O que vem pela frente?

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Foi-se 2017. Um ano para não ser lembrado, dizem políticos tensos, angustiados, temerosos de ter o mesmo fim dos alcançados pela Lava Jato. Foi um ano miserável. Ano do Joesley, do Wesley, dos acordos obscenos entre os Batista donos da JBS e o abominável procurador Rodrigo Janot. Ano em que Michel Temer mostrou como se negocia com o Congresso e se mantém o mandato. Um ano porco, sintetiza um político nativo.

E 2018 como será? Será atípico. Vai passar rápido demais. Com o Carnaval em fevereiro e a Copa do Mundo entre junho e julho. Teremos uma campanha eleitoral curta, de apenas 60 dias. “Antes da final, ninguém vai falar de política, com exceção da imprensa”, explica o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro.

Com base nas pesquisas de opinião, ele admite que não há aposta segura para a sucessão presidencial. E alerta os que acreditam que o decisivo será a imagem de cada qual, segundo padrões estabelecidos depois da Lava Jato, que o povo tem outras preocupações antes de julgar os candidatos. “O brasileiro quer saber é se a prestação vai caber no seu orçamento”, diz Montenegro. Precavido, ressalva que “ainda tem muita água para passar por baixo da ponte”. Com o ritmo menor de criação de vagas e renda mais pressionada pela crise, a tendência é que o nível de insatisfação esteja alto.

Há mais a investigar em nossa patologia social. A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

OLHA A CONTRADIÇÃO
Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, iriam denunciá-lo. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é um bom sinal. Quem sabe um dia?

Conhecendo-se o que já se conhece, sabendo como pensa boa parte da população, acompanhando a disputa entre parlamentares e procuradores (tendo alguns ministros do Supremo, surpreendentemente, na mediação do jogo), vale a pena mergulhar um pouco na Operação Lava Jato.

CHANCE PERDIDA
Há certa frustração no ar. Esperava-se que o Brasil pudesse ir além de suas belezas naturais e da ginga da bola. De se exibir ao mundo como gente grande. Mas a chance disso já foi perdida. Ainda que o governo comemore avanços na recuperação econômica, a prática continuada de uma política econômica débil, por vezes esquizofrênica, dificilmente será ofuscada por números de um superávit conseguido a partir de falsas exportações, privatização e refinanciamento de dívidas tributárias.

Para um mercado desconfiado, isso não acalma os “nervosinhos”. É oferecer suco de maracujá para quem precisa de tonificantes à base de ajustes e equilíbrio. O governo segue gastando muito e mal. E, ao contrário do que o ministro da Fazenda quis fazer crer, continua se valendo de malabarismos. Para fechar 2017, jogou para os últimos dias do ano pagamentos que só serão contabilizados em 2018. O mais incrível é que imaginam que esses expedientes podem funcionar.

Nada muda a realidade dos números de gastos injustificáveis. Em ano de campanha eleitoral, acontecem coisas estranhas. No lusco-fusco das festas de fim de ano, acontecem coisas ainda mais estranhas. Tiro no pé. A situação que vivemos e os rumos que o Brasil tomou. Os governos petistas, sem o dizer, colocaram suas fichas no “declínio do Ocidente”. Da crise surgiria uma nova situação de poder na qual os Brics, o mundo árabe e o que pudesse se assemelhar ao ex-terceiro mundo teriam papel de destaque. A Europa, abatida, faria contraponto aos Estados Unidos minguantes.
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A REALIDADE FUROU OS PLANOS
Não foi o que aconteceu: os americanos saíram à frente, depois de umas quantas estripulias para salvar seu sistema financeiro e afogar o mundo em dólares, e deram uma arrancada forte na produção de energia barata.

O mundo árabe, depois da Primavera, continua se estraçalhando entre xiitas, sunitas, militares, seculares, talibãs e o que mais seja; a Rússia passou a ser produtora de matérias-primas. Só a China foi capaz de dar ímpeto à sua economia.

Provavelmente as próximas décadas serão de “coexistência competitiva” entre os dois gigantes, Estados Unidos e China, com partes da Europa integradas ao sistema produtivo americano e com as potências emergentes, inclusive nós, o México, a África do Sul e tantas outras, buscando espaços de integração comercial e produtiva para não perderem relevância.

