Pacífico porque eterno

guido

Uma vez escutei de um crítico literário que a leitura tinha ficado pela sua adolescência. Nos dias atuais não se dedicava aos romances. Colocava-se num patamar distante. Acredito ser uma exceção, mas, como pouco tive contato com estes críticos oficiais, levo esta encenação viva na memória. No meu caso, para ser simples, sinto sempre a leitura como necessária. Como se algo estivesse faltando antes de a palavra ser dita. Aqui, pois, o papel não é crítico. Aqui se encontra apenas um chamado, um alerta ou talvez um convite.

“O Comprador”, do escritor Guido Viaro, é um livro de segurar os olhos a partir de suas primeiras páginas. Como um rastro de doces, você leva à boca um pedaço, depois mais umas migalhas e quando vê está farta, no chão, sentada e esclarecida. Ou apenas atordoada. Texto carregado de detalhes da existência, dos indivíduos ali projetados e vividos, e também do externo, do plano e da prática. Como se Guido tentasse não deixar ninguém de fora, como se tentasse alcançar a fidelidade da vida dos que ali inventa e faz crescer. Presente porque eterno. Vive nas páginas.

Para fugir das abstrações, vamos ao que interessa. Ludwig é um herdeiro da nobreza suíça. Com o brasão da família Winsterburg, aproveita-se de toda a riqueza vivendo sem desfrutar das futilidades em sua grandeza. Pela borda ele abraça álcool, cocaína e prostitutas. Vai além do comum. Tem sede de fogo, queima obras de arte raríssimas do mundo ocidental. Diferentemente do que a imaginação pode levar, como um rico sem destino e sem obrigação, ele não tem sede de amor e companhia sincera. Aprendeu com a mesquinharia e conheceu a verdade do seu ser. Reconheceu-se apenas como um perverso e dessa verdade elevou desejos. O ódio pelo administrador do dinheiro da família, Wolfgang, e a necessidade de um boneco, um fantoche, que ao certo não sabe o que fazer, mas que precisa. Compra uma pessoa. Francesco é o nome de sua nova aquisição.

Ludwig e Francesco fazem um trato. Pelo abandono da vida desinteressante do antigo garçom, Ludwig pagaria algumas milhas por mês para decidir os próximos passos do novo objeto. Então muda todo o roteiro de uma trajetória, escolhe nova cidade para Francesco viver, decide seus caminhos, suas leituras. Como um jogador a decidir a estratégia dos bonecos. Ao certo não se sabe se retira ou aumenta a mediocridade de Francesco, que submisso e transtornado aceita toda ordem que vem do herdeiro túrbido. Talvez sua grande aparição na vida esteja na renúncia de sua mediocridade para viver ao menos com um propósito: seguir ordens de Ludwig, que da sua cidade, em meio às próprias loucuras e abandonos, escreve uma nova vida perversa para um fantoche. Coragem de Francesco.

Com essa história de ausência de otimismo, mas presença de elucidações, o autor percorre pela consciência de cada um que ali está, desfruta da escrita íntima, ao colocar os personagens em contato por cartas e ao descrever seus pensamentos. Como um olhar que se eleva para pôr ordem na loucura, o narrador às vezes aparece. Esta loucura que é sempre sem limites para eles e para nós. “Acho que cheguei muito perto de descobrir qual é a sensação de não existir”, “Sei que sou, antes de tudo, uma doença social”. Seres às claras, ao ridículo. “O Comprador” se vende, compra outras e mata uns. Elucida e atordoa. Uma narrativa que não passa despercebida.

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