O Paraná germânico

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Ao entrar naquele navio, José Hauer Senior não imaginava o que lhe esperava do outro lado do Oceano Atlântico. Durante dois meses e meio, ele driblou o enjoo, a fome, a sede e a ansiedade. Era um jovem sonhador de apenas 22 anos que fugia das mudanças de ordem econômica, política e social que assolavam os territórios alemães.

Natural de Breslau (hoje parte da Polônia) e filho de Anton Hauer e Francisca Teichmann, José Hauer desembarcou, em agosto de 1863, na então colônia Dona Francisca (atual Joinville). Mas não gostou do local. Em um mês, começou o processo de remigração. “Ele subiu a serra e estabeleceu-se em Curitiba, em outubro de 1863”, conta Carlos Hauer, um de seus descendentes diretos e que hoje atua em grupos folclóricos em Curitiba.

Foi na capital do estado, cuja emancipação política completava apenas dez anos (antes pertencia à Província de São Paulo), que José deu início aos seus empreendimentos com uma oficina de seleiro (selas para montaria). Com o tempo, os membros da família Hauer viraram comerciantes reconhecidos na cidade – que hoje, inclusive, possui um bairro em homenagem aos feitos da família.

Nesse meio-tempo, José regressou à Alemanha e convenceu os seus 12 irmãos a virem para o Paraná. Entre os fatos que marcaram o nome Hauer na história, destaca-se o advento da luz elétrica. Em 1892, a eletricidade passou a funcionar em Curitiba. Mas em maio de 1898, a empresa José Hauer & Filhos adquiriu a concessão do contrato da usina elétrica e aumentou a sua capacidade, ampliando o número de beneficiados.
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Quase noventa anos depois, Carlos Ervino Haas nascia no alto-mar enquanto seus pais atravessavam o Atlântico com destino ao Sul do Brasil. Seu bisavô materno já tinha vindo para o país em 1890. Mas seus pais insistiram em permanecer em terras germânicas. A família paterna não queria perder os laços com sua terra natal. As necessidades de saírem da Alemanha, contudo, prevaleceram e os pais resolveram rumar para o Sul do Brasil. “Acabei nascendo um pouco aqui e pouco lá, mas em águas já brasileiras”, diz Carlos, que aprendeu como primeiro idioma o alemão.

Separadas por quase um século, as sagas das famílias Hauer e Haas contam os diferentes fluxos imigratórios germânicos para o estado. Uma história que remonta ao ano de 1829. Os povos germânicos foram os primeiros imigrantes europeus (excluindo os portugueses) a chegar ao Paraná, fixando-se em Rio Negro. Essa iniciativa coube ao fazendeiro, comerciante e tropeiro João da Silva Machado, que depois se tornou o Barão de Antonina. Inicialmente, eram cerca de 200 alemães. “Posteriormente, no ano de 1833, uma nova leva de cem imigrantes alemães juntou-se aos primeiros”, escreve o pesquisador Márcio José Pereira. No entanto, essa primeira tentativa não configura propriamente um fluxo imigratório germânico para o estado.

Com a Independência do Brasil, em 1822, intensificou-se a preocupação para ocupar todo o território. A ocupação efetiva do solo garantiria soberania nacional e também valorização econômica. Mas a entrada dos imigrantes misturou-se a contínuos fracassos e gastos públicos imensuráveis. O resultado foi uma lei de 15 de dezembro de 1830 que proibiu a realização de qualquer despesa pública com estabelecimento de núcleos coloniais.

Quatro anos mais tarde, uma nova lei permitiria o estimulo à imigração desde que fosse de competência dos governos provinciais. Como o Paraná tornou-se província somente em 1853, os efeitos dessa lei tardaram a ser percebidos no estado. É nesse período que a imigração alemã intensifica na então província paranaense.
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ONDAS IMIGRATÓRIAS
Ocupar vazios demográficos, buscar mão de obra e suprir a crise de abastecimento de alimentos e bens primários eram os principais objetivos que levaram o Paraná a fomentar uma política migratória. O ciclo da erva-mate no litoral e no primeiro planalto e o ciclo da pecuária no primeiro e segundo planaltos provocavam uma corrida insana que fazia com que bens de primeira necessidade faltassem para a população local. Por isso, foi permitido favorecer a imigração por meio de estímulos à posse de terra dos colonos e auxílios financeiros em favor da colonização.

