Alguns deles sempre foram Fábio Campana e Jamil Snege. Mas o Turco era só lembrança, há anos, assim como Luiz Roberto Soares…

Era um conformado, sabia que os velhos não têm muitos ouvintes. Ou porque perderam, com a sucessiva e agora frequente passagem do Anjo da Morte, a audiência dos que os escutavam; ou porque sofrem na solidão própria dos muito experientes, com a quase impossibilidade de encontrar parceiros de diálogos ou de memórias pretéritas a partilhar.

Afinal, com quem dividir, agora, as grandes aventuras de vida? Isso Nêgo poderia estar se perguntando, quando telefonava para amigos, como Fábio Campana, Cassiana Lacerda, Maí Nascimento, Dante Mendonça, Mazza, Luiz Fernando Casagrande Pereira, Carneiro Neto, José Machado de Oliveira (colega de classe de Nêgo, no São Vicente), Márcio Renato dos Santos… Nesse rol havia amigos de variadas idades, todos, certo, donos de especial massa crítica.

 

CAMPANA, O COMEÇO

Foi necessária a introdução para dizer que li – quase ajoelhado –, o antológico depoimento que Campana escreveu na última revista Ideias sobre o Nêgo Pessoa. Não vou privar gente inteligente do prazer que tive com o texto (disponível na web). Não cabe transcrevê-lo. Apenas quero sublinhar certos momentos dessa explosão de afeto, inteligente, plena de admiração, reencontro que Fábio Campana proclama sem as limitações que o “face a face” impõem.

E com o texto me enriqueço e sinto Pessoa bem explicado.

Do texto pinço momentos, alavancas para melhor recordar o Nêgo. Esse transbordamento de fraternidade de Campana é sinal de que a arte de bem dizer, enxuta, substantiva, continua sendo alimento a se contrapor ao raquitismo de redes sociais. Prova material de que há salvação suficiente e forte na língua portuguesa para momentos em que se trabalham mistérios da alma humana, o pneuma, aquele amor que fica na escala do “amor ágape”. Beirando o religioso.

“Seu texto era invejável. E acredito que é o melhor que tivemos em nossa aldeia”, sentencia Fábio Campana, introduzindo o intelectual Pessoa, com quem muitas vezes teve desencontros.

Chocaram-se, Pessoa e Campana, por vezes; choques que eram prova de amizade, de quanto a opinião de um importava na vida e obra do outro.

Essas brigas não duravam: eles sabiam se reconciliar, voltavam a “ficar de bem”, como as crianças dizem no “fazer as pazes” com os amigos.

Raras vezes, o distanciamento deles poderia se prolongar. Nessas separações, mandavam recados um ao outro. Jamil era o intermediário dessas ocasiões de temporária ruptura da afeição fraterna. Eu por vezes fui chamado a apagar incêndios, para restaurar a convivência de dois tipos humanos raríssimos.

Há meses, em dias de aridez da amizade dos dois, cheguei a propor um almoço em minha casa a Nêgo e Campana. Sugeri que simplesmente partilhássemos, como de outras vezes, um dos atos mais civilizados da escala da evolução, o ritual da mesa.

Propus vinho português para o Nêgo, suco e água para Campana e eu, abstêmios que somos.

O encontro não se consumou, fomos transferindo as datas até que a iniciativa virou memória do não acontecido.

Agora o quase fato é significativo neste “mementum”.

“Lembra-te homem, que é pó e ao pós retornarás. Mementum”.

JAMIL, COSKI, RUBENS

Se houve quem conhecesse muito bem o Nêgo Pessoa, Fábio Campana e Jamil Snege foram os campeões. Também, por justiça, lembro o Coski, o Luiz Roberto Soares, já “encantado”, como se diz de certos tipos especiais que já passaram para a eternidade.
aroldo_quarteto
Campana lembra ainda, no texto, que Nêgo foi personagem do Dalton Trevisan, Pássaro de Cinco Asas. Personagem e por anos interlocutor do contista maior do Brasil.

Acho mesmo que por muito tempo Nêgo foi um dos informantes privilegiados do Vampiro de Curitiba. Afinal, como esquecer que “ele estava pronto para todas as mulheres do mundo”, recorda Fábio?

Alguns paranaenses pertenciam ao especial panteão de admiração de Nêgo Pessoa. Um deles, Belmiro Valverde Jobim Castor, meu dileto amigo. Pelo “scholar” Castor muitas vezes observei a admiração, à beira do encantamento, do qual Nêgo recolhia conceitos e depoimentos.

Encantava-lhe gente do porte de Belmiro, seres humanos com um pé nas grandes universidades do mundo e familiares de línguas “civilizadoras” – inglês, francês, alemão.

