“É preto. É coisa de preto”

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“Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é. É preto. É coisa de preto”. A frase é de William Waack, dita em 2016 e vazada no começo do último novembro. Rendeu o afastamento do jornalista. Alguns “sádicos” afirmaram que foi bem feito pra ele. Ora, para ser gentil, ele “foi” racista. Racismo é crime. Deveria responder judicialmente, o que, de acordo com os jornais, já está a acontecer.

Atacar William Waack não é o mais importante. Foi traído por algum colega de trabalho. Nos bastidores dizem que ele é de difícil convívio. Boatos de Flávios Ricci e Maurícios Stycer da vida contam que foi por implicância sua a partida de Christiane Pelajo para a Globo News, pois o casamento de ambos na bancada do Jornal da Globo estava insustentável.

Não é também o caso de desmerecer toda a sua trajetória, seu currículo, seus positivos feitos. Augusto Nunes parece não ter compreendido o caso e de maneira pouco inteligente saiu em defesa do amigo, enaltecendo sua carreira como um dos mais importantes repórteres do jornalismo. “William tornou-se o melhor correspondente de guerra do mundo”. Reinaldo Azevedo também o defendeu, usando o argumento do público versus privado, a questionar “Quantos dos que me leem ou dos que atacam William nas redes resistiram à exposição pública de falas privadas?”.

Ora, crime privado também é crime, ou não? Desconheço a legislação e não disponho agora de tempo para conhecê-la. A questão a ser debatida aqui não é exatamente esta, tampouco o caso William Waack em si, afinal parece-me algo com poucas margens de debate: o jornalista foi racista, e isso nada tem a ver com o PT, como indicou Augusto Nunes em momento de delírio. O caso é o racismo crônico que habita a sociedade brasileira, logo a brasileira. É o caso de deslegitimar a luta contra o racismo com a alcunha irônica do politicamente correto. Parem de falar isso. É coisa de gente apedeuta que aparentemente parou em teorias racistas do século XIX.

A tomar como ponto de partida o caso do jornalista, tentarei mostrar ao leitor o óbvio ululante.

Foram trezentos anos de escravidão. Escravidão negra. À época da abolição, o negro conquistou um dos direitos mais fundamentais pregados pela tradição liberal por que tanta simpatia têm os Nunes, Azevedos e Waacks: a liberdade. Para o negro do fim do século XIX, liberdade significa sair de onde estava, ou seja, amarrado nas fazendas dos donos da casa-grande. Partiram para as cidades. Inflaram de uma hora para outra os centros urbanos. Os governos, o em coma Império e a nascente República, estavam preocupados demais com a pressão dos donos de escravos que pediam indenizações, não podiam ficar a deus-dará, e não puderam desenvolver políticas públicas para inserir este negro liberto na sociedade. Isto num primeiro momento de aspectos práticos da vida. Aparentemente a história do Brasil é marcada por isto: uma classe abastada choramingando porque classes sem eira nem beira conquistam o que não deveria ser conquistado, deveria ser direito estabelecido.

Defender a ideia de que o Estado não deveria usar seu forte aparato para inserir este negro, que ficou trezentos anos a viver uma vida de cativo, em nome de um liberalismo farsante é tão descabido que não valeria a explicação, mas como há na sociedade brasileira a defesa desta tese, inclusive nos “formadores de opinião” cujo esclarecimento deveria estar em outro patamar e não no combate do “politicamente correto”, poucas linhas serão necessárias para mostrar esta necessidade: como este negro, recém-liberto, competiria social, intelectual e materialmente com o branco que ia a Coimbra estudar direito, medicina ou engenharia? Ou, já que nem toda a sociedade dispunha desta possibilidade, com os trabalhadores livres que podiam acumular “riquezas” com a força de seu trabalho? Quem argumenta que ao negro não confere a necessidade ou o direito de ir a Coimbra, ter uma vendinha, acessar as casas do poder político ou qualquer outra coisa “destinada” aos brancos, está sendo racista, pois usa o critério da raça: o “negro” não precisa ou não pode.