Nessa ótica, é óbvio que a política externa brasileira precisará mudar de foco, abrir-se ao Pacífico, estreitar relações com os Estados Unidos e a Europa, fazer múltiplos acordos comerciais, não temer a concorrência e ajudar o país a se preparar para ela. Às contas a pagar se somará a fartura de gastos comuns em anos eleitorais. É melhor estocar maracujá.

O Brasil terá de voltar a assumir seu papel na América Latina, hoje diminuído pelo bolivarianismo prevalecente em alguns países e pelo Arco do Pacífico, com o qual devemos nos engajar, pois não deve nem pode ser visto como excludente do Mercosul.

Não devemos ficar isolados em nossa região, hesitantes quanto ao bolivarianismo, abraçados às irracionalidades, que tomara se reduzam, e pouco preparados em face da investida americana no Pacífico. Para que exportemos mais e para dinamizar nossa produção para o mercado interno, a ênfase dada ao consumo precisará ser equilibrada por maior atenção ao aumento da produtividade, sem redução dos programas sociais e demais iniciativas de integração social. A promoção do aumento da produtividade, no caso, não se restringe ao interior das fábricas, abrange toda a economia e a sociedade.

NOSSAS DEPENDÊNCIAS
Na fábrica, o Brasil depende das inovações e do entrosamento com as cadeias produtivas globais, fonte de renovação. Na economia, depende de um ousado programa de ampliação e renovação da infraestrutura e, na sociedade, de maior atenção à qualificação das pessoas (educação) e às suas condições de saúde, segurança e transporte. Sem dizer que já é hora de abaixar os impostos sem selecionar setores beneficiários e de abrir mais a economia, sem temer a competição.

Isso tudo em um contexto de fortalecimento das instituições e práticas democráticas e de redefinição das relações entre o governo e a sociedade, entre o Estado e o mercado. Será necessário despolitizar as agências reguladoras, robustecê-las, estabilizar os marcos regulatórios, revigorar e estimular as parcerias público-privadas para investimentos fundamentais.

Noutros termos, fazer com competência o que o governo petista paralisou nos últimos dez anos e que o atual governo, de Michel Temer, vê-se obrigado a fazer, mas o faz atabalhoadamente, abusando do direito de aprender por ensaios e erros, deixando no ar a impressão de amadorismo e a dúvida sobre a estabilidade das regras do jogo. Com isso, não se mobilizam, no setor privado, os investimentos na escala e na velocidade necessárias para o País dar um salto em matéria de infraestrutura e produtividade. Há um grito parado no ar, um sentimento difuso, mas que está presente. Cabe às oposições expressá-lo e dar-lhe consequências políticas.
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OS ERROS ESCLEROSANTES
Além de insistir em erros palmares, o atual governo faz contorcionismo verbal para negar que concessões sejam modalidades de privatização. É patético. Também para negar a realidade, desdobra-se em explicações sobre a inflação, que só não está fora da meta porque os preços públicos estão artificialmente represados, e sobre a solidez das contas públicas, objeto de declarações e contabilidades oficiais às vezes criativas, não raro desencontradas, em geral divorciadas dos fatos.

Tão necessário quanto recuperar o tempo perdido e acertar o passo nas obras de infraestrutura, será desentranhar da máquina pública e, sobretudo, nas empresas estatais (felizmente nem todas cederam à sanha partidária), os nódulos de interesses privados e/ou partidários que dificultam a eficiência e facilitam a corrupção. Não menos necessário será restabelecer o sentido de serviço público nas áreas sociais, de educação, saúde e reforma agrária, resguardando-as do uso para fins eleitorais, partidários ou corporativos.

Só revalorizando a meritocracia e com obsessão pelo cumprimento de metas o Brasil dará o salto que precisa dar na qualidade dos serviços públicos. Com uma carga tributária de 36% do PIB, recursos não faltam. Falta uma cultura de planejamento, cobrança por desempenho e avaliação de resultados, sem “marketismos”. Ou alguém acredita que mantido o sistema de cooptação, barganhas generalizadas, corrupção, despreparo administrativo e voluntarismo, enfrentaremos com sucesso o desafio?

É preciso redesenhar a rota do País. Dois terços dos entrevistados em recentes pesquisas eleitorais dizem desejar mudanças. Há um grito parado no ar, um sentimento difuso, mas que está presente. Resta saber o que sairá das urnas em 2018.

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