Das novas gerações, não poucas vezes referiu-se ao diplomata Rubens Camargo Campana, filho de Fábio e Denise Camargo, o casal que muitas vezes o abrigou na senhorial moradia próxima ao Parque Tingui, e onde, por vezes, fez “estágio” para recuperação de enfermidades.

Também não era econômico com relação aos textos de Izabel, hoje morando na Áustria, irmã de Rubens, também filha do casal.

 

“DÂNDI” E SUAS BIBLIOGRAFIAS

Era um dândi, esse Nêgo Pessoa que agora reencontro em meu baú de memórias. Sempre trajava impecavelmente em ocasiões apropriadas: ternos clássicos, feitos há anos por alfaiates.

Era um clássico também porque, além das roupas bem aprumadas em momentos especiais, impunha-se por uma fala impecável, os pronomes e as concordâncias no lugar, as afirmações bem lastreadas em lógica e bibliografias enormes (e que não lhe pedissem para expô-las, tomaria muito tempo).

Irônico, por vezes me lembrava momentos o Wilde que descobri na biografia de Frank Harris. Naturalmente, sem as preferências afetivas de Oscar; mas com a língua tão afiada e certeira quanto a do escritor irlandês. Particularmente quando demolia adversários.

Nisso era impiedoso, exemplar.

Pessoa muitas vezes ele me surpreendeu. Uma delas, quando me perguntou: “O professor ainda reza?”. Com a resposta afirmativa e pronta, prometeu que “logo” iria deixar-me um presente.

Dois dias depois, um rosário, um mimo desses que uma editora ultraconservadora católica distribuía a seus assinantes, aportou na portaria do meu prédio. Com cartão do Nêgo lembrando que a ele apreciaria ser incluído nas minhas preces futuras. Foi.

COM OS SEDEVACANTISTAS

Por um tempo julguei que Pessoa fosse ateu; depois, o percebi agnóstico, a melhor definição então encontrada para ele. Por último, encaixei Nêgo noutro espaço: era um apateísta, alguém simplesmente indiferente à religião. Não procurava a experiência religiosa, mas a ela não se opunha. Podia mesmo admirá-la, em certos momentos.

Eu, no entanto, comecei a solidificar suspeitas sobre esse suposto apateísmo do velho amigo.

A suspeita foi ampliada quando ele telefonou-me, passado das 23 horas, para pedir-me que traduzisse certa frase. Atribuía-a São Roberto Belarmino, homem dos 1700, cuja autoria jamais consegui confirmar.

Mas não tive dúvidas: Pessoa, com sua apreciação totalmente favorável ao catolicismo pré-Concílio Vaticano II, estava lendo alguma coisa muito séria sobre o chamado sedevacantismo. Trata-se de linha de ultramontanos católicos. Para eles, o Papado estaria sendo ocupado por “usurpadores”, desde a morte de Pio XII. Nem Bento XVI escapa dessa “fornalha”.

A frase exposta à tradução era mais ou menos essa: “Propter necessitatis eficite licitum ilicitum”. Tradução aproximada: “diante da necessidade, transforme-se em lícito o ilícito”.

A frase resumiria também a bandeira dos conservadores sedevacantistas, que veem o trono de Pedro vazio. E aceitam até a sagração de um novo papa, mesmo que em desobediência ao magistério da Igreja.

aroldo_nego_filho

REPARTIR UM LEGADO

Como não sou egoísta, e sinto enormemente a partida do Nêgo Pessoa, insisto que se leia o monumental texto do Campana sobre nosso amigo comum.

Acho que conhecidos e desconhecidos têm o direito de entender a ampla dimensão do jornalista e escritor Pessoa, a quem Campana considerou ter até desperdiçado tempo a escrever sobre futebol, ele que foi dono de texto enxuto, magistral, insubstituível, criticamente cortante e cheio de alma.

Campana dá uma ideia, no final, da fauna humana de que se cercavam ele e Pessoa, especialmente na casa de Fábio, em comemorações de Natal e Ano Novo – “toda a raça pensante de nossa geração que aqui viveu ou passou.”

E arrematando, como num “pas des deux literário”– confessional, sublinha o momento provocador de seu inventário afetivo, que eu imaginava blindado e à prova de rememorações:

“Pessoa foi mais que um conviva, foi dos poucos confidentes em minhas noites escuras da alma. Tínhamos, cada um, seu próprio universo, e nem sempre a conjunção dos astros.”

Esse empréstimo-confissão de Campana é suficiente para encerrar minha jornada de memórias expostas a partir de Carlos Alberto Pessoa, o Nêgo.

Nêgo não passou em vão ou de turista pela vida. Enfrentou, por vezes com estoicismos místicos, as “noites escuras da alma” descritas por grandes espíritos, como São João da Cruz, clássico da literatura espanhola, e rememorados pela sensibilidade e espírito ímpares de Fábio Campana.

Leia mais

Deixe uma resposta