O camponês de Curitiba

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Há vinte anos nos vemos toda vez que ele vem ao Rio ou eu vou a Curitiba. Magro, tímido, calado, óculos de lentes grossas, cabelos cor de areia cortados rente, ar de rapazinho estudioso, jeito de filho de imigrante (Hélio Pellegrino o chama de camponês), ele vem ao Rio em geral para cuidar da edição de seus livros. E para bater papo com o Otto Lara Resende.

Volta e meia está por aqui, trazendo para publicação um novo livro de contos, e acertando com o editor a reedição de outro. Quando lhe disse que queria escrever qualquer coisa sobre ele, pediu que eu deixasse de brincadeira:
– Não faça isso: eu morro de vergonha.

Insisti, dizendo que ele não podia deixar de reconhecer que era um escritor famoso, um homem público – não tinha de quê sentir vergonha.

– Pois eu sinto, que hei de fazer? Para mim a literatura é uma atividade vergonhosa.
– Vergonhosa como?
– Vergonhosa: solitária, envergonhada.
– Fruto de humilhação, como disse o Paulo Mendes Campos?
– Pode ser. É uma tentativa de comunicação. E de maneira indireta, muito complicada. Talvez o meu impulso inicial mais secreto seja me vingar do mundo, me afirmar contra o mundo. Procurar ao menos uma arma para me defender — porque no corpo a corpo eu sairia perdendo.

Num texto sob o título “Quem Tem Medo de Vampiro?” ele próprio se antecipa aos ataques alheios:

Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João, a mesma bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passarinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens. Quem leu um conto já viu todos. Se leu o primeiro já pode antecipar o último – antes mesmo que o autor. É a sua sagrada família de barata leprosa com caspa na sobrancelha, rato piolhento com gravata de bolinha, corruíra nanica com dentinho de ouro.

Começou escrevendo em jornal, foi repórter policial, fez crônica de cinema. Mas isto como atividade ocasional e mal remunerada. Queria transmitir uma experiência mais profunda e descobriu o conto como o gênero ideal, que não abandonaria mais por nenhum outro. Nunca teve uma ideia a exprimir para a qual o conto não bastasse. E contos cada vez mais curtos, na procura do essencial. Tudo serve:

– Procuro catar qualquer cisco, para com uma porção deles fazer um ninho e botar o meu ovo.

Escreve em geral sobre a experiência dos outros: pessoalmente sua vida é muito tranquila. Afora as vindas regulares ao Rio e São Paulo, vive metido em Curitiba, ou, mais precisamente, na Rua Emiliano Perneta. Não sabe a que horas dorme: na realidade não dorme. Um vampiro? Já houve quem o apelidasse “O Vampiro de Curitiba”, pela sua aversão ao convívio social.

– Pelo menos, procuro me livrar dos chatos – reconhece ele.

Não é um vampiro: passa as noites em claro porque é um insone profissional, como Manuel Bandeira era um tímido profissional. Deita-se, o sono não vem, sente medo, e, embora não creia em Deus, passa o tempo rezando contra os temores noturnos. Sai da cama ao primeiro ruído do amanhecer, verdadeira redenção para ele, o canto dos anjos matutinos: o primeiro canto da corruíra.
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– O que é corruíra?
– Um passarinho. Você é um ignorante, não sabe o que é corruíra.
Mais de oitenta palavras não tem o seu pobre vocabulário. O ritmo da frase, tão monótona quanto o único tema, não é binário nem ternário, simplesmente primário. Reduzida ao sujeito sem objeto, carece até de predicado – todos os predicados.

Presumido de erótico, repete situações da mais grosseira pornografia. No eterno sofá vermelho (de sangue?) a última virgem louca aos loucos beijos com o maior tarado de Curitiba.

Recolhe-se então a uma cabana no jardim de sua casa, onde fica escrevendo (ou não) até a hora do almoço. A todo momento tem de fazer flexões e dar uns pulinhos, que o frio da cidade é terrível durante nove meses do ano.
– Quer dizer que você também dá seus pulinhos.

E como não? Durante o dia trabalha na indústria do pai (cerâmica), da qual tira o sustento da família (mulher e duas filhas). Não tem nenhuma distração especial, a não ser a literatura. A música, para ele, é simplesmente uma maneira prática de se livrar dos ruídos que o cercam: no mais, um ruído como qualquer outro. Nenhuma predileção por este ou aquele filme, embora reconheça que o cinema é a arte de nosso tempo. Instado a citar alguém que admira no munda da arte, fala de Gary Cooper, seu papel em “Matar ou Morrer”. Cita o ator porque o que lhe interessa é o mito, o herói que ele encarna – pouco lhe interessa o diretor.

Seu melhor amigo é o Otto – e sorri feliz ao falar isto. Espera morrer aos 99 anos. Está atualmente à beira dos cinquenta. Uma das grandes surpresas de sua vida é que não se vê hoje como imaginava que seria um homem de cinquenta anos quando tinha dezoito: sente-se mais jovem. Ao passo que aos dezoito anos era um velho – época negra, insegura e atormentada de sua vida.