É dessa época, como explica a historiadora Marion Brepohl, a primeira onda imigratória alemã para o Paraná, que privilegiava trabalhadores agrícolas. “Na Alemanha havia o problema da mecanização na agricultura e uma concentração fundiária. Também vieram muitos outros que não eram, de fato, agricultores, mas ou estavam enfrentando perseguição política ou dificuldades econômicas e se inscreveram como agricultores para serem aceitos pelo Império brasileiro”, afirma.

O segundo fluxo imigratório data de 1880, quando a industrialização começava a deixar desempregados nos territórios germânicos. “A terceira leva de imigrantes ocorre em meados da Primeira Guerra Mundial, a partir de 1914, pelo empobrecimento da Alemanha e a última grande onda ocorre ao longo da Segunda Guerra Mundial (1944)”, explica Marion. Após esse período, o estado registrou outros fluxos menores, como os imigrantes alemães menonitas que hoje ocupam a Colônia Witmarsum e que vieram na década de 50 para o Paraná antes de passarem pela região do Volga, na Rússia.
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Aliou-se, assim, a vontade dos alemães em fugirem do desemprego, das dificuldades econômicas e sociais com uma necessidade de preencher espaços desocupados para preservar a unidade territorial do Brasil e garantir a produção agropecuária. Além disso, havia uma tentativa de clareamento da população brasileira por meio da miscigenação. “Havia um segmento político altamente preconceituoso com o descendente afro, isso já no início do século 20, que defendia a imigração como uma forma ‘branquear’ a população”, destaca a pesquisadora.

VARIEDADE CULTURAL ALEMÃ
O cardápio de origens germânicas que desembarcou no Paraná é variado. Bucovinos, do Volga, de Trier, menonitas, da região norte, Pomeronia, Baviera… A lista é gigante. Com isso, a cultura germânica no Paraná é diversa.

Há uma diversidade cultural e de costumes entre os próprios imigrantes e seus descendentes. São distintos dialetos, ramos profissionais, hábitos e as mais diversas religiões, como luterana, menonita e católica. “Muitos imigrantes provenientes de diferentes regiões vinham para o Brasil no mesmo navio. Eram costumes e culturas diferentes que foram se misturando”, conta o pesquisador Marcelo Loss.
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Em território brasileiro houve, inclusive, algo que era raro no próprio território germânico. Um intercâmbio cultural entre alemães de diferentes regiões. “Foi uma experimentação cultural entre eles”, resume Marion.

DIFICULDADES?
Muito se discute quais foram as dificuldades de adaptação dos alemães no Brasil. Claro que no Velho Continente a sociedade já estava mais avançada em termos econômicos, com a industrialização e o desenvolvimento urbano. Além disso, o governo brasileiro não dava muitas condições para as colônias prosperarem.

Mas, a rigor, a grande lacuna que os imigrantes sentiram foi algo que lhe era muito caro: o ensino. Na Alemanha havia escolas públicas para todos. Aqui não. “Essa foi uma das principais dificuldades de adaptação. Além de sofrerem discriminação dos brasileiros que aqui moravam, inclusive por causa dos trabalhos manuais que desenvolviam, já que no Brasil isso não era algo comum”, revela Marion.

Em todas essas ondas imigratórias, eram os mandatários brasileiros que determinavam onde os imigrantes iriam ficar e os locais escolhidos – geralmente – eram as zonas rurais; nas chamadas “colônias”. No entanto, como muitos não eram agricultores e não tinham vocação para lidar com a terra, não era raro acontecer casos como os de José Hauer que escapavam de onde estavam. “Eles não eram obrigados, a rigor, a ficar ali. Depois que já estavam no Brasil, cada um ia tentar construir sua vida”, salienta a historiadora.

PERSEGUIÇÃO NA SEGUNDA GUERRA
Enquanto na Europa a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, deixava 55 milhões de mortos, os imigrantes estrangeiros habitavam suas próprias trincheiras em terras paranaenses. O Brasil lutou no conflito contra os países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão.

