Villa-Lobos em Paranaguá

erudita

Volto a um tema recorrente porque ele me instiga. Há anos insisto na interessante aventura que os historiadores desta província poderiam viver ao assumir a tarefa de resgatar a passagem de Heitor Villa-Lobos por Paranaguá. Lá ele viveu no início do século passado e, além de pesquisar o folclore do litoral paranaense, teve tempo para apaixonar-se por uma nativa e para organizar um concerto, em 1908. Sua estada em Paranaguá faz parte do período que, de acordo com seus biógrafos, ele desapareceu do Rio de Janeiro para pesquisar o folclore brasileiro, de 1905 a 1912.

A jornalista Rosy de Sá Cardoso pesquisou e publicou um artigo na revista do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, na edição 57, de 2006. Ela apresenta o programa do que teria sido o primeiro concerto regido por Villa-Lobos. Uma foto do jovem Villa, de bigode e cavanhaque, que teria sido feita em Paranaguá, ilustra o texto.

O concerto de uma camerata de 17 músicos chamada Estudantina Paranaguaense aconteceu no dia 26 de abril de 1908, no Theatro Santa Celina, já demolido. Diz a revista, em versão que tem doses robustas de ficção, que “durante a exibição, fez solos de violoncelo e mostrou uma de suas criações, ‘Recouli’. O compositor se fixou em Paranaguá depois de abandonar o Rio por causa das perseguições impostas pela polícia às rodas de choro.”

De início, Villa-Lobos refugiou-se em Niterói, na região de Gragoatá, mas acabou embarcando num navio rumo ao litoral paranaense. Lá trabalhou numa fábrica de banana glacê e apaixonou-se pela filha do coronel Elísio Pereira. Há controvérsias. Villa-Lobos namorou várias moças de Paranaguá, muitas ao mesmo tempo. Outra apaixonada seria filha da família Veiga. O pai da moça lhe deu trabalho em sua empresa de navegação, exportação e importação, onde o músico exerceu por um ano e meio a função de “caixeiro-viajante”.

Rosy contesta que tenha havido paixão pela filha do coronel. Segundo ela, houve apenas trabalho. No estudo dela, fica claro que muitas moças parnanguaras passaram pelas mãos de Villa-Lobos, mas para aprender bandolim, uma moda na época, como relata Elfrida Marcondes Lobo no livro “Retalhos de uma Vida”, citada por Rosy. O maestro teria se tornado, na passagem por Paranaguá, amigo do caixeiro-viajante e músico amador Randolpho Veiga.

O imaginário é rico. “Na estada em Paranaguá, Villa-Lobos teria namorado a filha de um homem chamado Bendazesky, proprietário de uma fábrica de fósforos de duas cabeças, algo absolutamente insólito, ainda que verossímil. Especulações à parte, seu retorno ao Rio ocorreu assim que o pai de uma de suas namoradas o expulsou de Paranaguá, sob o argumento de que o regente não seria um bom partido”.

Anedotário à parte, que se expande na medida em que não há trabalho sério para contar este trecho da vida do compositor, fico a pensar em qual foi a contribuição do folclore nativo para a obra de Villa-Lobos, que costuma dizer que a sua pesquisa, iniciada nos tempos em que ficou “sumido” e passou por Paranaguá, formou a sua música, que junta a influência clássica erudita e o folclore brasileiro:

“Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Transporto toda a exuberância tropical das nossas florestas e dos nossos céus para tudo o que escrevo.”

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