Mosteiro do Encontro*

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SILÊNCIO ALIMENTADOR
A 70 quilômetros de Curitiba, monjas repetem o “Ora et Labora”, de São Bento. Acolhem os visitantes como “outro Cristo”, em parte graças à doação de uma desconhecida que um dia acolheram.
O espaço é de refrigério espiritual, dispensa pré-requisitos religiosos.

Sentado na última fila dos bancos, enxergo de imediato duas fisionomias amigas, amizades comigo iniciadas há pouco mais de 50 anos: as madres Chantal, 96, e Teresa Paula, 77.

Entoam o gregoriano, infelizmente sem o latim. Em seguida, avisto madre Ana Maria, prioresa da casa, e irmã Elizabeth, a hospedeira. Com elas estão mais sete monjas e uma postulante, candidata ao claustro, jovem na casa dos 30 anos, formada em Publicidade e Propaganda.

Estamos no segundo domingo do Advento de 2017, período litúrgico de preparação do Natal na Igreja Católica e no Mosteiro do Encontro, da ordem beneditina (OSB), localizado desde 1999 em Areia Branca dos Assis, Mandirituba (PR), 70 quilômetros ao sul de Curitiba.

NO PINHEIRINHO
O Mosteiro do Encontro nasceu, eu acompanhei passo a passo seu nascimento, em 1965, no bairro do Pinheirinho, em Curitiba, de onde as monjas acabaram em 1999 “expulsas” pelo avanço da cidade e todos os adendos secularizantes, como o barulho, a violência…

Lá tudo fora construído em boa madeira e com bom gosto, na capela e no altar, no claustro, na hospedaria. Quando rememoro aquele cenário, que depois de 1999 foi entregue a outra obra católica (dedicada à recuperação de drogados), revejo aqueles tempos pioneiros como num filme.

E neles “reencontro” a belga irmã Ana (in memoriam), uma teóloga e intelectual de rara cepa, altiva e receptiva, racional e mulher de fé, crítica e caridosa, presidindo reuniões com profissionais liberais, professores universitários, crentes e descrentes, interpretando realidades sagradas e das ciências humanas, as sociais especialmente; irmã Margarida, dona de voz maravilhosa, que hoje vive no mosteiro filial de Itacoatiara, depois de ter morado por oito anos no mosteiro de Belém, Palestina/Israel; irmã Danielle, belga, lépida, jovem, alegre, que fico sabendo ter morrido.

Na missa dominical, participação da vizinhança

Na missa dominical, participação da vizinhança


Irmã Teresa Paula, portuguesa, me ajuda nessa recomposição do cenário humano de outrora. Por vezes, corrige ou amplia minhas rememorações. Ela fez parte do grupo inicial em Curitiba, depois foi eleita madre do mosteiro coirmão de Portugal e chegou a presidir mundialmente a Congregação das Beneditinas “Regina Apostolorum” (OSB), à qual se filia o Mosteiro do Encontro.

Essa congregação beneditina tem centenas de mosteiros, por todos os continentes.

REUNINDO A VIZINHANÇA
A capela do Mosteiro do Encontro, que não é pequena, está cheia nesse segundo domingo do Advento de 2017, talvez com umas 120 pessoas de todas as idades. Prevalecem gente da vizinhança, trabalhadores rurais e pequenos agricultores, alguns dedicados à fruticultura, especialmente ameixa. E desempregados, muitos dos quais recorrem às irmãs até em busca de alimento, remédios, conselhos.

Há, também, gente fazendo retiro no local, e um grupo de jovens do movimento nacional católico TLC, braço de Fazenda Rio Grande.

Os moços do TLC estavam surpresos – disseram-me depois da missa – por encontrar aquele espaço de reflexão, contemplação e repouso espiritual.

Diante da proximidade “tão distante” entre a cidade de origem dos jovens e o mosteiro, concluo que as irmãs continuam as mesmas: não fazem relações públicas. Apenas têm uma primorosa página na internet, cujo objetivo é claro: indicar a sua existência e apontar o endereço do mosteiro. Com dosadas sugestões sobre as excelências da clausura.

As monjas recebem hóspedes para retiros (na pequena hospedaria, mediante agendamento) e visitantes, todos como “outro Cristo”. Tudo de acordo com o que preceitua a Regra de São Bento, o pai da vida monástica do Ocidente, que viveu no século quinto, não muito distante de Roma, no mosteiro em Monte Cassino, patrimônio cultural da humanidade.

