Os palácios do cinema*

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“Crepúsculo dos deuses” (Sunset Boulevard), filme dirigido por Billy Wilder, produção Paramount de 1950, ganhadora de três Oscars, roteiro brilhante do próprio Wilder e Charles Brackett, conta a história de Norma Desmond, uma ex-estrela do cinema mudo, vivida por Gloria Swanson – ela própria uma estrela da era muda. No elenco, Erich Von Strohein, na realidade também um diretor da mesma fase, William Holden e aparições de Buster Keaton, De Mille, Hedda Hopper, H. B. Warner e outros famosos da época, interpretando a si mesmos. Um clássico que pode ser revisto incontáveis vezes, com tantas leituras e detalhes, um passeio ácido e nostálgico pelo mundo do cinema. Em trecho de sua brilhante interpretação, a personagem de Swanson diz: “Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos”. Algumas décadas depois, ela poderia ter dito que os cinemas também ficaram pequenos.

As grandes salas eram como símbolos da consagração da arte cinematográfica, a expressão artística mais autêntica do século XX. Os cinemas tinham um “rosto”, personalidade, no mais das vezes pelo tipo de filmes que exibiam, de determinado estúdio, direcionando seu público. Nesta época, todo homem, mulher ou criança iam ao cinema regularmente, pelo menos uma vez por semana, e o ingresso custava centavos de dólar. Com a opulenta decoração, o encantamento começava na entrada, na sala de espera, a cortina que escondia a enorme tela, a música tocando, o sinal sonoro para o início da sessão, um ritual. Certa feita, próximo ao fechamento do Cine Plaza, eu estava na sala de espera, aguardando o início da sessão, quando um jovem rapaz, andando de um lado para outro, perdido, perguntou onde ficava a tela. Ele nunca tinha entrado em um cinema de rua.

Fachada do Cine São Luiz, em Recife, na rua da Aurora.

Fachada do Cine São Luiz, em Recife, na rua da Aurora.


Fecharam as grandes salas, arruinadas pela manutenção deficiente, programação, desinteresse, especulação e diminuição de público. Os cinemas tornaram-se meramente um lugar para sentar-se no escuro e ver um filme. Sem decoração, impessoais, para consumo rápido (fast-food), em que o que se quer é o trânsito de pessoas, com o lucro obtido nos lanches caríssimos em baldes, copos temáticos, brindes, e não nos filmes, que é o que menos importa. Os Multiplexes tornaram-se a viabilidade econômica com a grande oferta de títulos simultâneos e novidades tecnológicas, iguais em todos os conjuntos, reduzindo a opção de filmes disponíveis, pois estas grandes redes não querem arriscar nada. Com o cinema digital, as salas são disponibilizadas também para reuniões corporativas, festas, jogos, shows. De acordo com o urbanista Milton Botler, a população passou por um processo de “negação da rua”. Para ele, este “simulacro” de espaço público oferecido pelos shoppings com conforto, relativa segurança e lazer levou ao empobrecimento do centro urbano, pois substituiu o que no passado era uma realidade das ruas.

Todavia, cidades ao redor do mundo e do Brasil conseguiram salvar pelo menos alguns dos antigos templos, pelo desejo de manutenção da memória coletiva e cultural, e que fazem parte da identidade urbana. São testemunhas de um passado arquitetônico e dos costumes da cidade. Aqui no Paraná, União da Vitória com o Luz, Ponta Grossa com o Ópera, Palmeira com o Municipal, Curitiba, por enquanto, com o Vitória (Centro de Convenções) – apesar de ser um exemplo tardio, nada restando dos anos 40 e 50, da antiga Cinelândia curitibana –, Londrina com o Ouro-Verde, e tantos outros, estão conservados pelo poder público, todavia sem a sua função original, sendo usados hoje como teatros, locais para reuniões, shows, formaturas, palestras.

Castro Theatre, em São Francisco, Califórnia.

Castro Theatre, em São Francisco, Califórnia.


Para a valorização do centro urbano, o cinema de rua é peça importante, além do vetor cultural, pois tem programação contínua e em diversos horários. Pelo poder público, ou iniciativa privada, diversos cinemas funcionam, não como museus, mas com ótima programação, apuro técnico e, pelo seu tamanho, com bons preços. Sediam festivais, mostras, concorridas estreias, principalmente de produções locais. É o caso do Cine São Luiz, em Recife. Inaugurado em 1952 e fechado em fevereiro de 2007 pela Empresa Severiano Ribeiro, que o construiu, foi reaberto em dezembro de 2009 e restaurado, sob a coordenação do governo do Estado, que o compraria por 2,5 milhões em 2011. Assisti a alguns filmes lá e a sensação é incrível, maravilhosa, pela decoração suntuosa, que lhe confere imponência, principalmente nos dias de hoje. A pleno vapor, também funcionam o São Luiz de Fortaleza (já mostrado no n. 178 da revista), o Odeon no Rio de Janeiro e tantos outros. Na Califórnia, são famosos o Castro em São Francisco e, numa mesma quadra, no Hollywood Boulevard, Los Angeles, o El Capitan (comprado e restaurado pela Disney), o Egyptian (administrado pela American Cinematheque) e o famosíssimo Chinese Theatre de 1927, fazendo parte de um complexo de salas, mas intactos na decoração e com a última palavra em tecnologia. Estas antigas salas se tornaram espaços de educação e amor ao cinema, são como uma espécie de irmandade internacional de palácios que sobreviveram ao tempo em cidades ao redor do mundo.

Dizem alguns que é possível conhecer uma cidade culturalmente através dos seus cinemas. Em Berlim e em Paris, por exemplo, isso emana de antigos palácios, redes comerciais, multiplexes e pequenas salas independentes, pontos de exibição que refletem as mudanças complexas por que passa o cinema atual, além de mostras de filmes antigos restaurados. Reflete a diversidade étnica e cultural, revelando filmes inesperados e, pela alta frequência de público, as diferentes faces de uma cidade.

Fica a pergunta: que diríamos de Curitiba?

*No abre da matéria o opulento interior do Cine São Luiz, em Recife.

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