Nosso encontro com El Gran Capy

capy_0_abre

“El Gran Capy foi um dos melhores motociclistas acrobatas de sua época, na América do Sul, um dos melhores globistas e o mais criativo piloto da Muralha da Morte. O mais arrojado. E por que não o mais sedutor e intrigante condutor desse tipo de arte?”

Estamos desconectados da memória? Aquela física da comunhão das fotografias, cartas e objetos? Estes que contam a história de famílias que fizeram grandes viagens até chegarem à terra natal e as que contam das caminhadas difíceis, mas vitoriosas, ou até mesmo as que fazem lembrar uma personalidade regional marcante, mas que aos poucos ficou apenas no papel. Hoje estamos líquidos e o que dirá nossa memória futura não se sabe. Mas ainda há muito do que foi aqui. E, principalmente, existem pessoas que fazem essa comunhão chegar às vias de fato. Organizam, contam, relembram e fazem livros.
capy_1_capa
Patrícia Iunovich, ao escrever “El Gran Capy: as fantásticas aventuras de um motociclista na muralha da morte” foi além do labor. Por ser filha de Capy, trouxe em seu livro tudo o que implica estar conectada a uma grande personalidade tão intensamente, mas também fez o que é necessário e precioso: legou a memória de seu pai à história. Onde, agora, permanecerá.

Capy nasceu na Argentina. Era de Morón, Buenos Aires, e tinha um tremendo orgulho da terra em que brotou. Mas seu nome não era Capy, era Antônio Francisco Iunovich. Ganhou o apelido pelos dentes grandes e saltados que lembravam os de uma capivara. Então ficou Capy, e no diminutivo só o apelido, pois, como conta Patrícia, desde sempre foi vaidoso e cheio de si. Sabia e dizia que era bom em tudo. Destemido, mais escolheu a sua arte do que foi escolhido. Tinha paixão por qualquer brincadeira perigosa, então logo se agarrou às motocicletas e se apaixonou por elas e por carros.
capy_2
Já desenvolto em duas rodas, viu com a chegada de um circo à cidade a oportunidade de ser globista. Para isso precisava mostrar que sabia o que pretendia ao dono do espetáculo. Foi e fez. Sem nenhum medo ou insegurança, correu com maestria na muralha da morte e foi aceito de imediato. Com uma semana de treinamento, já era o destaque da atração. Foi só o começo. Daí em diante a riqueza e o interesse pela história que Patrícia conta só aumenta. Conhecer Capy pelos olhos da filha e autora é sofrer decepções e alegrias, é torcer e conhecer um grande.

Sua trajetória como globista e grande atração artística de circo se dá com a deserção do exército. Precisava seguir a trupe e partir para o Uruguai. Documentos falsos não o impediram, foi e fez, mais uma vez entre tantas.
capy_4_As-apresentações-em-cidades-uruguaias-eram-um-acontecimento
“Vai começar o maior show de motociclismo de todos os tempos. Orgulhosamente, apresentamos El Gran Capy e Príncipe Nino. Uma salva de palmas, por favor.” O início do espetáculo o confirmava, as palmas o levavam em frente e com harmonia no rosto, mesmo com olhos temerosos acima, subia a muralha à vontade. As fotos que Patrícia reúne no livro deixam tudo que escreve mais evidente e causam essa surpresa e fascínio.

