As Ucrânias do Paraná*

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As tropas nazistas não pouparam o menino de 13 anos que morava em território ucraniano. Tirado à força do seio familiar, o amedrontado garoto foi levado para o incerto. Mantido em cárcere pelos soldados de Hitler, acabou submetido ao trabalho forçado em fazendas germânicas. Quando a guerra rumava para o fim, Pedro Bilonicki já estava com 15 anos. Filho único, ele jamais voltou a ver seus pais.

Com o término do conflito, Pedro embarcou em um navio repleto de imigrantes e desembarcou em território brasileiro. Após passar um período em São Paulo trabalhando em condições precárias em uma lavoura de café, o garoto resolveu buscar novamente outros ares. Desembarcou em Curitiba para começar a escrever um novo capítulo na sua vida. Casou, trabalhou, teve filhos, netos e, sobretudo, viveu. “Esse processo foi dolorido para ele. Pedro foi um guerreiro”, conta a nora, Mirna Voloschen. Pedro fez parte da terceira e última grande corrente imigratória ucraniana que escolheu o Paraná como nova casa.

A história dos imigrantes ucranianos no Paraná remonta a 1891, quando 10 famílias vieram desbravar uma região completamente desconhecida. Ivan Pasevich, que fez parte dos primeiros desbravadores ucranianos no estado, deixou por escrito as impressões sobre esses primeiros anos. Ele e sua família se estabeleceram na colônia de Rio Claro, onde posteriormente seria constituído o município de Mallet. Uma das principais carências que Pasevich sentiu era de um templo religioso onde os recém-chegados pudessem se reunir.

Propaganda da emigração, promovida por companhia marítima alemã, 1911 -  Acervo Pessoal/Andreiv Choma

Propaganda da emigração, promovida por companhia marítima alemã, 1911 –
Acervo Pessoal/Andreiv Choma


“Igreja, no começo nós não tínhamos nenhuma. O Natal e a Páscoa nós comemorávamos em casa. Meu pai benzia a ‘paska’ com água benta e nós todos juntos rezávamos o Pai-Nosso ‘Otche Násch’, e isso era toda a nossa cerimônia de comemoração. Só em 1897, com a vinda do Padre Rosdolskyi, na Colônia 5 foi construída a primeira Igreja. Duas ou três vezes ao ano nós íamos a pé pelas picadas até à Igreja na Colônia”, relatou. Esse depoimento foi publicado inicialmente no jornal Pracia, de Prudentópolis, em 12 de dezembro de 1951.

Após a vinda desses primeiros núcleos familiares, uma nova onda imigratória veio para o Paraná quatro anos mais tarde. “A partir de 1895 os imigrantes ucranianos vieram em maior número e se concentraram em quatro grandes núcleos no estado, se agrupando principalmente nas cidades de Mallet, Prudentópolis e Curitiba”, explica o pesquisador Andreiv Choma. Essa corrente prosseguiu até o início da Primeira Guerra Mundial (1914). “Durante essa época, os ucranianos que aqui chegaram foram também se alocando em outras regiões, como União da Vitória e General Carneiro”, completa.

A historiadora Talita Seniuk destaca que essa onda é reflexo da própria campanha do governo do estado que visava ocupar vazios demográficos, buscar mão de obra e suprir a crise de abastecimento de alimentos e bens primários dentro do território paranaense – além da política que visava clarear a população brasileira por meio da miscigenação. “Vale lembrar que não foram os ucranianos que escolheram o Paraná, mas os governos brasileiro e paranaense que determinaram que fossem assentados nesses locais, pois os imigrantes não podiam escolher onde iriam ficar”, ressalta.

Nessa época, os folhetos da propaganda imigratória brasileira que chegavam até o Leste Europeu traziam o brasão do Império Brasileiro, quando a República já estava em vigor, com seus altos e baixos, desde 1889. “Os panfletos demoravam para chegar até esse extremo do continente europeu. Então, quando chegaram já estavam completamente atrasados”, conta o pesquisador Choma.

A segunda grande onda de migrantes ucranianos para o estado ocorreu após a Primeira Guerra, quando se buscava uma vida melhor após o país ser atingido pelos combates, e a terceira grande corrente foi registrada depois da Segunda Guerra Mundial (1945). “Nessa onda os migrantes queriam fugir de um local que estava não só arrasado pela guerra, mas também devido à perseguição do governo comunista da União Soviética”, ressalta Choma. Só nessas três correntes, estima-se que chegaram ao Paraná mais de 60 mil imigrantes ucranianos.

De maneira geral, como ressalta a historiadora Talita Seniuk, os inúmeros problemas sociais, econômicos e políticos tiveram papéis preponderantes para a evasão dos ucranianos de seus territórios. “Havia vilarejos rurais ucranianos com traços de feudalismo em pleno século XIX que aniquilavam a vida de seus trabalhadores; regiões fronteiriças com outros países como a própria Rússia (lado oriental) e Império Austro-Húngaro (lado ocidental) em constante beligerância pelo desejo da posse das terras ucranianas consideradas as melhores da Europa para a agricultura”, explica.

