Fim de feira

fimfeira_abre

O cenário da política brasileira é de fim de feira. Lula foi condenado por corrupção em segunda instância. Teve sua pena aumentada de nove anos e meio para 12 anos e um mês. O resultado jogou areia no marketing de campanha do PT de que eleição sem Lula é fraude. Fraude seria a sua participação, como defendem alguns juristas dignos da filosofia do jeitinho brasileiro, mesmo que isso signifique atentar contra a Lei da Ficha Limpa.

Acabou. Da Lava Jato ficam restos destinados ao lixo da história. A sensação é a de que todas as instituições políticas e seus atores estão contaminados pela corrupção. Mesmo que isso não seja uma verdade absoluta, pois há políticos que não chafurdaram nos desvios de dinheiro público, o certo é que o brasileiro perdeu a esperança. Vive uma espécie de corrente da infelicidade, pela qual todos se merecem, votantes e votados. A moral da história é a decadência de um país que, pretendendo ser do futuro, era bem melhor no passado.

O PT fraudou todas as esperanças. Ele chegou a representar para os milhões que o elegeram a chance da conquista da contemporaneidade do mundo. Dele se esperou um projeto consistente, profundo e determinado. O governo Lula beneficiou-se das reformas construídas por Fernando Henrique Cardoso que resultaram no aumento da produtividade e crescimento da economia.

O PT fora contra a maioria dessas reformas, mas ao assumir o governo, Lula teve a desfaçatez e a coragem de manter todas as mudanças que condenava. Colheu os frutos dos plantios anteriores e da emergência da China como principal parceiro comercial do país. Esse crescimento permitiu expandir as políticas sociais, incluindo aumentos reais do salário mínimo. Lula se consagrou, ainda que os escândalos de corrupção começassem a pipocar e turvassem esse brilho.

Mas logo esse processo foi paralisado. Muitos no governo eram contra a política econômica que taxavam de neoliberal e retrógrada. Depois de 2008, com a crise mundial, estas correntes passaram a ter voz e a exigir mudanças, que estavam adormecidas pelo êxito econômico e pelo pragmatismo de Lula. Venceu o atraso. Iniciou-se crescente intervenção estatal na economia e partiu-se para a reedição de políticas do passado.

No governo Dilma Rousseff essas ideias triunfaram de vez. A taxa de juros baixou na marra, o regime cambial deixou de ser flutuante, o cumprimento de meta do superávit primário passou a depender de malabarismos financeiros e artifícios contábeis. O Banco Central (BC) se tornou tolerante à inflação e o controle de preços da gasolina voltou à cena. A famigerada “conta movimento”, pela qual o BC supria o Banco do Brasil (BB) de recursos e constituía canal para subsídios generosos, foi ressuscitada, agora via Tesouro e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os aportes do BNDES saltaram de R$ 15 bilhões para mais de R$ 500 bilhões. Dinheiro que alimentou, por exemplo, projetos e cafajestadas de Eike Batista e os irmãos Joesley e Wesley Baptista.

O protecionismo reapareceu. A intervenção no mercado de energia escancarou o DNA autoritário. O foco principal da política econômica passou a ser o estímulo à demanda, um equívoco populista, pois o problema está na oferta. Mas a nova política econômica servia a interesses imediatos e foi defendida por lideranças empresariais, economistas e pela massa de despossuídos que passaram a acreditar que a possibilidade de aquisição de bens de consumo a elevava à condição da classe média, mesmo que seu salário mensal fosse, em média, míseros R$ 1.200 mensais.

Deu no que deu. Dizia-se que o investimento e o produto interno bruto (PIB) cresceriam com uma combinação de juros baixos, câmbio desvalorizado, crédito subsidiado e proteção à indústria. Não funcionou. Os gênios petistas não consideraram a relevância da produtividade, que despencou pela paralisia das reformas. O intervencionismo excessivo criou incertezas que inibiram os investimentos. O potencial de crescimento estourou. A bolha do crédito subsidiado estourou e passou a devolver à quase miséria milhões que acreditavam ter prosperado.

