Milagre na favela

simoes

Nos charcos do silêncio, há gritos soterrados. A favela, porém, é um clamor surdo. Um clamor feito de barracos encardidos e ruelas malcheirosas. Visto da elevação onde se encontram os cinco personagens desta narrativa, à luz fraca do crepúsculo, o casario irregular – tábuas e zinco e desalento – tem qualquer coisa de um cenário de teatro. Em primeiro plano, os atores mirins atuam. Ao natural. Estão vestidos a caráter – sujos, maltrapilhos. Pobres personagens de um drama tão rico! Rico de miséria, de fome, de sofrimento. Ei-los sentados em círculo. Nomes? Simples nomes de artistas quase anônimos. O mais novo não tem mais de sete anos. Chama-se Zé. Simplesmente, Zé. O mais velho, o Carlão, talvez já tenha feito doze. Os outros? Pé Ligeiro, Chiquinho e Lico. Moleques, piás – lembram vira-latas em forma de gente. Pobres vira-latas! Ninguém enxerga neles, quando perambulam nas ruas, aquilo que eles são: meninos. Tristes meninos curtindo a ausência do que nunca terão – uma infância feliz.

São filhos da noite e da sarjeta e do lodo dos pântanos. De onde vêm eles, pés descalços sobre pedras e espinhos do tempo? Vêm da placenta dos becos, do útero das vielas e da volúpia às avessas do desamor. E têm qualquer coisa, pobres deles, de pequenos animais predadores de duas patas. Trazem nas faces, tatuadas no olhar a ferro e fogo, as impressões digitais da fome ancestral, e na alma as cicatrizes da dor e do cansaço – do cansaço da dor. E nas suas mãos crispadas com violência, as unhas de luto crescidas como garras gritam a vontade de estrangular o mundo. Apesar de tudo, às vezes cintilam em suas pupilas réstias de luz ainda não de todo apodrecida. E sonham – inexplicavelmente ainda sabem sonhar. E cultivam, nos seus breves jardins desencantados, as violetas e os malmequeres da esperança. Que importa se eles murcham quando a noite de pedra desmorona sobre o mundo? Voltarão a florir. Voltarão a florir quando os lírios da madrugada, beijados pela brisa, desabrocharem no céu. Não, o desespero ainda não tomou – não conseguiu tomar – as suas almas sitiadas. E como podem essas almas imortais resistir ao assédio do monstro, dentro de vasos de argila tão frágeis? Resistem. Resistem, apenas – mas até quando? Se alguém lhes perguntar o que querem ser na vida, as respostas virão, apesar de tudo, perfumadas de esperança:

— Eu quero ser jogador de futebol.
— Eu vou ser médico. – Vou ser: uma vontade forte.
— E eu, talvez seja engenheiro. – Talvez seja: a simbiose da crença e da dúvida.
— Aviador. – A saudade do céu ou a vontade de fugir da terra dos homens? Só o quinto não responde. Não sabe. Talvez não queira ser nada. Talvez pretenda continuar sendo menino a vida inteira. Limita-se a sorrir. E há no seu sorriso pálido um não sei o que de amargura, inconsciente da própria existência à flor dos lábios, como se ele fosse, não a emanação dos recessos do espírito, mas um ritus azedo da boca. Mas é a exceção – o Lico é a exceção. Os outros não perderam ainda o dom mágico de construir castelos sobre areias douradas, na orla da praia da imaginação – fitando o mar do real. Porém, entre um sonho irrealizável e uma esperança impossível, o que lhes resta? A terra de ninguém, o infinito terreno baldio do quotidiano, povoado apenas de cactos e cobras e urubus negrejantes.

Sentados em círculo, os cinco conversam, animados – sob o alpendre antiquíssimo da noite. Sonhos. Sonhos que se elevam, em volutas sonoras. Só o Lico, cético, não consegue sonhar. Não consegue ou não sabe? Os outros falam, falam, vão contando os episódios de mais um dia que repetiu a monotonia dos outros – um deserto com breves oásis. Um cheirinho de cola, uma fumacinha rápida, o êxtase em frente da vitrina da confeitaria – formas de escapar das algemas da realidade. Mas também emoções. O grito da jovem quando o Pé Ligeiro arrancou a sua bolsa do braço e se perdeu entre o povo, como um torrão de açúcar que se dissolve na água. O furto na loja de armarinhos e a imprecação do turco de bigodes triunfais – “béga ladrão!” – e a fuga excitada, perseguido pelo “seu” guarda, a lei em forma de gente. Mas o que é a lei, na lagoa dos trombadinhas, em face do oceano dos trombadões de colarinho branco?

Moleques, guris, piás. Bandeirantes do asfalto, andarilhos da terra batida. Desbravam florestas de latas de lixo. Disputam com os cães, em busca de um osso, restos de comida. E nesses instantes, mais que em quaisquer outros, parecem membros enjeitados da espécie humana – quando são irmãos nossos!

De repente, a conversa deles torna-se mais grave. Especulam. Filosofam.

