Cine Avenida

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Feres Merhy, libanês, imigrou para o Brasil no final do século XIX e instalou em Curitiba, na rua XV, um pequeno bazar. Logo em seguida, abriu um grande empório de tecidos na praça Tiradentes.

Na década de 1920, Feres já poderia ser considerado como uma das grandes fortunas da cidade. Resolveu aplicar parte do seu dinheiro na construção do Palácio Avenida, na esquina da travessa Oliveira Belo com a avenida Luiz Xavier. A construção levou três anos e foi concluída em 24 de junho de 1929.

Nos três andares superiores, foram instalados diversos escritórios e apartamentos residenciais. A entrada do edifício era pela travessa Oliveira Belo, possuía um elevador gradeado e de portas pantográficas que largavam seus passageiros nos passadiços dos andares. O térreo foi ocupado com inúmeras lojas, bar, confeitaria e a entrada do Theatro Avenida, enorme construção no miolo da quadra, que podia ser vista ao andar pelos passadiços do edifício. A saída de emergência da casa de espetáculos era pela Oliveira Belo.

O cineteatro foi concluído e inaugurado um pouco antes, no dia 4 de abril de 1929, com luxuosa revista chamada “Rio-Paris”, de uma companhia do Rio de Janeiro, a Tro-lo-ló. A noite de inauguração foi uma apoteose, à qual, segundo registros, compareceram mais de dois mil espectadores.

De um luxo sem precedentes na Curitiba de então, as cadeiras eram cobertas com veludo vermelho que também forravam os parapeitos das frisas e dos camarotes. A primeira projeção de cinema aconteceu depois, em primeiro de maio daquele ano. O filme foi “Moulin Rouge”, possivelmente uma produção europeia contando a vida do pintor Toulouse-Lautrec. A administração do cineteatro era da firma de Antonio Muzzilo & Filhos, alfaiate famoso na cidade que tinha um slogan: “A roupa faz o homem – Muzzilo faz a roupa”.

Palácio Avenida, 1929, ao fundo o edifício Garcez em construção

Palácio Avenida, 1929, ao fundo o edifício Garcez em construção

Era o fim da era dos filmes mudos e, na corrida pelo sonoro, o Avenida perdeu para o Cine Theatro Palace, na mesma avenida Luiz Xavier, em um dia, não podendo estrear o novíssimo equipamento RCA (Radio Corporation of America) por um problema técnico. A apresentação foi na manhã do dia 24 de outubro, com a presença do governador do estado, Sr. Affonso Alves de Camargo. Passaram um curta-metragem com Giovanni Martinelli e A. Gordon cantando os mais belos trechos da ópera “Carmen” e a Orquestra Sinfônica de Nova York, apresentando trechos da ópera “Tanhauser”. O filme exibido (mudo) foi “Divina Dama” (Divine Lady) com Corine Griffith e Victor Varloni, direção de Frank Lloyd, produção Paramount de 1928. Publicidade do Avenida, com a grafia da época: “a primazia não consiste em ser o primeiro; ela ressalta para quem pode e sabe ser o melhor”. Tanto o Avenida quanto o Palácio continuaram a lançar os filmes da nova fase do cinema, alguns até da UFA alemã. A novidade tomou conta das rodas de conversa e jornais da cidade.

Saída de uma matinê do Cine Avenida em uma tarde chuvosa curitibana, no final dos anos 1930

Saída de uma matinê do Cine Avenida em uma tarde chuvosa curitibana, no final dos anos 1930

Passado algum tempo, a concessão de arrendamento do Avenida foi para Antonio Mattos Azeredo, que passou a ser o maior exibidor da capital, com a maioria dos cinemas em seu poder. Em 1941, uma estreia muito aguardada movimentava a cidade: “E o vento levou” (Gone with the wind), no Avenida, superprodução com 222 minutos, colorido, distribuição MGM de 1939, com Vivien Leigh, Clark Gable, direção de Victor Fleming, produção de David O. Selznick, inesquecível música de Max Steiner, ganhadora de inúmeros Oscars. Considerado por muitos como o maior épico saído de Hollywood, foi um dos filmes mais reprisados na cidade nos anos seguintes. Publicidade do Avenida: “Vê-lo é enriquecer a vida”. Ficou semanas em cartaz, as pessoas iam vê-lo mais de uma vez, impressionadas com a beleza da fotografia, as atuações desta saga romântica do opulento sul dos EUA, durante a guerra civil. Azeredo sofreu revés econômico e acabou devolvendo a sala para dois filhos de Ferez Merhy, que a administraram por alguns meses. Apesar de ser um excelente negócio na época, eles não eram do ramo e arrendaram o cinema ao empresário Paulo Sá Pinto, da Empresa Cinematográfica Sul de São Paulo, possivelmente em 1948, que abriu e arrendou outros cinemas na capital paranaense. Porém, o Avenida era o principal lançador de filmes da empresa, que, junto com o Palácio e o Ópera, formavam o coração da Cinelândia curitibana.

No início dos anos 1950, a sala apresentou alguns problemas de rachaduras e foi realizada uma grande reforma, perdendo sua condição de teatro. Foram retirados as frisas e os camarotes, ficando com plateia e balcão. Também foi modificada e modernizada toda a entrada.

Teatro Avenida hoje, há anos fechado. E o banco Bradesco?

Teatro Avenida hoje, há anos fechado. E o banco Bradesco?

Em meados dos anos 1960, o Avenida passou ao controle dos Zonari, junto com outros cinemas da cidade, até a compra do Palácio Avenida pelo banco Bamerindus. Funcionando já em decadência, o cinema fechou em 1988, foi demolido com todo o interior do prédio, que virou sede administrativa do banco e agência, só restando a fachada original do Palácio Avenida.
Um auditório foi construído no lugar do antigo cinema, pequeno, e com uma ampla antessala, onde funcionou um café e exposições foram feitas. O local era administrado pela Associação Cultural Avelino A. Vieira, tendo como diretora executiva Maria Christina de Andrade Vieira. Foi um período muito ativo de peças teatrais, seminários, workshops, exibição de filmes, concertos. Depois o imóvel passou para o HSBC, que tocou o auditório por pouco tempo, e este espaço permanece inativo até os dias de hoje, fechado. Uma pena mais este espaço, outrora cultural, abandonado no coração da cidade, com grande potencial de utilização, e que, esperamos, o Bradesco reative.

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