Grupo de Danças Ucranianas, Mallet (PR), década de 50 - Acervo Pessoal/Andreiv Choma

Grupo de Danças Ucranianas, Mallet (PR), década de 50 – Acervo Pessoal/Andreiv Choma


Além disso, a Revolução Industrial, de acordo com Talita, resultou em um grande êxodo rural que fez com que os pequenos produtores não conseguissem competir com as grandes corporações e suas respectivas produções e, para piorar, eram constantes as “ondas de fome ocasionadas pelo desgaste do solo”.

DIFICULDADES
As dificuldades dos primeiros imigrantes assim que chegaram em solo brasileiro estavam diretamente ligadas às promessas não cumpridas do governo local. A expectativa era de que teriam um novo lar, com estrutura para conseguirem manter suas famílias, terras ilimitadas, casas e animais. Todavia, encontraram uma realidade em que o governo brasileiro pouco ajudava os recém-chegados. Além disso, enfrentaram ondas de preconceito.

Todo imigrante que desembarcava pelo Rio de Janeiro deveria ficar em quarentena em hospedarias, como a que existia na Ilha das Flores (litoral fluminense), para ver se não teria alguma doença, ou algo parecido, que pudesse contaminar os nativos brasileiros. Estes locais que os abrigavam temporariamente não contavam com uma estrutura sanitária, de segurança e alimentar adequada, o que causava muito desconforto e, até mesmo, mortes.

“A adaptação fora algo complicadíssimo, pois muitos, ao chegarem ao Brasil, não recebiam apoio do governo brasileiro, que havia sido prometida. A fome era algo constante”, relata a historiadora Talita.

Segundo Mirna Voloshen, que é filha de ucranianos, os imigrantes tiveram que desbravar o território paranaense na raça. “Muitas vezes não tinham o que comer e alguns chegavam a morrer de fome. Tiveram que derrubar mata para poder construir suas moradias”, destaca.

80% DOS DESCENDENTES UCRANIANOS DO PAÍS VIVEM NO PR
Em média, de todos os descendentes ucranianos no país, 80% moram no estado do Paraná, o que representa um número superior a 500 mil pessoas. A historiadora Talita Seniuk afirma que grandes concentrações ocorrem em Curitiba, São José dos Pinhais, Colônia Santa Bárbara, União da Vitória, Mallet, Prudentópolis, São Mateus do Sul, Dorizon, Cruz Machado, União da Vitória, Antonio Olinto, Rio Azul, Irati, Cândido de Abreu, Paula Freitas, Pato Branco, Roncador, Apucarana, Ivaí, Ponta Grossa, Campo Mourão, Juranda, Nova Cantu, Mamborê.

Em Curitiba são aproximadamente 55 mil pessoas, porém o maior percentual ocorre no município de Prudentópolis, onde, em uma população de acima de 50 mil, 38 mil são descendentes de ucranianos, ou seja, cerca de 75% da população, seguido de Mallet, onde o percentual de descendentes de ucranianos gira em torno de 60%.

Não havia estradas, hospitais, escolas, comércios, igrejas, e sobravam dificuldades com o idioma e com a adaptação ao clima. “Até conseguirem se estabilizar, passaram por um período de miserabilidade”, resume Talita.

A situação talvez não foi pior, pois, como relata o pesquisador Andreiv Choma, o governo alocava as famílias ucranianas em territórios próximos. “Era um quilômetro que separava as famílias uma das outras e isso manteve os núcleos próximos, o que facilitava para que eles se ajudassem”, comenta.

Crianças imigrantes em frente ao Clube Tarás Shevchenko, Mallet (PR), 1910 - Acervo Pessoal/Andreiv Choma

Crianças imigrantes em frente ao Clube Tarás Shevchenko, Mallet (PR), 1910 – Acervo Pessoal/Andreiv Choma


NÚMEROS NO BRASIL
Segundo a pesquisadora e historiadora Oksana Boruszenko, o número de imigrantes ucranianos no Brasil até o princípio da Primeira Guerra Mundial chegou a 45 mil pessoas. A partir dos meados de 1947 até 1951, estima-se que mais de 7 mil imigrantes ucranianos foram registrados nos portos brasileiros.

LEGADO SOCIAL E CULTURAL
Religião, dança, bordados, gastronomia, idioma, poesia, atividades agrícolas, profissionais liberais… Os campos de atuação e de influência dos imigrantes ucranianos em solo paranaense é amplo. Difícil resumir em poucos parágrafos. Basta olhar para a arquitetura das igrejas com suas cúpulas bizantinas que se destacam na paisagem Paraná afora para saber que determinada região foi marcada pela presença dos imigrantes ucranianos.

