Vitória da sordidez

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A esquerda que amarga saudades da cleptocracia petista comemora com bumbos e trombones um dos feitos mais sórdidos que já cometeu. Inconformada desde a deposição de Dilma Rousseff, consegue sua primeira vendeta: a demissão de um jornalista que discorda das ideias e das práticas da era Lula, essas que levaram o país ao desastre e a própria esquerda à extinção como força política respeitável. Vingam-se pela perda de benesses e sinecuras. Lamentam o fim das verbas e oportunidades que só Lula et caterva poderiam lhe dar. E feito a horda diante de Pilatos, pedem a cabeça de Waack.

A chacina moral que cometem contra William Waack é sórdida. Asquerosa. Usar uma gravação feita à sorrelfa, em situação privada, de conversa alheia, e dela catar uma expressão (quase inaudível) de irritação, num contexto de um ano atrás, para acabar com a carreira de um profissional decente, capaz de informar com clareza mais que a superficialidade comum no noticiário pobre da televisão.

William Waack tem formação superior e um currículo que nem a soma de todos os demais membros do jornalismo chinfrim da Rede Globo conseguem alcançar. Essa trajetória fez dele um jornalista rigoroso na apuração dos fatos e exigente quanto às interpretações. É óbvio que trabalhar com Waack não era tarefa fácil. Ele exigia consistência de si mesmo e de todos que trabalhavam com ele para levar ao ar um noticiário diário.

Nessa linha, indispôs-se com jornalistas de meia confecção que se punham a falar sobre o que não entendem. Paciente, indicava livros, propunha a leitura de textos, a lutar contra a concepção hegemônica nesse tipo de jornalismo televisivo que é o elogio à superficialidade, o comentário de ressentidos, a ideia de que o jornalismo é um instrumento policialesco e de punição contra os desafetos ideológicos.

A honestidade intelectual não é o forte nesse tipo de jornalismo. Waack era exceção e seus comentários bem fundamentados sobre os desatinos do lulismo doíam nos ouvidos da tigrada que se sentia representada no poder por Lula, Dilma e assemelhados.

Qualquer ignorante, mesmo os que sofrem de carência intelectual endêmica, sabe que Waack não é racista. Nunca foi. Seu jornalismo atesta o contrário. Tomar uma expressão fora de contexto, dessas usadas pelos brasileiros há séculos e que já perderam significado para sobreviver apenas na forma de insulto, para classificá-lo como racista e acabar com a sua carreira profissional é de uma ignomínia brutal. Isso agrava a brutalidade do gesto. Comemorar porque ele perdeu o emprego demonstra que o outrora partido dos trabalhadores se transformou em partido de crápulas.

O fundamentalismo simplório, embrulhado em citações equivocadas do marxismo e outras filosofias, é o aparato usado pelas correntes radicais de esquerda e direita para julgar quem delas discorda. Um militante xiita que decorou trechos do Alcorão para apontar com o dedo os infiéis tem mais profundidade.

Neste caso, a desonestidade intelectual vai mais longe. Não é a injúria racial, ou racismo, o motivador da campanha: é o pensamento de Waack, que desagrada militantes de tendências opostas. A campanha contra ele, um ano depois da gravação da frase, não tem como motivo algo que tenha dito, mas o fato de ter sido dito por ele. Imaginemos que, em vez de Waack, outras pessoas, de outras tendências político-partidárias, tivessem pronunciado frases do mesmo teor. Melhor, em vez de imaginar, lembremos frases já enunciadas por pessoas tão ou mais influentes que William Waack, mas que estão sob proteção esquerdoide.

Do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o prefeito de Pelotas, RS: “Pelotas é um polo exportador de veados”. Homofobia? Ninguém chegou a falar nisso. Ah, se Waack fosse o autor da frase! Há o caso emblemático de Caetano Veloso. Paula Lavigne disse que, aos 13 anos, foi à festa de aniversário de Caetano, que fazia 40, com a intenção (bem-sucedida) de fazer sexo com ele. Agora, na mesma guerra ideológica que tenta vitimar Waack, mas com sinal partidário trocado, os assemelhados da direita tentam atribuir a Caetano o crime de pedofilia, como querem atribuir a Waack o de racismo. E, semelhante em ambos os casos, há a má intenção de atingir uma pessoa de quem não gostam usando pretextos politicamente corretos.

