Honra feita de sangue

armando

O fato é verdadeiro; os nomes, fictícios. Ocivaldo, na periferia de Curitiba, dentro do armazém do Aparecido, entre uma cerveja e outra, entrou em violenta discussão com o Zé das Botas, um conhecido sapateiro que atendia todo mundo na região. A coisa parecia séria, pois as ofensas se multiplicavam. Zé das Botas, para evitar o pior, preferiu se retirar do local e caminhou em direção à sua casa, onde se abrigou. Não satisfeito com o desfecho da pendenga, Ocivaldo foi atrás e, chegando em frente à residência do Zé, passou a gritar ofensas contra a honra do sapateiro, provocando-o a sair e enfrentá-lo “se fosse homem”. Não suportando mais aquelas acusações humilhantes feitas aos berros perante todos os vizinhos, sua filha e esposa, Zé das Botas enfiou sua pequena faca de sapateiro na cintura e foi até o portão onde Ocivaldo vociferava e pediu que se afastasse dali, respeitando a sua família. Ledo engano, Ocivaldo aproximou-se mais ainda e diante do Zé, proferindo novas desonras e com sua sandália de borracha à mão, desferiu duas chineladas violentas nas faces dele, que ali ficou paralisado, com as bochechas vermelhas e aquecidas. Por segundos o sapateiro olhou direto nos olhos do agressor e, sacando a pequena faca, deu uma única e direta estocada no coração do desafeto, que tombou morto na hora. Zé então abaixou-se e, olhando para o rosto sem vida de Ocivaldo, disse em alto e bom tom para todos ouvirem: sou um homem de honra, viu? Em seguida fugiu. Depois se apresentou e submeteu-se ao Tribunal do Júri onde foi absolvido por unanimidade pela causa supralegal da legítima defesa da honra, uma tese já não mais aceita pelos Tribunais. Afinal, a honra não pode ser mais aceita como motivo para um homicídio passional já que o Código Penal capitula os crimes contra esta, tão somente a injúria, a calúnia e a difamação. Se julgado hoje, Zé das Botas teria sido condenado.

O fato é que a honra já está em desuso no Brasil há muito tempo. Salvo em pessoas simples, com rigorosa educação baseada nos princípios da manutenção da dignidade, a honra já não se lava mais com sangue, com suicídios e muito menos com duelos, quiçá entre as classes mais abastadas e intelectualmente privilegiadas. Exceções não contam. Pelo contrário, a sua ausência mostrou-se às inteiras nos tristes acontecimentos da Lava Jato. O país assistiu a um furacão de delações entre parceiros e amigos com acusações das mais desonrosas possíveis. Corrupção, roubo, formação de quadrilha, traições, lavagem de dinheiro e bandalheiras mil. Ninguém se ofendeu. Nenhum tapa na cara foi desferido entre os desafetos. Nenhuma “vendeta” perpetrada. Os depoimentos, devastadores de qualquer honra, foram prestados perante as autoridades sem nenhuma vergonha e foram apenas atacados com desmentidos desmilinguidos e frouxos. Os oponentes, detratores e detratados, com a honra em frangalhos, se cruzaram nos fóruns sem qualquer constrangimento. Nenhuma honra foi lavada com sangue, pois não existe um único Zé das Botas entre os colarinhos brancos e o crime contra a honra se comemora com champanhe e caviar.

Como diria Dom Pompório, personagem de Franco Saccheti (1332-1400), da honra, assim como da vergonha, há muito não se sabe, “pois tenho procurado em muitos lugares, e ainda a procuro; mas não consegui encontrá-la, nem a ela, nem a ninguém que me soubesse dizer onde ela estava. E, não a encontrando, não me importo dela nem muito nem pouco; e por isso obrarei à minha maneira, e vós à vossa, pois que hoje no mundo não se encontra a vergonha” e muito menos a honra.

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