Para que não digam que não falei de flores

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Com permissão de Gertrud Stein (“a rose is a rose is a rose”), direi eu que uma flor é uma flor é uma flor. É impossível imaginar um mundo sem flores. Seria um mundo mais triste. Mais vazio, mais frio. Sim, as flores são o sorriso da natureza, da mesma forma que as crianças são as flores da humanidade. Se não existissem, fragrantes e belas, seria necessário inventá-las.

Graças ao bom Deus, não é preciso esse esforço quase demiúrgico. As flores aí estão, por toda parte, nos vergéis e nos prados, desabrochando em quintais humildes e nos jardins cintilantes de Versalhes e Schönnbrun, do Hyde Park e del Prado. Engrinaldando os cabelos das mulheres e enfeitando os altares. Na infinita variedade das suas espécies, na policromia orgiástica das suas tonalidades, elas entretecem, sem dúvida, uma tapeçaria onírica, irisada. Perfumando o mundo. Iluminando os olhos. Alegrando o coração dos homens.

O simples enunciado dos nomes das flores já tem qualquer coisa de melodia, de canto. Há música nas próprias sílabas sonoras que as vão nomeando: rosa, lírio, camélia, goivo, amor-perfeito, orquídea, agapanto, dália, gladíolo, tulipa, vitória-régia, papoula, prímula, jasmim, açucena, crisântemo, magnólia, anêmona, glicínia, margarida, verbena, hortênsia, flor-de-lótus, flor-de-lis. Flores de amendoeira, de pessegueiro, de laranjeira, de cinamomo, de flamboyant. Flor de cacto. Um festival em honra das deusas Clóris e Flora. É como se a beleza explodisse magicamente em estilhaços de cor, de graça e de perfume.

Há uma hierarquia entre as flores. Ela decorre, não de qualquer sistema aristocrático, mas de própria eleição democrática do povo. Ninguém nega que a rosa é aquilo que, em política, se chama de primus inter pares. É a rainha inconteste das flores. Isso porque há nela, desde sempre, uma grandeza, um mistério e uma dignidade peculiares. Tanto maiores quanto maior é a humildade intrínseca de sua postura.
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Antes de ser realidade botânica, a rosa chega a ser um fato da história da civilização. Desde muito cedo ela faz a sua aparição de “prima donna” no proscênio literário. A sua estreia verifica-se na “Ilíada”, de Homero. Lá, ela surge não ainda na qualidade floral que fez o seu sucesso milenar, mas como óleo aromático. É com ele que a divina Afrodite unge o corpo do filho de Príamo e Hécuba, o herói troiano, Heitor.

Desde esse instante, o destino admirável da rosa estava traçado. Ao longo dos séculos, ela é cantada, em prosa e em verso. Píndaro e Virgílio, Antíloco e Horácio, Safo e Anacreonte, Petrarca e Camões, Dante e Shakespeare, Graciliano e Espronceda, Chaucer e Ronsard, Byron e Verlaine, Lamartine e Musset, Heine e Rilke, Lorca e Pessoa – alguns entre muitos – todos eles invocam, reverenciam, proclamam a “rosa, rosæ”, a flor das flores. Todos lhe consagram hinos, canções, ditirambos que, às vezes, atingem o tom do “Magnificat”.

Há incontáveis variedades de rosas. Mais de dezesseis mil, segundo os botânicos. Algumas, inclusive, merecem um batismo especial. Entre as brancas, foram famosas a “Durschki” a “Imperatriz Louise” e a “Climbing Mr. Herbert Stevens”. Entre as amarelas, foram motivo de encantamento a “Luna” e a “Golden Talisman”. Entre as amareladas, brônzeas e salmôneas, pontificaram a “Comtesse Vandal”, a “Tarantella”, a “Fascinação”, a “Vertigem de Ouro”, a “Sunset Glowing” e a “Guss na Koburg”. Entre as róseas, brilharam a “Galety”, a “Sonata”, a “Sterling” e a “Edith Knab”. Finalmente, entre as vermelhas imperaram a “Fritz Hoeger”, a “Gloria Mundi”, a “Red Radiance” e o “Canto de Andalucia”.

Mas nenhuma ultrapassa a fama e a glória da sempre e universalmente citada “rosa de Malherbe”, imagem doce da filha morta do amigo Dupérier:

Et rose, elle a vécu
ce que vivent les roses:
l’espace d’un matin.

