Neste tempo de confusão sangrenta

jessica

Como se não houvesse ontem, levantamos e vamos viver. O dia segue com aquele nublado habitual, nada novo, nada a reclamar, quase nada a sentir. A beleza do dia melancólico não comove mais, pois assim são os dias aqui. Eu descobri a tristeza da minha cidade. Mas nada a atrapalha. Como se não houvesse ontem, saímos de casa, andamos até o destino final.

Se não olhares para baixo, nunca terás problema, será tudo belo. É só ficar de olho no céu cinza e nos rostos fechados de frio. O verão bate à porta e invade a casa de tantos outros, mas aqui ainda sinto frio. Se não falares, não olhares e não disseres, não terás problemas.

Mas nem sempre é como planejamos. Às vezes tropeçamos. Eu tropecei.

Era um corpo caído, rebaixado, inchado, desconfigurado, abandonado e bêbado. Tropecei nele e caí ao seu lado. Ao que tudo indica, ele nunca tinha visto ninguém, pelo menos nenhum rosto. Do chão ele só via pernas e sapatos trançando e rabiscando a sua terra. Parou, me viu, observou e não se surpreendeu, logo seu olho voltou para o meio de toda aquela pele roxa e vermelha. Seguiu rastejando. No primeiro momento, tentei me levantar. Não consegui. Tentei novamente e nada. Chorei de fazer força e tentei de novo. Fiquei no chão. Então comecei a rastejar em busca dum lugar mais calmo. Era muito difícil carregar meu corpo dali, do chão, me empurrando. Passei a pedir ajuda. Pessoas desviavam de mim, com suas cabeças inclinadas para o céu e olhares que nunca me viam. Nunca me encontravam. Passei a gritar.

Sou uma de vocês! Não lembram? Ajudem-me, por favor!

Senti fome e sede. Oh, meu Deus! Eu preciso levantar daqui! Segurava em algumas pernas para ganhar atenção. Na terceira perna que segurei, forcei minhas unhas contra aquela calça preta de couro. Foi assim que levei meu primeiro chute na cara.

Dormi por horas. Acordei com Carlos ao meu lado, o corpo caído que me fez tropeçar. E foi meu primeiro porre e meu primeiro inchaço. Os dias seguiram e esqueci-me da tentativa de ficar posta feito bípede. Entre os amigos rastejantes eu era a mais bela. Mesmo com o rosto no processo de desconfigurar, eu era quem tinha os cabelos mais belos. Me orgulhava deles. Já não me importava com as pernas; o álcool e a inércia amorteceram-nas, mataram-nas.
Só tentei levantar quando um amigo me encontrou na rua. Chovia, como sempre. Ele parou, quase tropeçou em mim. Viu meu olhos, que desviaram logo que senti aquela abjeção ao me ver. Chorei, mas não sofri. Fingia estar sonhando. Ele me colocou sentada e disse que iria me ajudar. Eu cuspi para dentro dele aquela esperança. Eu já não tinha pernas, eu já não tinha felicidade. Nem quando andava por aí. Fiz ele ir embora, mas disse que voltaria. Outro porre, outros chutes para adiantar o rosto. Cortei meu cabelo e ganhei peruca. No chão eu devia ficar.

Aprendi a olhar com rapidez ou fingir que olhava para ganhar uns trocados. Segurava as pernas com carinho para ganhar pena ou com raiva para acabar com isso de uma vez. Aprendi a conviver com passos ao meu lado e esquecer as ruas e os caminhos. Vi que só precisava de uma terra ou de um chão para carregar meu corpo até ele parar de vez. Eu sei que estamos sempre abandonados, mais ainda quando caímos.

É que a cidade onde eu moro é fria e melancólica. Invadiu-me.

É que nem sempre é como planejamos. Às vezes tropeçamos. Eu tropecei.

Leia mais

Deixe uma resposta