A crise aprofundou-se e tornou-se insustentável a manutenção do governo de Dilma Rousseff, que além da incapacidade para conduzir o país, foi apanhado em falcatruas que se agigantaram nas investigações da Lava Jato. Tornou-se claro que o PT não tinha limites ao instalar esquemas de superfaturamento de obras, desvios de recursos de programas sociais e outras baixezas inomináveis para financiar sua própria reprodução no poder.
fimfeira_lula
Além da desmoralização pela incapacidade de gestão, o que se acentuou na medida em que foi perdendo seus quadros mais experientes flagrados em grossa corrupção, o PT e as esquerdas que o seguiam, perderam o que sempre afirmaram ter: autoridade moral superior que a diferenciaria de todas as demais correntes políticas.

Sobrou-lhe um saldo de apoio social típico dos populismos latino-americanos. Este apoio personalizado em Lula da Silva, seu maior líder. Com ele na cabeça, o PT ainda se movimentava com discursos triunfalistas de volta ao poder. A sua condenação por ato de corrupção e dos menores pelos quais é acusado, desmonta a farsa. Nesse processo, ficou evidente que Lula não é o irmão pobre dos descamisados. Deixou de ser o salvador da pátria. Perdeu autoridade moral. É defendido apenas por uma chusma de militantes sectários, que não tem outro argumento que o de insistir que foi vítima de um golpe que os tirou do poder e que o Judiciário, mesmo sem provas, condena Lula por corrupção, porque tem pesos e medidas que só se aplicam ao PT e seus assemelhados.

O julgamento pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) foi além da reafirmação, por unanimidade, da sentença do juiz Sérgio Moro e a ampliação para 12 anos e um mês da pena imposta ao ex-presidente Lula. Os desembargadores da 8ª Turma do TRF4 protagonizaram um necessário desagravo à Justiça.

Reafirmaram a independência do Poder Judiciário, não cedendo a constrangimentos e pressões. E destruíram a falácia de que no Brasil imperam tribunais de exceção, como o PT e sua turma tentam, irresponsavelmente, propagar por aqui e além das fronteiras do país.

Foi um julgamento didático. João Pedro Gebran Neto, o relator, Leandro Paulsen, o presidente da turma e revisor, e Victor Laus, expuseram com minúcias a denúncia do Mistério Público Federal (MPF) e a sentença de Moro, as arguições da defesa, as provas documentais e circunstanciais, os relatos de testemunhas e delatores. Explicaram os procedimentos processuais e o significado das acusações de lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

E rechaçaram, com citações de peças expostas nos autos, os argumentos de falta de provas e cerceamento de defesa, teses caras a Lula e seus advogados, que demonizam a Justiça quando ela condena o ex e dela abusam com um sem número de recursos. Mais de 150 só no TRF4. E, alguns deles deferidos em favor do réu, como salientou Paulsen, reiterando a isenção da Corte. Como bem disse Laus, “em bom português, se alguém fez algo errado, e se esse algo errado é crime, a pessoa responde e pronto”.

Assim termina o reinado de Lula e de mais uma experiência da esquerda populista no continente. Poderia ter sido um avanço para a modernidade. Foi um retrocesso brutal. Creio que o pior da obra criminosa de Lula, do PT e seu consórcio no poder foi a desmoralização das esquerdas, que passou a ser sinônimo de corrupção, roubo, enriquecimento ilícito, caixa dois, fraude e todos os crimes que cometeu em proveito pessoal dos adeptos do alto e do baixo clero e em proveito de um projeto de permanência no poder.

Por muito tempo teremos uma democracia capenga com as vozes da esquerda desautorizadas pela experiência lulista. O PT terá que rebolar para contraditar a frase de Paulsen, a que mais traduziu o espírito do julgamento: “Aqui, ninguém pode ser condenado por ter costas largas, nem absolvido por ter costas quentes”. Ou seja, ninguém está acima da lei, como convém a um país onde a contemporaneidade do mundo ainda é uma esperança.

Leia mais

Deixe uma resposta