Precisamos acariciar a liberdade

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“A Origem do Mundo” (Gustave Courbet), “Saturno devorando um filho” (Francisco de Goya), “O Juízo Final” (Michelangelo), “Madame X” (John Singer Sargent) são algumas das muitas obras que estampam a História da Arte e que marcaram o entendimento do homem sobre a vida. Assim como “1984”, de George Orwell; “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queirós; “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; e “A Odisseia”, de Homero.

Nenhum dos títulos citados sobreviveu, à sua época, à perigosa espada da censura. Foram proibidos, malditos, marginalizados. Foram execrados como se não fizessem parte do mundo humano e como se não fossem dignos da livre apreciação.

As representações que uma obra traz têm, num primeiro momento, as intenções de seu criador. Passadas ao público, muito disso se perde e novas nuances, significados e simbologias começam a ser reveladas. Elas têm relação direta com a interpretação de quem vê, de quem lê.

Metamorfose: o artista dá o material e sugere sua ideia, o consumidor recebe e a transforma segundo seus próprios conceitos.

Hoje, 2017, o enorme leque de recursos de comunicação e entretenimento permite duas coisas muito perigosas.

A primeira, a exposição a todo tipo de conteúdo, assusta aqueles que têm medo do diferente, do que se choca com suas certezas, do que pode lhe inspirar pensamentos inéditos. Isso é perigosíssimo para quem vive como se a única coisa possível – e correta – fosse o que está dentro de seus conhecidos e confortáveis limites.

A segunda, é pior ainda. Permite que as pessoas se tranquem com seus pares em casulos sem variações e troquem suas mesmíssimas informações. Esta é perigosa para quem está do lado de fora. Os casulos vão ficando pequenos, é preciso ganhar terreno, influenciar quem não está lá, expandir os espaços. E as condenações começam. Matam um rei e tomam posse de seu reino – onde, obviamente, só circulará o que sabem como verdade única.

O falso, baixo, indecente moralismo que circula por aí é aquele que carrega a foice que vai carpindo as liberdades e, quando tudo se transforma em terra arrasada, ele governa, mãos de ferro, os súditos ignorantes.

É obrigação de quem tem um tantinho de capacidade pensante, nem precisa ser muita, atuar a favor das liberdades. Como? Carregando bandeiras? Escrevendo textão no Facebook? Tratando do assunto em páginas de revista? Não! O melhor a fazer, penso eu, é se encarregar de conversa digna com os que pensam diferente. Mas não o diferente tipo o deputado que se apoia em populismo para gritar suas anomalias. Tratar de conversar com aquele que está mais próximo, o do cotidiano, fazer trabalho de formiguinha miúda, sem querer destaque, sem preguiça, sem holofote, sem intenção de convencimento. Apenas expor, de forma clara e calma, que importa muito em todas as sociedades cada um poder escolher a maneira como quer viver e fazer suas escolhas.

Poder de escolha é fundamental. E os limites têm que estar dentro do clichê conhecido de todos e praticado por poucos: direito individual garantido, desde que não fira o direito do outro.

O eco provocado pelas condenações às recentes exposições nos museus do Brasil é frágil mas, ao mesmo tempo, daninho.

Frágil, porque este é um país onde as pessoas têm mais o que fazer do que ir ao museu: assistem à telenovela, vão ao culto, tratam do churrasco de domingo, se escondem de tiroteio, procuram melhor preço na feira, compram CD pirata do camelô da praça, postam vídeos de gatinho nas redes. Sobrevivem. Sobrevivem, mas não vão ao museu. Se tudo correr bem e quem deve resistir a isso continuar com sucesso, logo o foco de quem repreende vira e uma nova moda se instala para repressão.

É daninho porque, sem saber do que estão a falar, repetem seus líderes tronchos e começam a achar que podem, que devem, condenar quem está do outro lado da pista. Sabe a teoria do Estado Islâmico que quer explodir os lugares que não seguiram à risca o que os fanáticos têm como certo? Então, é a mesma, mesmíssima coisa, por enquanto com armas diferentes.

Para os libertários, é hora de dar um passo atrás, recalcular as estratégias e pensar que seus valores não podem nunca ser dados como adquiridos. Todo dia é dia de reafirmar as escolhas e providências para garantir que ainda consigamos ser uma sociedade livre, aberta, democrática e respeitadora dos direitos humanos.
Dá trabalho, mas é fundamental.

Imagem: A Liberdade guiando o povo. Eugène Delacroix, 1830.

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