O governo determinou que todo comércio de imigrantes dessas etnias fosse fiscalizado. Os rádios chegaram a ser lacrados para não sintonizar emissoras estrangeiras. Na capital do estado, a polícia chegou ao cúmulo de apreender até almofadas por terem sido bordadas com as cores da bandeira germânica. Os idiomas estrangeiros foram banidos das ruas paranaenses. Aqueles que os utilizassem eram denunciados e presos.

Em Curitiba, alguns clubes alemães pertencentes aos estrangeiros foram fechados e ocupados pelo governo. Antes dessa intervenção, muitos clubes foram alvo de ataques populares. Até o ensino sofreu, com o fechamento de escolas de origem estrangeira. Era a Segunda Guerra fazendo vítimas inocentes Paraná afora.

LEGADO E PRESERVAÇÃO CULTURAL
Novas técnicas de cultivo agrícola, a prática de ofícios desconhecidos no Brasil (como artesãos, seleiros, comerciantes, engenheiros, entre outros), além de uma disseminação cultural que se perpetua geração após geração. Danças, idioma, culinária, religiosidade, roupas, folclore… o legado sociocultural deixado pelos imigrantes alemães pelo Paraná é inegável.
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“Aqui a gente mantém traços culturais que nem na Alemanha existem. É uma forma de preservar nossas raízes culturais e passar para as gerações mais novas como eram os hábitos de nossos antepassados”, afirma Raphael Ferlauer, de 38 anos, que integra o grupo étnico Alte Heimat, que preserva traços folclóricos germânicos.

O pesquisador Marcelo Loss salienta que as próprias agremiações e clubes alemães deram início a um trabalho de corporativismo. “Ali um ajudava o outro. Havia políticas de ajuda financeira, além de ser um espaço para as práticas culturais”, conta. “Todo esse legado foi sendo deixado e ajudou a construir o que hoje conhecemos como Paraná”, salienta Loss.

OS ALEMÃES DA RÚSSIA
Quando Catarina II, a Grande (1729-1796), subiu ao poder russo, uma das primeiras medidas era povoar a região do Baixo Volga. Na teoria, os imigrantes teriam muitos privilégios e benefícios: liberdade de religião, espaço de colonização livre, trinta anos de isenção de impostos, isenção perpétua de serviço militar e empréstimos sem juros por dez anos para a construção de casas e compra de equipamentos destinados à agricultura. A corrente migratória da Alemanha para lá começou em 1763 e se prolongou até 1766.

Porém, as promessas não foram cumpridas. Todos os privilégios anteriormente concedidos aos imigrantes alemães na Rússia foram gradativamente retirados até que em 1874 a liberdade de credo e a isenção ao serviço militar foram completamente ignoradas.

Esses motivos foram a gota d’água para os alemães que viviam em solo russo. Muitos decidiram largar tudo e apostar no recomeço em outro lugar. “As cidades de Ponta Grossa, Lapa e seus arredores foram alguns dos pontos escolhidos para os novos colonizadores. Nessa época, a cidade de Ponta Grossa era a segunda maior do Paraná”, relata o pesquisador Estevão Müller. Os imigrantes passaram a residir em colônias nas cidades de Ponta Grossa, Palmeira e Lapa.

OS MENONITAS
Os descendentes que habitam a colônia Witmarsum, localizada no município de Palmeira, têm sua origem na Frísia, no norte da Holanda e Alemanha. Antes, contudo, passaram uma boa temporada em solo russo. Como ocorreu com os pioneiros imigrantes denominados alemães do Volga, os menonitas enfrentaram alguns problemas. O governo russo começou a falhar em suas promessas de auxílio financeiro durante os primeiros anos de colonização. Contrários à guerra, eles deveriam servir às forças militares.

O fator-mor que motivou a saída dos menonitas da Rússia foi a política comunista, que os perseguia. Os imigrantes menonitas chegaram ao Brasil no ano de 1930 e fundaram a colônia Witmarsum em solo catarinense. No entanto, em duas décadas mudaram a colônia de lugar. Adquiriram uma fazenda, localizada a 30 km de Palmeira. Foi ali que os imigrantes alemães se fixaram para construir suas vidas e preservar traços culturais de seus ancestrais.

Créditos fotos antigas: Reprodução/Livro Imigração Alemã no Paraná – 180 anos

Créditos fotos novas: Diego Antonelli

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