Das sinecuras e prebendas

fabio

Há dias em que o mundo, especialmente o da política, mais se aproxima de textos do realismo fantástico. Já escrevi sobre isso, mas não custa repetir a semelhança de nossos personagens da vida pública com animais enumerados na enciclopédia chinesa de Jorge Luis Borges, o Empório Celestial de Conhecimento Benevolente.

Para evitar dissabores, diremos que toda e qualquer semelhança direta dos animais enumerados a seguir com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Mas reparem bem e verão que as parecenças são muitas. Basta encontrar a classificação adequada para cada um dos pretendentes a cargos de alto coturno neste ano eleitoral de 2018.

No exótico compêndio do fantástico Borges, os animais se dividem assim: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo; l) et coetera; m) que acabam de quebrar a bilha e n) que de longe parecem moscas.

Conheço candidatos a sinecuras e prebendas que de longe parecem moscas prestes a pousar num monturo. Outros se agitam como loucos. Pois bem, eles sabem o que fazem para alcançar o seu prêmio e passar a chafurdar como os suínos.

Quanto aos intelectuais nativos, ou que assim se intitulam, parecem em desespero desde que perderam as benesses das leis de incentivo e outros institutos criados pelo poder para manter em sossego cabeças pretensamente pensantes, em troca de um cabide, de isenções, de uma verba.

O que não fazem por uma benesse? Domesticados, lembram leitões, norvejos e sereias à porta do Estado Mecenas a pedir o amparo rápido, abrupto, seguro, do Príncipe, do Senhor, do Pai. Agora mesmo, a abertura de caixas-pretas revelou o nosso mundo fantástico da corrupção.

Quem prefere ficar de cabeça acesa, vive grande depressão.

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