Eles seguem a Igreja Católica representada pelo Vaticano, com o rito oriental, em que a missa é rezada em ucraniano e o padre de costas para o público. “Muito da herança cultural ainda se preserva em festividades, principalmente as religiosas, pois não há como separar a parte cultural da religião no que tange os ucranianos, afinal a religiosidade é algo inerente a esta etnia, de modo tão forte, que se pode dizer que é graças a muitas igrejas que os costumes se mantêm”, ressalta a historiadora Talita Seniuk.

CURIOSIDADE
ENSINO
Uma das preocupações dos ucranianos quando chegaram ao Brasil era a educação. Por isso, já em 1898, fizeram a primeira tentativa de fundar uma entidade cultural-educativa. Surgiu, então, em Curitiba, o grupo denominado Prosvita, cuja principal finalidade era difundir conhecimentos sobre a cultura ucraniana. Foi fundada uma biblioteca e criou-se uma escola especial de agricultores. Além disso, eram realizadas sessões comemorativas e cursos especiais sobre artes e literatura. Atualmente, a organização sociocultural mais antiga é a Sociedade Ucraniana do Brasil, com 95 anos.

Junto com a fé, o idioma segue sendo ensinado aos mais jovens, principalmente em comunidades mais interioranas. “É normal a gente se deparar com pessoas que têm um sotaque mais forte. Sinal de que a raiz cultural está sendo preservada”, afirma Andreiv Choma. Em regiões rurais, o idioma ucraniano continua sendo a língua corriqueira de diversas famílias.

Para preservar os costumes ucranianos, diversos grupos folclóricos expressam sua cultura e riqueza associada aos festivais e cerimônias religiosas. Muitos realizam apresentações de dança que lotam o Guaíra, na capital do estado, por exemplo. “Os grupos folclóricos ajudam os descendentes a perpetuar os costumes e a ensinar a cultura para as novas gerações”, afirma Choma.

A produção de pêssankas e de artesanato também é outro marco cultural trazido e perpetuado pelos ucranianos. A pêssanka é um ovo colorido à mão que simboliza a vida e a prosperidade. Tornou-se um dos símbolos da Páscoa no Paraná. “Manter as raízes culturais, no meu ponto de vista, é não negar a realidade; negar a descendência ou contribuir para que ela seja aniquilada é buscar ser quem não se é, pois ninguém pode mudar esses traços culturais, já que eles estão presentes nas famílias onde nascemos”, ressalta Talita.
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Apresentações do grupo folclórico FOLCLORE UCRANIANO BARVINOK, que mantém viva a tradição da etnia em solo paranaense

Apresentações do grupo folclórico FOLCLORE UCRANIANO BARVINOK, que mantém viva a tradição da etnia em solo paranaense


No campo cultural, pode-se citar a poetisa Helena Kolody e o cineasta Guto Pasko, como dois ícones da cultura paranaense que têm como origem a Ucrânia. “Vieram muitas pessoas que ajudaram a construir esse estado. Seja no campo cultural ou em qualquer outro campo”, ressalta Mirna Voloschen, que também leciona ucraniano.

E ela tem razão. Muitas técnicas agrícolas utilizadas no Brasil vieram dos imigrantes ucranianos. Além disso, muitos profissionais vieram da Ucrânia para ajudar no desenvolvimento do Paraná. “Eles contribuíram no progresso das cidades e localidades para onde foram alocados”, constata a historiadora Talita.

O CASAL QUE SE CONHECEU DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO
Doze anos depois de Serafim Voloschen desembarcar no Brasil, Maria chegava da Ucrânia. O ano era 1938 e ela, com apenas 11 anos, não tinha ideia do que viria pela frente. Ela fugia das condições paupérrimas que a Ucrânia vivia. Enquanto isso, Serafim, que tinha perto de 15 anos, já alimentava o sonho de se tornar engenheiro – concretizado anos mais tarde.

Maria vinha com as duas irmãs e com a mãe. O seu pai já residia há dois anos no Brasil. Trabalhou na construção de estrada de ferro, de usina hidrelétrica e estava à frente de um estabelecimento comercial em Mallet. Foi ali que ele sentiu que havia condições de sustentar a família e escreveu uma carta avisando a esposa e as filhas de que elas poderiam embarcar com destino ao Paraná.

Quis o destino que Maria e Serafim, anos mais tarde, se conhecessem ainda adolescentes frequentando as atividades culturais dentro da comunidade ucraniana de Curitiba. “Eles se conheceram ali, se apaixonaram e se casaram”, conta a filha Mirna Voloshen, que hoje frequenta, com o marido, o mesmo grupo folclórico dos pais e atua na preservação da cultura ucraniana no estado.

*No abre da matéria a construção da Igreja Ucraniana do Sagrado Coração de Jesus, Mallet (PR), década de 20 –
Acervo Pessoal/Andreiv Choma

Fotos: Divulgação

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