— Tu acredita em Deus?
— “Credito”, não…
— E você?
— Sei, não. O pai do Juca do bar diz que Deus não existe. E ele sabe das coisa. Tem o quarto primário…
— Pois eu acho que Deus existe. – O Chiquinho falou.
— Como é que você sabe? – Havia interesse na voz de Pé Ligeiro.
— Sei, ora. – Sabia, simplesmente sabia. Não é isso a fé?
— E como é que é Deus? – O Lico, descrente mas curioso, fez a pergunta.
— Um velhinho igual a Papai Noel…
— Tão velho assim?
— Mais velho ainda.
— E pode tudo?
— Tudo.

Olharam-se mudamente. O silêncio alastrou-se – clareira num bosque de palavras. A mansidão da noite por toda a parte. Não nos seus estômagos, que doíam. Tinham fome. (E como é concebível que haja crianças com fome?) Foi nesse instante que, vindo das entranhas da noite, outro menino foi se aproximando. Maltrapilho e sujo como eles. Só que menorzinho – tinha cinco ou seis anos. Fitando o grupo com seus olhos muito vivos – cada um teve a impressão de que ele o olhava em particular –, o menino disse apenas:

— Oi, gente!

E fez um gesto de saudação com a mão esquerda – na direita trazia um pequeno embrulho.

— Pode chegar, companheiro – falou o Carlão, porta-voz do grupo. — E vai sentando…

O desconhecido sentou-se entre o Zé e o Chiquinho. Havia nos seus olhos um brilho estranho, que eles não perceberam. E ele ergueu de novo a voz:

— Vamos comer?
— Boas palavras, irmãozinho – disse Pé Ligeiro.

Ele abriu o embrulho: pão e frutas – maçã, banana, manga. Os meninos entreolharam-se: daria para todos? O recém-chegado serviu cada um deles – pão e uma fruta. Começaram a comer, em silêncio. Voltou a servi-los, com uma expressão ansiosa. Mais pão, mais frutas. Continuaram comendo. Há quanto tempo não comiam assim? Talvez nunca.
— Como é, estão gostando?

Na voz do menino havia a música das esferas. E nas suas pupilas brilhava a luz de uma galáxia longínqua. Foi então que a voz do Carlão pareceu rosnar, nervosamente:

— Como é que pode? Você trazia um embrulhinho à toa, deste tamanho – e fez um gesto descritivo com as mãos — e nós estamos comendo, comendo à farta e a comida não acaba nunca… – Havia suspeita no seu olhar. — Por acaso você trabalha em circo ou é mágico?

Ele negou com um movimento de cabeça – e os seus lábios sorriram de leve. E falou de novo, com a sua voz cantante de arroio cristalino:

— Preciso ir andando…
— Já? – estranhou o Carlão.
— Sim, é muito tarde. A minha mãe talvez ande à minha procura, como da outra vez…
— Que outra vez é essa que você está falando?
— Bem, isso é segredo…

Foi embora. Os olhos dos cinco viram o seu vulto perder-se nas dobras da noite. Havia agora neles uma sensação de paz, de plenitude interior, de bem-estar físico. Estavam saciados. Saciados por aquele pão mara-
vilhoso, por aquelas frutas suculentas e doces – nunca haviam comido nada tão bom. Mas estavam saciados, sobretudo por aquela voz que tinha a maciez das pétalas e a doçura do mel. Bem-aventurados os que têm fome, pois serão saciados…

— Quem era ele? – A voz do Zé riscou a ardósia da escuridão.
— Não sei, mas desconfio que… – O Carlão começou a falar, mas parou.
— Pois eu sei quem ele era – disse o Chiquinho. — Era o Menino Jesus.
— Será? Tás brincando… – Carlão duvidava.
— Era ele. – A certeza.

E, de repente, a simples possibilidade de que o Chiquinho pudesse estar dizendo a verdade, acariciou a epiderme das suas almas. Seria Ele, de fato? Era bom demais para ser verdadeiro. E por que não? Afinal, não era essa a Sua noite, a Sua antiga e sempre nova noite de Natal? É certo que ali, na favela, não havia sinais do tempo natalino. Na cidade, porém, eles haviam visto por toda a parte as marcas da sua presença – pinheirinhos grávidos de lantejoulas irisadas, presépios com a Sagrada Família, e pastores feitos de barro e sol e luar, vitrinas abarrotadas de doces e frutas de toda a espécie, ruas feericamente iluminadas, as pessoas andando, apressadas, carregando montes de presentes, e quase sempre com as almas vazias. Ah, como seria melhor um Natal diferente, sem a parafernália das coisas materiais que apenas alegram os olhos e os estômagos – e com mais luz dentro dos corações!
O grupo meditava, siderado.

— Foi ele! – repetiu o Chiquinho, voz baixa, expressão sonhadora, como se falasse consigo mesmo.

Os outros moveram a cabeça, em muda concordância. Sim, tinha sido Ele, o Deus infante – não havia mais dúvidas. Vindas de longe, nas asas da brisa, as vozes de cristal dos mesmos anjos de outrora, cantaram, na infinita solidão da favela adormecida, o seu canto de esperança, aquele mesmo canto que ecoara há dois mil anos nos recessos da pequenina gruta de Belém:

— Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!

E essas vozes, e o esparadrapo da noite, e o unguento dos astros foram se derramando nos corações feridos das crianças, como um bálsamo. Adormeceram, com a alma em festa. E todos sonharam que o Menino Jesus havia estado entre eles, igual, exatamente igual, divinamente igual a um menino qualquer.

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