Editorial. Ed. 196

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Saímos das trevas do regime fardado com o coração cheio de esperanças e de ilusões. Quando Ulysses Guimarães saudou de braços abertos a “Constituição Cidadã” de 1988, parecia que o país tinha encontrado finalmente a terra onde correm os rios de leite e mel.

Uma penca graúda de direitos saltou da Constituição como se o Brasil tivesse descoberto o reino da social-democracia perfeita: muitos direitos, alguns deveres e a felicidade, o bem estar e a imortalidade garantidos por lei. Mas sempre haverá no mundo os desmancha-prazeres, que os detratores chamam de “cabeças de planilha”, lembrando a velha e antipática máxima de que “não existe almoço grátis”. O pior é que não existe mesmo.

Depois de 30 anos de democracia, estamos encalacrados de novo: o primeiro presidente eleito pelo povo, depois da ditadura, foi afastado por impeachment. Não passava de um aventureiro carreirista que pensava mais em seus jardins do que em seu País. Um malandro falsamente sofisticado, com ares de finório, vulgar como um novo rico, colecionador de Lamborghinis e uma vocação de estroina. Pasmem se diz candidato a presidente novamente.

Vieram os anos de remendos e de reconstrução do Plano Real, onde se tentou construir uma plataforma de relançamento de um país mais responsável e com os pés no chão, assentado sobre uma moeda que tinha deixado de ser a caricatura que foi durante todos os anos em que mudou de cara, de nome e de valor, até virar uma piada de mau gosto, que em 29 anos perdeu 1.142.332.741.811.850% de seu valor. Isso mesmo: um quatrilhão e alguns quebrados.

O certo é que a jovem democracia relançada menos de 30 anos atrás pegou o atalho errado e, já com aparência de velha e caquética, apresenta rugas de senilidade precoce, mergulha num mar de incompetência e chafurda num universo moral mais parecido com o de uma cloaca do que o de um país jovem, cheio de potencial e de um futuro brilhante pela frente.

Os sinais de fracasso estão em toda parte, no Executivo, no Parlamento, no Judiciário, nos partidos políticos, nas universidades, nas escolas, nos vários segmentos sociais atingidos pelo desalento da falta de um mísero sinal de luz no fim do túnel.

Para onde vamos? Vamos institucionalizar mesmo um país onde é “a coisa mais natural do mundo” que empreiteiras prestem favor a governantes e ex-governantes, e onde fraudar contratos de merenda escolar e enfiar uma parte do dinheiro no bolso é uma prática aceita com um olhar complacente?

A Lava Jato terá servido para melhorar nossos costumes e nossas instituições? Qual o que? O sistema político e eleitoral continua o mesmo e deverá eleger Renans e Jucás às pencas. Por mais que as pesquisas informem que os brasileiros exigem honestidade de seus escolhidos, sabemos que na hora do voto o que conta para a maioria é a expectativa de um favor, uma benesse, talvez uma sinecura. Afinal, é assim desde o descobrimento, por que mudaríamos agora? Vícios não mudam com facilidade, a não ser que se apliquem com rigor novas regras e se façam valer princípios republicanos que no Brasil sempre serviram apenas de enfeites em discursos de ocasião.
Melhor começar de novo. Isto não vai dar certo.

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