Um Paraguai de puro ‘petáculo

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(Tradução de Jamil Snege)

Quero propor uma questão que considero a pergunta-chave de nossas investigações: onde buscar a cultura paraguaia? E, por extensão, que secretos sítios esquadrinhar à procura de seus códigos e mecanismos de funcionamento?

Essas perguntas são pertinentes porque se estribam na seguinte constatação: não existe apenas um Paraguai, porém dois – culturalmente falando. Dois países que coexistem dentro de uma mesma geografia, como irmãos siameses, sendo que um deles só poderá ser definido se se tomar o outro como referência.

Em primeiro lugar, rutilante de luzes e bandeiras, em local bem visível, anunciado por tambores e trombetas, encontra-se o Paraguai de “gua’u”, palavra guarani que designa aquilo que é falso, simulado, enganoso, regido pela ficção. Em segundo plano, semioculto, pela penumbra, emboscado como salteador, humilde como um mendigo, porém vigilante e atento, encontra-se o Paraguai “teete”, outra expressiva palavra guarani empregada para designar o que é autêntico, real, prístino, genuíno, puro.

São dois países, bem distintos um do outro. Ocupam o mesmo espaço físico, como animais de espécies diferentes disputando um único território. Ambos, entretanto, mantêm entre si um vínculo estreito e indissolúvel. Dir-se-ia que um envolve o outro como a casca adere à polpa da fruta; ou como a pele se apega aos músculos. São o anverso e o reverso de uma mesma moeda e não podem ser compreendidos separadamente.

O Paraguai de “gua’u” é uma concessão ditada pela cortesia – e a cortesia, como se sabe, é uma virtude paraguaia por excelência, no que estão de acordo todos os estudiosos do assunto. Em nosso caso, a cortesia nos obriga a olhar o mundo exterior através de lentes embaçadas pela névoa ou pela cegueira – uma opacidade total. Refiro-me ao vasto e misterioso mundo dos “pytagua”, que se estende além de nossas fronteiras no sentido dos quatro pontos cardeais. Um mundo que, a partir de nosso isolamento, sempre se nos afigurou como perigoso e hostil, capaz das mais imprevisíveis atitudes.

O Paraguai de “gua’u”, para que o visualizemos melhor, assemelha-se à fachada de uma casa nova, recoberta de adornos e arabescos, cuja única finalidade é a de atrair a admiração dos que passam pela rua – já que tais efeitos são totalmente invisíveis para os que vivem dentro dela. Quando muito, os moradores podem apenas imaginar suas linhas, sonhar com seus desenhos e cores; e tentar reproduzi-la na imaginação, alta e deslumbrante, imponente e coruscante sob o sol.

O Paraguai de “gua’u” é o resultado de um sistemático processo imaginativo, uma produção da infatigável capacidade fabuladora do homem. Trata-se de um exercício criativo semelhante àquele que – segundo a paródia que Italo Calvino constrói sobre as crônicas de Marco Polo – realiza o negociante veneziano para regozijo e entretenimento do poderoso Kublai Khan. Em Calvino, o momento culminante do jogo ocorre quando o imperador mongol da China, aceitando as regras da fabulação, começa por sua vez a inventar cidades e pede que Marco Polo as busque em suas viagens.

O escritor Donald Barthelme nos convida a um exercício parecido. Em um conto curto, denominado precisamente “Paraguai”, repleto de notas de pé-de-página, descreve-nos detalhadamente uma paisagem que nada tem a ver com a que conhecemos. Na realidade, a descrição corresponde ao Tibet, com seus abismos vertiginosos e suas montanhas escarpadas. O Paraguai de “gua’u” é idêntico ao conto de Barthelme: descreve uma paisagem, seus habitantes, seu compêndio de virtudes e pecados, ritos e fobias. Só que nenhum paraguaio os reconhecerá como seus.

O Paraguai de “gua’u” é, como dizem os brasileiros com dissimulado cinismo, “só para inglês ver”. Ou seja, só ser visto pelos estrangeiros, turistas, viajantes ocasionais, personagens recém-chegadas. Um guia ilustrado com mapas e endereços de locais de interesse – monumentos e palácios, restaurantes e parques arborizados.

Se o turista, porém, se empenha em procurá-los, levando o guia a sério, vai esbarrar em sérias dificuldades. Topará com inesperados becos sem saída ou repentinos abismos; um pântano onde deveria haver uma praça; um casarão iluminado por uma inequívoca lâmpada vermelha justo no local onde supunha encontrar um herói equestre apontando sua espada de granito para o céu.

O país representado no guia turístico é tão irreal quanto a Disneylândia, com seus dinossauros, cavernas e fantasmas. Tão impossível quanto a “Terra do Nunca”, na qual Peter Pan refugiava-se para escapar de seu malvado inimigo Capitão Gancho. Tão imponderável quanto “País das Maravilhas”, carinhosamente imaginado por Lewis Carroll para que Alice saltitasse em sonhos privilegiados atrás de um chapeleiro maluco e naipes charlatães.

Mostra-se às pessoas o que as pessoas querem ver. É o que fazem as bailarinas de churrascaria que oferecem aos paroquianos a famosa danza de la botella, na sua versão grotesca, apresentada como a quintessência do folclore nacional – equilibrando precariamente sete garrafas sobre a cabeça. Dança tão paraguaia quanto a que realizam os sioux para atrair a chuva nos períodos de seca ou os massai para garantir uma boa temporada de caça. Os turistas, porém, adoram – que vamos fazer?

Isso guarda uma certa analogia com a extravagante indumentária dos músicos paraguaios quando se apresentam no exterior. Botas brancas, calças franjadas também brancas, camisas bordadas com pássaros, cascatas, rosas e montanhas. Vestimenta que sugere mais afinidade com a que usam os kalmukos e os jívaros do que a que cobre normalmente nossos cidadãos, nas ruas e nos mercados.

Esse fato me leva a recordar outro. No interior sombrio e triste de uma churrascaria, noite dessas, um péssimo harpista maltratava furiosamente seu instrumento. Perguntei-lhe na saída a razão daquela impiedosa barulheira, que não sugeria nenhum parentesco – bastardo ou remoto – com a música. Eis o que me respondeu: “Eto solo petáculo. La gente pide. Y por la plata baila el mono”.

O Paraguai de “gua’u” é exatamente isso: puro “petáculo”. O auditório é a comunidade internacional da qual somos membros e que recebe de nós o que gostaria de ver. O paraguaio não tem permanente de acesso neste clube, mas, pelas dúvidas, cuida de se confraternizar com seus sócios com uma dose de generosa e sadia cortesia.

Nossa bem assimilada urbanidade impõe-nos empanturrar nossos semelhantes com inspetores, eleições gerais, urnas e cabines indevassáveis, multas, magistrados, austeros, floripôndios, constituições, regulamentos, notícias nos jornais, éditos, solenidades, discursos nas datas cívicas e nas cerimônias de graduação, garantias legais, jogos florais, tambores, pavilhões, leis, sentenças, medalhas e monumentos.

Só para inglês ver.

helio1_foto Hélio Vera foi um jornalista, advogado e escritor paraguaio. Lançou seu trabalho literário a partir dos anos 1980, onde logo se destacou como contista e ensaísta. Seus textos carregavam críticas à cultura paraguaia que até os dias de hoje são lembradas, também contribuindo aos estudos sociológicos do país. Uma escrita ativa que está presente nos livros Angola y otros cuentos (1984), En busca del hueso perdido (1990), Voces del Olimpo I (2006) e outros. Na crônica a seguir é evidente a singularidade da escrita do paraguaio.

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