Qualquer maneira de amor vale amar

adriana

A MPB também é gay. E é porque a música não é nada mais que a expressão do humano, então tudo que diz respeito aos nossos sentimentos, comportamentos, expectativas e vontades é tema para ser cantado, como o homossexualismo e também os preconceitos que estão por perto.

O início dessa viagem que tem cor de arco-íris começa em 1931 com nosso Noel Rosa em “Mulato Bamba”, música que escreveu em homenagem a Madame Satã, famoso na Lapa, dono das características descritas pelo bamba: “Esse mulato forte é do Salgueiro / Passear no tintureiro é o seu esporte / Já nasceu com sorte e desde pirralho / Vive às custas do baralho / Nunca viu trabalho / E quando tira um samba é novidade / Quer no morro ou na cidade / Ele sempre foi o bamba / As morenas do lugar vivem a se lamentar / Por saber que ele não quer se apaixonar por mulher”. Noel trata sem deboche, sem a postura machista da época.

Na contramão do que Noel fez, está a marchinha de João Roberto Kelly, “Cabeleira do Zezé”. Talvez ela tenha atravessado os anos, dona de tanto sucesso, porque sempre berrou, sem pudores, o preconceito da sociedade, fazendo chacota e até estampando o lance um tanto violento de pôr fim a uma situação que não tem aceitação, cortando os cabelos do apontado. A música é de 1964, época em que os conservadores não gostavam de cabeleira vasta em homens. Logo depois, essa história mudou, os cabeludos tomaram a cena, mas, mesmo assim, a composição permaneceu estereotipando quem tivesse a coragem de assumir madeixas e comportamentos: “Será que ele é bossa nova? / Será que ele é Maomé? / Parece que é transviado / Mas isso eu não sei se ele é / Corta o cabelo dele”.

Do mesmo J R Kelly, agora em parceria com Chacrinha e Leleco Barbosa, está a controversa “Maria Sapatão”, de 1981, que, junto com a anterior citada, chegou a ser proibida no carnaval do Rio de Janeiro por um Termo de Ajustamento de Conduta, TAC, assinado entre o Ministério Público e o Sindicato Brasileiro de Bandas de Marchinhas Carnavalescas; trataram-na com o termo ‘lesbiofóbica’, mas no meu entender não há nada de errado, ao contrário: “Maria Sapatão / Sapatão, Sapatão / De dia é Maria / De noite é João / O sapatão está na moda / O mundo aplaudiu / É um barato, é um sucesso / Dentro e fora do Brasil”.

Dá para falar com humor respeitando o tema? Claro que sim. E quem prova isso, também, é Gordurinha em seu forró “Carta a Maceió”, em que um personagem conta as notícias do que lhe acontece no Rio de Janeiro para sua mãe, que vive em Maceió. Lá pelas tantas ele relata sobre as intenções do dono do lugar em que está hospedado. Brinca, mas não ofende. Relata a estranheza da situação, mas também não a descarta: “Arrumei uma vaga no Leblon / Com direito a café pela manhã / Acontece que o dono fala fino / E já anda espalhando que é meu fã / De manhã ele mesmo traz o lanche / O danado não tem nem cerimônia / É café, macaxeira e cuscuz / Sanduíches, bolinhos e pamonha / Eu queria voltar pra Maceió / Mas eu fico no Rio que é melhor”.

Raul Seixas, que preferia ser uma metamorfose ambulante, resolveu que o melhor era manter aquela velha opinião formada sobre tudo quando tratou do tema em “Rock das Aranhas”. Sobram preconceito e deboche. Não fosse pelo fato de Raul ter cantado que o lance de amor entre duas mulheres “não é normal” e decretar o que “é certo”, poderia até ser engraçada sua vontade se manifestando no verso “minha cobra quer comer sua aranha”: “Subi no muro do quintal / E vi uma transa / Que não é normal / E ninguém vai acreditar / Eu vi duas mulher / Botando aranha pra brigar”.

Foi Wando, aquele das calcinhas, que no final da década de 1970 cantou sem pudores a história de dois meninos “tão vadios de tanto querer”. Rodrigo Faour explicou que Wando leu um livro cujo fim revelava que o amor era entre homens, o que o inspirou a compor “Emoções”: “A lua iluminou teu corpo / Moreno, bonito, pra me provocar / No teu rosto um riso lento / Misturado ao pranto vi desabrochar / Te agasalhei nos braços, pele, mãos, espaços, acariciei / Te amei suavemente, e tão docemente, eu me fiz teu rei”.

