Pandemonium

armando

Temos que admitir que os nossos dias são outros dias. São dias cada vez mais tristes. No século vinte, vivíamos uma realidade diferente da de hoje, embora as constantes desgraças humanas fossem minimizadas por ideologias românticas e muito faz de conta. Muito também se conseguia na vida por pura amizade, sem esses desvios de conduta moral e ética que hoje se mostram indeléveis nos relacionamentos superficiais estabelecidos tanto nos compromissos profissionais como nos pessoais. Então enxergo com tristeza que o homem tem pautado sua conduta na máxima de John Milton (1608-1674) de que é melhor reinar no inferno do que servir no céu (“Paraíso Perdido”). E assim tem sido em qualquer circunstância, sem qualquer freio ou pudor, que a maioria tem se afeiçoado ao satã miltoniano que reunia no pandemônio todos os anjos caídos para tramarem a corrupção da última criação de Deus, o próprio homem. E o homem aprendeu com esse satã descrito por Milton que, traindo seus pares, urdindo suas tramoias e buscando a fortuna e a fama a qualquer preço, poderia enganar a todos com seus discursos grandiloquentes. Um ledo engano, pois o satã de Milton carrega consigo o próprio inferno aonde quer que vá, e aquele que o usar como modelo também carregará uma profunda tristeza e desesperança, pois no fim só lhe restará a solidão por estar longe da graça divina e de amigos verdadeiros.

Lembro que todo final de ano o arrivista se torna caridoso e procura ardentemente se fazer de benfeitor, tentando enganar a si mesmo, distribuindo doações e presentes aos depauperados que padecem da tal injustiça do berço. É a tentativa de reconquistar o paraíso perdido como nos poemas de Milton. Mas aos seus “amigos” caídos oferece um banquete para sugar suas reverências e seu respeito, chafurdando na própria malevolência. Tenho então uma epifania: a visão desses homens transportados para o Titty Twister, aquele bar infernal no meio do deserto criado por Quentin Tarantino em “Um Drink no Inferno”, ao som da hipnotizante “After Dark”, servindo de festim aos demônios e vampiros que os chamam de volta para casa. Obviamente sem direito à eletrizante, sensual e perturbadora dança de Salma Hayek em seu pandemonium.Torno então a me lembrar de Milton: “Oh, que vergonha para a estirpe humana! Firme concórdia reina entre os demônios! E os homens na esperança de alcançarem a ventura do céu vivem discordes”.

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