Não tomou conhecimento da apregoada revolução de costumes de nosso tempo:

– Ainda não chegou a Curitiba.
A Rua Emiliano Perneta continua sendo uma rua da Sicília. A juventude atual, pelo menos vista da perspectiva de seus dezoito anos, não merece muita fé. Como na velha frase de Voltaire: os que não prestam também foram jovens.
– E os que prestam?
Bem, estes ele não conhece: ser jovem, para ele, não é desculpa. Presume-se que o jovem seja pior, e não melhor do que os mais velhos.
– Você é um triste.
Sim, considera-se um triste: não tem motivos para ser alegre. Mas sua literatura não é triste, pelo contrário: é bem-humorada.
– Então falemos noutra coisa: futebol, por exemplo.

Futebol? Se assistiu a um jogo na vida, foi muito – aos doze anos de idade. Na Copa do Mundo torce, mas contra a própria Copa: por causa da Fifi. Como todo pequinês, a Fifi é muito sensível a foguetes e bombas e em jogos da Seleção Brasileira as bombas assustam a cachorrinha:

– Meu amor pela Fifi é maior do que meu amor pela Seleção Brasileira.

Um talento não se pode negar: o da promoção delirante. Com falsa modéstia, não quer o retrato no jornal – e o jornal sempre a publicá-lo. Nunca deu entrevista – e quantas já foram divulgadas, com fotos e tudo?

Mestre, sim, no plágio descarado: imita sem talento o grafite do muro, a bula do remédio, o anúncio da sortista, a confissão do assassinato, o bilhete do suicida. Sinistro espião de ouvido na porta e olho na fechadura.

Sente-se mais curitibano que brasileiro e não toma grande conhecimento da existência da América Latina. As generalizações o desgostam. Defende-se da acusação que lhe fazem de escrever apenas sobre os aspectos sórdidos da vida, afirmando ser um moralista: não se compraz nesses aspectos, pelo contrário – procura mostrá-los como parte inegável da natureza humana.

– Mas não existem só esses – comento.
Reconhece que tem uma visão muito pessimista da natureza humana:
– Todo homem é fundamentalmente mau, com raros momentos de grandeza.
– Nenhum fundamentalmente bom? Nem Cristo?
– Cristo foi grande. Mas tem certas coisas… Por exemplo: a condenação de Judas. Ora, já estava escrito, Judas fazia parte do jogo, não merecia ser condenado. E a maldição da figueira? Queria comer figos, não era tempo de figos! E então amaldiçoou a figueira. Isso de manhã – de tarde a figueira estava seca, sem uma folha.

Exibicionista, ai desgracido, quer o nome sempre em evidência. Já ninguém fala ou suporta, um por ano, todo ano? Pérfido amigo, usará no próximo conto a minha, a tua confidência na secreta mesa de bar. Cafetão de escravas brancas de louca fantasia, explora a confiança da nossa gente humilde. Ó maldito galã de bigodinho e canino de ouro, por que não desafia os poderosos do dia: o banqueiro, o bispo, o senador, o general?

O livro que gostaria de ter escrito é a novela “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi. Eu também – acrescento, dizendo-lhe que para mim é a quintessência da arte literária. Ele vai mais longe:

– Foi o livro que me deu pela primeira vez a consciência da minha morte.
O que se busca escrevendo seria exatamente isso: dar ao leitor a consciência da morte. E com isso modificá-lo para melhor.
– E como você concilia essa intenção com aquele seu desejo de se vingar da vida?
– Aquilo é o ponto de partida: me vingar até mesmo de determinada pessoa. Depois o personagem se impõe, eu acabo sendo a favor do sujeito e contra mim. Dificilmente a gente procura compartilhar com quem quer que seja a nossa felicidade, mas quer sempre dividir com os outros as nossas frustrações. O ponto de partida nem sempre é generoso, mas o ato de escrever é generosidade, é entrega: o escritor está sempre entregando ao leitor – dando de si o que ele tem de melhor.

Assim falou meu amigo Dalton Trevisan – embora preferisse não ter falado. Mas falou e disse. Quem não o ouviu, talvez possa tomá-lo por alguém mal-humorado e antipático. Ledo engano! É gente fina – simples, modesto, agradável, autêntico. Como um camponês.

sabino_2_foto Fernando Sabino frequentou Curitiba com certa assiduidade nos anos 80 e 90. Tem algumas crônicas antológicas sobre o Paraná publicadas aqui nessa época. E escreveu esta sobre o nosso escritor Dalton Trevisan, que o visitava no Rio. Na literatura, Sabino percorreu da crônica ao romance, da poesia ao roteiro de cinema. Deixou livros que continuam na lista dos mais vendidos, como “O Homem Nu”, “O Grande Mentecapto” e “A mulher do vizinho”. Escreveu 40 livros. Morreu em 2004, pouco antes de completar 81 anos. Permanecem inéditos capítulos de “A Resposta”, obra que escrevia na época de seu falecimento. Deixou pronto o próprio epitáfio, no cemitério São João Batista: “Aqui jaz Fernando Sabino, nasceu homem, morreu menino.”

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