Gratidão

edmilson

Acho que uma das formas mais maravilhosas de expressão do ser humano, se não a mais, é a gratidão.
Do latim “gratia”, traduz-se por graça, um reconhecimento por algo que recebemos de outrem, sem o envolvimento de valor pecuniário na retribuição, pois seria impossível quantificar monetariamente essa dívida. Sim, quem é verdadeiramente grato sente-se endividado com o outro. Essa é a dívida de gratidão.

Salvo melhor juízo, a meu ver, as pessoas têm perdido essa noção. As relações têm experimentado uma superficialidade e se desenrolado de uma maneira tão individualista, que essa dívida, muitas vezes, sequer é reconhecida.

Alguns poderão dizer que é uma visão pessimista do caminhar dos tempos, porém, quem me conhece sabe que sou um otimista de plantão. Muito crente no ser humano e nas suas possibilidades, mas, realisticamente, não posso negar essa observação.
Por júbilo, pertenço à classe médica que tem possibilidade maior de presenciar esses gestos, justamente por lidar com a vida. Ainda que, por vezes, o reconhecimento possa ser silencioso e a incompreensão, quase sempre, um alarido desconexo.
Às vezes essa demonstração de gratidão acontece de maneiras muito inusitadas.

Certa vez, operei um paciente com cálculos de vesícula, pelo SUS. Ao dar alta para ele, morador de uma cidade do interior chamada Cantagalo, recomendei tirar os pontos sete dias depois na sua própria cidade, para não ter que se deslocar novamente a Curitiba, pois cerca de 350 km separam os dois municípios.

Qual foi minha surpresa ao vê-lo, sete dias depois, com um pacote nas mãos, dizendo “Doutor, fiz questão de voltar, pois queria dar-lhe este presente. Estava sofrendo há tempos e o senhor me ajudou.” Abri o pacote e era uma embalagem com 12 latas de cerveja. “Não sabia se o senhor bebia. Se não beber, pode dar para as enfermeiras que eu não vou ficar chateado”. Foi autêntico. Planejou e executou uma ação, pois queria mostrar toda sua gratidão. Sentiu-se endividado. A cerveja era tão ruim quanto o seu português, mas o seu gesto foi de uma nobreza que destilava uma alma em estado puro, inocente. Lavrador que semeava a terra todos os dias, naquele momento semeou esse gesto maravilhoso. Viajou 350 km num pós-operatório de retirada de vesícula, com dor seguramente, pois precisava mostrar sua gratidão. Tivesse vindo só para tirar os pontos, já seria uma homenagem.

São gestos como esse que me fazem crer cada vez mais no ser humano. Mesmo diante de uma degeneração muitas vezes vista em cenas horríveis, um gesto assim faz uma estrela nova brilhar no firmamento.

Um dia li um artigo do jornalista Fernando Martins sobre o obrigado. Dizia ele que um professor seu concluíra que nem sempre as palavras conseguem abarcar todas as dimensões da realidade que pretendem exprimir. E que existiam três patamares da gratidão. O mais superficial é reconhecer o benefício recebido. O segundo patamar contempla o primeiro e dá um passo adiante: é dar graças pelo favor. O terceiro mergulha num nível maior de profundidade: a retribuição.

E foi assim que eu vi esse gesto do meu paciente: sentiu a necessidade da retribuição do que eu tinha feito por ele, sem a menor preocupação com as ações, senão simplesmente estaria tentando pagar e não retribuindo.

Só com muita pureza e leveza de alma alguns conseguem esse gesto. A gratidão é a expressão máxima do que o ser humano tem de melhor para oferecer depois do amor.

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