O malabarismo era com seu próprio corpo. Patrícia escreve que ele conduzia a moto de maneira tão singular que chegava a comandar apenas com os pés e com as mãos soltas. Os giros eram de 180 graus e não havia nenhuma proteção. Cara e coragem feita em dupla, o que deixava o espetáculo ainda mais tenso e brilhante. Capy e Nino, seu aprendiz e discípulo, corriam juntos em alta velocidade, sem medo de a moto falhar ou de estarem fora do tempo exato. Era assim, e Patrícia, em uma matéria para a Piauí, explica a diferença entre a muralha e o globo da morte: “O globo é uma esfera metálica na qual o motociclista se exibe como um hamster girando na gaiola. Dentro dela, basta acelerar que a força centrífuga mantém as rodas da moto coladas ao chão. Tanto faz se o chão está em cima e o piloto de cabeça para baixo. A muralha da morte é uma espécie de globo sem filtro. Sua arena se resume a um cilindro de tábuas, com 7 metros de altura por 20 de circunferência. Os pilotos saem do chão, ganham altura por meio de uma rampa circular e, a partir dos 80 quilômetros por hora, parecem soltos no ar, de tão grudados na pista. Com a vantagem de não estarem trancafiados numa malha de aço como no globo, mas livres para se comportar como se estivessem numa estrada sem fim nem horizonte. Podem até passar rente ao público, que se debruça na borda do circuito, sobre as paredes a prumo. E tocar as mãos que a plateia eventualmente lhes estenda. Quando tocava no assunto, El Gran Capy explicava: ‘Na muralha, a gente fica pertinho do público. No globo, o espetáculo é distante. Não tem comparação, os giros são muito mais bonitos.’”
capy_6_Capy-sentado-de-lado-na-moto-faz-sinal-de-positivo-para-o-público
Nas viagens pela América do Sul, angariou dinheiro, fama e mulheres. Também uma esposa, Dora, Doracy Monteiro de Carvalho, mãe de Patrícia, que conheceu Capy em Goiânia, mas morava com a família em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Apaixonaram-se, como era comum a Capy em suas viagens. Só que dessa vez foi além: Dora fugiu com o artista e escolheu viver uma vida nômade e na maior parte do tempo conturbada. Acompanhou a fama de Capy, que teve muito dinheiro entre 1965 e 1975, mas não teve nenhuma mordomia, pelo contrário. O artista não melhorava a sua vida e, mesmo juntos, pensava nas muitas mulheres que colecionava pelo caminho. Dora sofreu e amou intensamente. E entre idas e vindas, brigas e separações, os dois tiveram três filhos: Jarvas, Patrícia e Jader.

Capy foi um artista. A adrenalina podia o mover, mas a destreza e os movimentos caracterizavam o poder da arte em seu corpo. Tinha gosto pela liberdade fora e dentro da muralha. Livre e vaidoso ao estilo James Dean, rebelde sem causa, que demorou a abandonar. Corria da moto para os colos femininos, para o álcool e os cigarros. Também amava os filhos, que viviam numa eterna oscilação em relação ao pai. Gastava tudo que ganhava sem muita organização e continuava a vida como bem entendia, mas que nunca havia planejado.
capy_8_Da-esquerda-para-a-direita,-funcionário-do-parque,-Capy,-Dora-com-o-caçula-Jader-no-colo-e-Ñata-(irmã-de-Capy)
Em 1980, Capy mudou seu estilo de vida e as consequências dos gastos e transações malfeitas apareceram. Vendeu a muralha da morte que projetou nos tempos áureos para o empresário Beto Carrero, que, sem sucesso, acabou por falir o empreendimento. Após quase vinte anos numa vida de pura adrenalina, arte, sabores e amores, ele se despediu da muralha que era seu mundo e partiu para Foz do Iguaçu, onde freou sua própria trajetória sem patrimônio e grandes heranças a legar. Ainda alertava que não deixaria nada a ninguém, “se quisessem que trabalhassem.” Em Foz abriu um lava-car, onde permaneceu próximo até o fim das máquinas que tanto dominava. Colecionou experiências e vitórias que por muito tempo só pertenceram a ele e àqueles com quem conviveu e que puderam assistir aos seus shows.
capy_12_Capy-recebendo-o-cumprimento-do-então-governador-do-Rio-Grande-do-Sul-(1963-a-1966),-Ildo-Meneghetti,-ao-lado-do-parceiro-João-Salomã
Em 2009, no dia 31 de dezembro, faleceu aos 73 anos. Repetia que a vida era uma grande ilusão. Saudoso partiu, mas sua herança foi além do material. A autora e filha, a viver sua saudade e seu maior orgulho, reuniu tudo o que tinha ao alcance. Entrevistas, documentos, fotografias e lembranças ‒ quis proteger uma bela e louca história, como tantas que desconhecemos, como poucas que ficam. Patrícia, nessa levada, conta como conheceu sua irmã uruguaia, do mesmo pai, que não dizia ao certo se ela existia. E no posfácio descreve o encontro de sangue com uma beleza de encher os olhos. O desfecho é bonito e feito com a maestria que só a família de Capy podia dar. Um livro feito pela vida e pela memória.
capy_13_Capy-no-alto-da-muralha-com-um-de-seus-parceitos,-Mr.-Richard

capy_14_Ñata,-irmã-de-Capy-e-Carlito-Carbajar,-funcionário-do-parque-no-Uruguai

capy_15_Aqui,-no-Brasil,-Capy-no-comando-só-com-um-pé

Leia mais

Deixe uma resposta