E não me venham com pose de superioridade moral, a desfiar argumentos históricos e falsas indignações sobre racismo, tentando situar Waack fora do fato para colocá-lo como ator da história universal dos racistas, dos sumérios aos dias de hoje. Até o mais imbecil sabe que não é disso que estamos tratando. Repito e atesto, William Waack não é racista. Mas os que armaram essa para ele são o que são: crápulas a externar seus ressentimentos, seus sentimentos menores, sua incapacidade, sua covardia atestada nesse gesto abjeto típico dos que usam qualquer oportunidade para a sua pequena vendeta.

Infelizmente o país naufragou nessa mediocridade e o fez com grande ajuda do lulismo, uma teoria de baixíssimos teores que faz sucesso em corações e mentes da pequena burguesia inconformada com sua própria incapacidade para superar sua contingência.

Depoimento do Gil Moura

Gil Moura é jornalista, um dos melhores repórteres de imagem que a televisão brasileira produziu. É negro e trabalhou durante 30 anos com William Waack.
Leiam e julguem.

Eu sou preto. Já trabalhei com ele na França, em Portugal, na Espanha, na Índia e em São Paulo.

Nesta caminhada de 30 anos, fazendo imagens e contando histórias, poucos colegas foram tão solidários quanto o velho Waack. Ele faz parte dos pouquíssimos globais que carregam o tripé para o repórter cinematográfico preto ou branco. Na verdade, não me lembro de ninguém na Globo que o faça. O velho sabe para que serve cada botão da câmera e o peso do tripé. Quando um preto sugere um restaurante mais simples, ele não dá atenção, porque paga a conta dos colegas que ganham menos, no restaurante melhor. Como ele fez piada idiota de preto, ele faz dele próprio, suas olheiras, velhice, etc.

O que a Globo mais tem são mocinhos e mocinhas de cabelos arrumadinhos, vindos da PUC ou da USP, que são moldados ao jeito da casa.

Posso dar o exemplo de quando estávamos gravando uma passagem no meio da rua, onde havia um acidente, e sugeri a uma patricinha repórter que prendesse o cabelo devido ao vento. Ela o fez. Gravamos na correria, porque estávamos a duas horas do RJ. No dia seguinte, na redação, que aparece no cenário do JN, ela comenta.

– Você viu a matéria ontem?
– Não
– Sobrou uma ponta do cabelo, fiquei parecendo uma empregada doméstica.

Ao que respondi:

– Eu sou repórter cinematográfico, cabeleireiro não havia na equipe.
Posso lembrar-me de muitas coisas como, quando fazíamos uma matéria para o Fantástico, uma mesa de discussão e, ao ouvido, ouço o repórter falar:
– Põe aquela pretinha mais para trás.
Isto faz parte do cotidiano. Os verdadeiros racistas estão por todas as partes, mas são discretos. Também tem a famosa, que chegou ao prédio onde vive, e uma moradora (namorada de um amigo) segurou o elevador.
A famosa negra não agradeceu, e ficou de braços cruzados. O elevador começou a subir.
Jornalista Famosa:
– Você não sabe qual é o meu andar?
– Sei, mas não sou sua empregada.

No vídeo, ela é uma “querida”, jamais trata mal o entrevistado, se estiver gravando…

Voltando ao racista William Waack. Quando íamos para a Índia – eu vivia em Lisboa – fui 3 dias antes para Londres, de onde partiríamos para Dheli.

Eu ia ficar em um hotel, mas o racista, que havia trabalhado comigo até então somente uma vez em Cannes, convidou-me para ficar em sua casa, onde vivia com esposa e dois filhos, esposa essa a quem ele, preconceituosamente, chamava de “flaca” devido à sua magreza. Eu via como uma forma de carinho.

Comemos, bebemos bom vinho e, em nenhum momento, alguém quis se mostrar mais erudito que eu, nem mais racista.

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