2018

2018

Prepare o seu coração. Foi-se 2017. Acabou sem merecer foguete, sem luar, sem violão. E não guardem esperanças fundas sobre 2018. Iniciamos novo ano e o calvário continua. Há 14 milhões de brasileiros desempregados que levam uma vida de tormento silencioso e diário, enquanto os donos do governo fazem tudo o que podem para manter o mundo da produção paralisado e sem oportunidades.

O Brasil chegou aos 60 000 homicídios por ano — e responde por 10% de todos os assassinatos cometidos no mundo. Não há esgotos. Há filas nos postos de saúde. Gente morrendo nos corredores de hospitais públicos à espera de um médico que não vem. Não virá. É o caos, mas os barões, duques e arquiduques que controlam as decisões públicas se matam para ganhar seus joguinhos nos tribunais e em outros terreiros de disputa. Estão cegos.

O debate político desce às cloacas. Quem não tiver estômago forte não se aproxime. A maioria dos políticos sobreviventes da Lava Jato não esconde sua convicção de que a única forma de encarar o desafio eleitoral é atacar o adversário da forma mais pesada possível. Sem pudor e sem princípios. No vale-tudo. Do contrário, se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

A campanha eleitoral será curta devido à Copa do Mundo de Futebol e os analistas consideram que nos 45 dias da reta final, quando o debate chega à televisão, o clima será o do tudo ou nada. Poucas vezes a degradação que criaram no país ficou tão clara. De um lado, é mais do que sabido, pela exposição dos fatos, que em 2014 a ex-presidente Dilma Rousseff fez a campanha mais corrompida, fraudada e criminosa na história das eleições brasileiras, levando-se em conta a estonteante quantidade de delitos cometidos para mantê-la no cargo.

Agora, é impossível fazer de conta que o atual presidente, na condição de seu vice, não foi um beneficiário direto da trapaça — simplesmente ganhou a Presidência da República quando Dilma foi despejada do posto por fraude contábil, depois de um governo corrupto, trapaceiro e inepto. Sem respaldo social. De outro lado, é um completo disparate achar que sete nulidades, que jamais foram eleitas nem para inspetor de quarteirão, possam decidir se o presidente da República fica ou não no cargo. Quem o coloca lá é o eleitorado. Quem tem o direito de tirá-lo é o Congresso Nacional, e não o senhor Benjamin ou o senhor Gilmar, o senhor Napoleão ou dona Rosa, e outros gigantes do mesmo porte. Quem é essa gente?

A vida pública no Brasil degenerou a tal ponto que ficou criada a seguinte situação: os sócios-proprietários do governo, divididos em bandos rivais que tentam se exterminar uns aos outros, perderam a capacidade de tomar qualquer decisão certa, seja ela qual for. Só conseguem errar. Um lado aposta “par”, o outro lado aposta “ímpar” e os dois perdem — é aonde chegamos, pela ação das facções que mandam hoje no país e passaram a acreditar, nos últimos anos, que podem salvar os seus interesses políticos e materiais dedicando-se a uma campanha permanente de suicídio.

Ora, pois, neste exato momento em que os brasileiros curtem a chegada da Copa do Mundo de Futebol, a praia e os preparativos do carnaval com certo alívio porque alguns graúdos foram presos por corrupção, sofrem outro assalto, o mais grave de todos, assalto muito maior que esfola o cidadão. O total de impostos pagos em 2017 foi espantoso. O monumental volume de dinheiro entregue aos governos reduziu a capacidade de investimentos das empresas e a possibilidade de compra dos indivíduos; desestimulou a iniciativa individual – pois, num bom número de casos, ganhar mais significa receber menos, já que o imposto dá um salto.

É tanto dinheiro arrecadado que permite gastos públicos injustificáveis – dos milhares de funcionários do Congresso à gigantesca frota de carros para governantes e políticos em geral, de recursos para o Mensalão às mordomias oficiais. Há muita corrupção neste Brasil brasileiro e combatê-la é importante. Mas não tão importante quanto a Grande Esfola Tributária, mãe de todos os casos de ladroeira governamental. Nossa cultura política não permite indignação maior diante do abjeto cotidiano de nossos políticos.

A verdade é que precisamos de uma reforma política honesta e decente com urgência, mas nossos políticos querem que tudo fique exatamente como está, pois são beneficiários deste sistema que nos desgraça desde o Império. Os males que nos afligem situam-se nos vícios do estado patrimonialista e do sistema de clientela que incha a máquina, nos carrega de impostos, diminui investimentos produtivos e estimula a corrupção. Sou, há muito tempo, um defensor do voto distrital puro, precedido de outras providências óbvias. Fim do voto obrigatório, cada cabeça vale um voto, mínima interferência do estado no processo de escolha, nenhum financiamento público de partidos, campanhas e que tais. Mas sei que não teremos nada disso tão cedo, porque essas mudanças podem acabar com as carreiras de Renans, Jucás e seus assemelhados.

Apesar dessa insanidade geral, a desordem continua. Trata-se dessa aglomeração de políticos, magistrados, procuradores, lobistas, chefes de gangues partidárias, acionistas do Erário e todos os demais parasitas que desfilam pelo noticiário. Fingem que estão ocupadíssimos na solução das mais graves questões da vida nacional. Sabem perfeitamente que no Brasil há problemas de dois tipos — os problemas deles e os problemas da população, e que esses dois mundos jamais se tocam.

A grande dificuldade que temos é a de perceber o Brasil como ele é. Preferimos, desde sempre, as versões do otimismo retumbante, eivado de um ufanismo que beira o ridículo. A verdade é que o Brasil carece de muita coisa. Não temos sequer um projeto de integração com o resto do mundo, o que justifica o pouco interesse do capital estrangeiro em algumas pérolas oferecidas pelo governo. O economista Edmar Bacha aponta o isolamento do Brasil. Ora, pois, somos o único país grande na escala das maiores economias do mundo que exporta pouco e importa pouco. Estados Unidos, China e os países da Europa juntos são as maiores economias e os três maiores exportadores.

Pois, pois, o Brasil é a sétima ou oitava economia e é o vigésimo quinto em exportação, atrás até da fechada Índia, que é a décima primeira economia e a vigésima primeira no ranking dos exportadores. Em 1970, o Brasil exportava o equivalente a 7% do PIB e hoje exporta 12%. Nesse período, a Coreia do Sul foi de 14% para 54% de exportações. Na época a renda per capita da Coreia era menor do que a nossa. Hoje é o dobro.

E assim caminhamos. À espera do noticiário que nos revela diariamente um mundo vil de que somos vítimas e cúmplices ao mesmo tempo. Qual o último chilique do ministro fulano do STF, ou do STJ, do TSE ou de onde for? Lula é um líder nacional ou um futuro presidiário? Enquanto isso, como diria o deputado Justo Veríssimo, os desempregados que se explodam.

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