E o Ney Matogrosso, com toda aquela sexualidade à flor da pele? Fez e faz muito sucesso, mas isso não quer dizer que a crítica conservadora tenha dado descanso para ele. Mas quanto mais o provocavam, mais ele se atirava para provar sua frase, dita agora, em 2017: “Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa”. Sim, palmas para o Ney! E ele causou muito furdunço por aí com interpretações escandalosas, descoladas, sinceras, irreverentes, indecentes – a depender da cabeça de quem ouve: “O vira”, “Homem com H” e outras, às vezes mais pela interpretação do que pela letra propriamente. Mas talvez a mais, digamos, divertida, é a que fala de um ex-gay, porque trata disso de forma irônica, daquele jeito de mandar um recado, fazendo afirmação inversa: “Telma, eu não sou gay / O que falam de mim são calúnias, meu bem / Eu parei / Não me maltrate assim não posso mais sofrer / Vamos ser um casal moderno / Você de bobs e eu de terno / Eu sou introvertido até no futebol / Isso tudo não faz sentido / E não é meu esse baby doll”.

João Bosco e Aldir Blanc fizeram juntos “A nível de”, letra bem ao estilo de Blanc, que gosta de música-crônica. Ele relatou a história de dois casais de amigos que tinham lá, como todos têm, suas dificuldades de convívio. Resolveram tentar arrumar as coisas numa troca de casais, mas por distração e também por empatia a divisão acabou terminando em homem com homem e mulher com mulher. Pois bem, os meninos iam ao futebol e para sobreviver abriram um restaurante natural, onde “cada um come o que gosta”. As meninas resolveram fazer artesanato, que tem por princípio “pintar e bordar com o que gosta”. Mas o remendo não progrediu em solução. Apesar de sexualmente todo mundo se dar bem e de se apoiar no ganha-pão, relacionamentos não são fáceis: “É positiva essa proposta / De quatro: hum-hum, ok, tá bom, é / Só que Odilon / Ensopapa o Vanderley com ciúme / E Adelina dá na cara de Yoyô / Vanderley e Odilon / Yolanda e Adelina / Cada um faz o que gosta / E o relacionamento continua a mesma bosta”.

‘Salve, salve, a alegria’, Pepeu Gomes, Baby Consuelo e Didi Gomes escreveram, no comecinho dos 1980, “Masculino e feminino”, música que provocava os estereótipos de gênero para afirmar a mistura entre homem e mulher, na aparência e na levada de vida. Era um grito sobre a androgenia de Pepeu que ficava estampada na estética, e também uma puxada de orelha nos preconceitos religiosos: “Ser um homem feminino / Não fere o meu lado masculino / Se Deus é menina e menino / Sou masculino e feminino”.

Lembra dos Mamonas Assassinas? Aquele humor infantil, até tolo, fez muito sucesso. Em “Robocop gay” misturaram os personagens de Jô Soares “Capitão Gay” e “Robocop” para contar a história de travesti que fez cirurgias e mais cirurgias e se transformou num ciborgue. Não tem ofensas, não tem preconceito e fez muita gente cantar e rir, com o recado claro “gay também é gente”: “Minha pistola é de plástico / Em formato cilíndrico / Sempre me chamam de cínico / Mas o porquê eu não sei […] Faça uma plástica / Ai, entre na ginástica / Boneca cibernética / Um Robocop Gay”.

A inspiração veio do final do relacionamento de dois amigos de Milton Nascimento, que contou a história a Caetano Veloso e surgiu “Paula e Bebeto”. Ela tinha 15 anos; ele, 17. Os amigos em comum, quando conheceram a música, imaginaram que o casal voltaria a formar par depois de ouvi-la, mas isso não aconteceu. No entanto, a canção atravessou os anos e superou a desunião heterossexual para fazer parte de manifestações homossexuais, porque nela estão os dois versos que mais têm importância na história dos casais, nas histórias de amor.

E é com esta mensagem que a coluna se despede, mais verdadeira do que nunca: “Qualquer maneira de amor vale a pena / Qualquer maneira de amor vale amar”.

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