“E rosa, ela viveu o que vivem as rosas: o espaço de uma breve manhã.” No poema, porém, ela não morreu. Continua viva. Viva como o espírito de rosa que é a própria alma imortal.
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A rosa, símbolo, paradigma, arquétipo de todas as flores, está onipresente. Nas páginas dos jardins e nos canteiros dos livros. Na arte e na religião. Na vida e na morte. Participa de milagres sem conta. No dia da morte de Santa Terezinha, cumprindo a sua promessa, cai uma estranha e dulcíssima chuva de pétalas de rosa. Santa Isabel, rainha de Portugal, ante a pergunta raivosa de el-rei Dom Dinis, irritado com a sua caridade constante – “Que levais em vossa bolsa, senhora?” – responde humildemente: “São rosas para os meus pobres, meu senhor…” E abrindo a bolsa, onde levava moedas de prata, deixa cair no chão uma braçada de rosas. O rei, compreendendo o milagre inaudito, caiu de joelhos. Quantas histórias semelhantes não foram protagonizadas pela rosa, ao longo dos séculos? Não admira, pois, que a própria Igreja tenha outorgado à Virgem Maria, Mãe de Deus, um dos mais belos títulos que ela ostenta gloriosamente: o de Rosa Mística!

Fugaz, efêmera, transitória, na sua arquitetura exterior, isso que importa? Nem por isso a rosa deixa de ser uma flor com a vocação do eterno. E onde reside essa eternidade? Na sua própria beleza imortal.

O lírio é outra das flores eleitas. O próprio Cristo, o doce galileu, no seu Sermão da Montanha, que mais parece um poema onde o lirismo cintila, cantou-o magnificamente: “Olhai os lírios do campo, que não semeiam nem colhem. E no entanto…”. Séculos antes, o rei-poeta Salomão, no “Cântico dos Cânticos”, põe na boca de Sulamita estas palavras: “Eu sou o lírio dos vales e narciso de Sharon”. Ou então: “O meu bem-amado apascenta os lírios…”.
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Sim, não há como negar: uma flor é uma flor. Joia viva. Síntese do belo. Como defini-la, sem repetir o seu nome? Ninguém, melhor do que Moira O’Neil, soube fazê-lo: “beauty’s a flower”. Tudo está dito, aí.

Na maioria das flores, as pétalas – de textura de seda ou de veludo, de organdi ou de tule – coexistem com os espinhos. E nessa coexistência pacífica é possível vislumbrar algo mais do que uma realidade empírica. Talvez uma lição de vida. Talvez, quem sabe, um programa existencial. O destino das flores, que como todos os seres vivos nascem, vivem e morrem, não é muito diferente do destino dos homens. Isso está claro numa quadrinha popular famosa:

Até nas flores se encontram
as diferenças da sorte:
umas enfeitam a vida,
outras perfumam a morte.

Na Idade Média, em muitas necrópoles, não era raro encontrar-se nas lápides dos túmulos esta inscrição grave e solene:

Sparge rosas, precor,
supra mea busta, viator!

“Eu te peço, ó viajante: espalha rosas sobre o meu corpo!” Como se o peso das rosas pudesse tornar a alma mais leve…

Uma coisa é certa, indiscutível: a extraordinária importância das flores, desde cedo intimamente associadas ao destino dos homens. Maeterlinck escreveu sobre a inteligência das flores. Mas, inteligentes ou não, elas possuem a sua linguagem comunicante. Falam. E que dizem elas, na sua muda eloquência? Apenas isto: que apesar de tudo, apesar da incompreensão e da violência, apesar dos fuzis e das bombas, apesar de toda a parafernália bélica que estremece as frentes de batalha e o interior dos corações, o amor, a paz, a fraternidade e a beleza ainda são possíveis. Mais do que possíveis: indispensáveis. Para que isso aconteça, basta que os homens imitem a estratégia das flores. E aprendam com o seu quotidiano exercício existencial. Que fazem elas, afinal? Cortadas, colhidas, doadas – ou mesmo esmagadas, destruídas –, sabem deixar nas mãos de quem as dá e de quem as recebe – e de quem as esmaga – um pouco da sua própria alma. Que, numa sutil metamorfose, se transforma em perfume.

Por isso, enquanto as flores existirem, o homem não pode morrer.

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