Isso se estendeu para a sociedade dos séculos XX e XXI, e hoje os maiores índices de criminalidade são da população negra, pois os menores índices de educação também são da população negra. Ao negro restaram os trabalhos quase equivalentes ao da escravidão: os negros são servos de uma classe média bisonha que prolifera contra o politicamente correto, são seus porteiros, suas diaristas, babás, jardineiros. Os negros hoje limpam privada de gente branca. Isso me lembra aquela história do senhor e do servo que Hegel escreveu: o senhor é tão dependente do servo como este daquele. Ora, um branco de classe média não sabe limpar a própria privada, fazer a própria comida, educar o próprio filho. É esta sociedade brasileira em que vivemos. E este branco de classe média quer insultar o politicamente correto? Não existe politicamente correto, existe uma população negra a serviço da população branca.

A CONSTRUÇÃO INTELECTUAL
O negro no Brasil foi historicamente posto em patamar inferior, a começar com o exemplo anterior da escravidão. Intelectuais brasileiros – com a necessidade de importar do mundo europeu civilizado suas modernas teorias – no fim do século XIX e início do XX arrumaram no darwinismo social de Spencer, antropólogo inglês, a justificativa para afirmar que o negro era inferior, pois não havia chegado ao patamar de civilização das sociedades brancas. Silvio Romero, sociólogo sergipano, famoso por ser um dos ícones do positivismo brasileiro, acreditava, e isso era difundido em suas obras, que o problema do Brasil era o negro e os mulatos, e precisava passar pelo processo de embranquecimento e isso seria feito com os imigrantes europeus. Oliveira Vianna, contemporâneo de Romero, tido como sério por muitos durante muitos anos, delirava em suas afirmações. Suas obras têm como principal referência ele próprio, e chegou a afirmar que mulatos e negros não gostavam de trabalhar, coisa que é presente no imaginário do brasileiro de hoje, entre os que dizem que o negro é “vagabundo”. Mas, por ser mulato, Vianna afirmou que havia os superiores, “arianos pelo caráter e pela inteligência ou, pelo menos, suscetíveis de arianização, capazes de colaborar com os brancos na organização e civilização do país”.

Os exemplos de racismo na produção intelectual brasileira são vários. Poderia estender aqui por mais páginas um sem-número de teorias e teóricos brasileiros que enaltecem o branco e conferem características psicológicas negativas ao negro pelo fato de ser negro. Gostaria de citar um último caso que reflete muito bem o que aconteceu com William Waack.

Gilberto Freyre foi o divisor de águas no universo racista brasileiro e partiu em defesa dos negros, pelos quais tinha este autor profunda ternura. Mas pelo negro escravo, aquele que “conhecia sua posição”. No caso de Freyre, seria a ama de leite ou o moleque saco de pancadas do menino rico, a cozinheira. William Waack deve ter apreço pelos negros também, não deve achar que negros devam ser privados de direitos fundamentais da nossa democracia moderna, assim como quem partiu em sua defesa, contanto que eles saibam o seu lugar. Nos dias de hoje não é muito diferente dos de ontem: seu lugar é como porteiro, como empregado, subordinado, como aquele que deve lhe servir. Isso não revela a defesa da escravidão, claro que não. Imagino que Waack e seus defensores não delirem a tal ponto, mas revelam, por sua vez, a atitude escravocrata.

Falar desta construção intelectual é necessário, pois ela forjou no imaginário brasileiro a imagem negativa do negro. O pensamento dominante brasileiro não teve, no período citado, nenhuma expressão significativa de exaltação do negro, como o índio teve, por exemplo, com o romantismo. O negro foi para esses intelectuais o que de pior havia no Brasil e, como se observou, mesmo em pessoas esclarecidas como William Waack, que estudou na Alemanha, é o melhor correspondente de guerra do mundo etc., o pensamento negativo em relação ao negro é presente. Quem de nós já ouviu com tom pejorativo ou negativo, tal qual fez Waack – e quem nega isso é desonesto ou ignorante –, a falar “é coisa de branco, só podia ser branco”? Isso mostra o racismo, pois o negativo, o ruim, o que de pior temos é conferido ao negro, como os intelectuais do começo do século propuseram e uma manada reproduz.

Se você chegou até esta parte do texto e concluiu que se trata de mais um politicamente correto, desculpe a indelicadeza, mas você é apedeuta e racista. Pois o que foi posto aqui não se trata da minha opinião ou não. Trata-se de os negros viverem ainda hoje como cidadãos de segunda classe, sujeitando-se a trabalhar para o branco de classe média e dar aleluia a este branco como se estivesse lhe fazendo um favor. Na vida em sociedade não há favor, há trocas. E na sociedade brasileira o negro dá muito mais e recebe muito menos.

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