No cenário monástico, despojamento: ambiente despojado, sem imagens e adornos

No cenário monástico, despojamento: ambiente despojado, sem imagens e adornos


ACÚSTICA É SECUNDÁRIA
Fico atento à prédica de padre Jomar, um acolhedor setentão francês, que há pelo menos 45 anos vive no Brasil. O sotaque é forte, o sermão é didático. Só observador mais atento percebe que o sacerdote o trouxe escrito.
A capela pede madeiras e outros elementos que ajudariam na propagação da boa acústica. Mas acústica não é prioridade diante daquele espaço de refrigério monástico.

O cenário litúrgico é único, cativante: as vozes, os gestos de louvor das monjas, a comunhão entregue em vinho e pão com a compunção de quem mostra intimidades com o Sagrado, tudo ali dá espaço a conexões com o celestial.
O coreografar momentos de mistérios transcendentais é mesmo uma especialidade das beneditinas. De alguma forma, penso, elas estão repetindo bem mais do que determinações da Regra de São Bento.

Por certos momentos, chego a compará-las aos primeiros monges do deserto, século primeiro de nossa era, pela simplicidade e vigor de suas presenças compenetradas. Eles habitaram Síria, Palestina, Egito, Turquia. Eram cenobitas (de vida comunitária) ao lado dos eremitas, como o grande Antão. Foram chamados “terapeutas do deserto”.

PADRES OPERÁRIOS
A fila da comunhão daquele domingo do Advento praticamente envolve todos os presentes, muitos dos quais são atendidos pastoralmente pelo padre Jomar, o francês que divide sua semana entre Curitiba e o Mosteiro do Encontro.
No mosteiro, o padre vive num eremitério, absolutamente isolado, espaço mínimo em que cabem cama, mesa de leitura, cadeira e banheiro.

Jomar, acredito, deve ter sido um dos tantos frutos europeus que chegaram ao Brasil logo depois do Concílio Vaticano II, atendendo ao apelo de João XXIII para que viessem ser missionários nas Américas. Eram os chamados “missionários de João XXIII”.

Partilha do pão e vinho

Partilha do pão e vinho


A incumbência de Jomar foi mais ampla: deveria também garantir a expansão da sua família religiosa, a Congregação de São Pedro e São Paulo, a dos chamados padres operários. Hoje há no Brasil apenas um candidato solidamente encaminhado para atuar como padre no meio operário. É preparado por Jomar em Curitiba.

Ninguém arrisca palpite sobre o futuro dos padres operários.

Padres em fábricas me lembram o antológico livro “Les Saints vont à l’Enfern”, de Gilbert Cesbron, que li em 1955, testemunho da odisseia desses apóstolos em meio ao justificado materialismo do operariado francês daqueles dias. E que só se acentuou nos últimos tempos.

Pela congregação de Jomar passou em Santo André (SP) um nome que depois seria paradigmático da vida contemplativa no Brasil no século XX: irmão Manú.

Tendo chegado já padre à trapa, ele fez nos anos 1980 seus votos monásticos no Mosteiro Trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente. Acabou vivendo seus últimos 20 anos numa abadia trapista na França, onde, sei, era muito solicitado para aconselhamento e testemunhos. Teve uma rica vida cultural e espiritual, como poucos, além de ter sido privilegiada testemunha dos difíceis anos 1960.

Quando encontrava frei Betto em Curitiba, ele sempre me pedia notícias de Manú, o nordestino, seu amigo e sua grande admiração. “Uma preciosidade”, sentenciou, certa vez frei Betto sobre o monge morto três anos antes na França, sem nunca ter voltado ao Brasil.

Irmãs Elizabeth, hospedeira, com Chantal, a fundadora, e a prioresa Ana Maria

Irmãs Elizabeth, hospedeira, com Chantal, a fundadora, e a prioresa Ana Maria


CHANTAL É UM ÍMÃ
Ana Maria (brasileira) foi escolhida prioresa quando a suíça madre Chantal, depois de 2008, já em Mandirituba, deixou o comando da casa que ela fundou e da qual foi mola mestra. E grande ímã – ao lado de Irmã Ana (belga), a intelectual –, na atração de uma elite de profissionais liberais e políticos que recorriam ao Mosteiro do Encontro, no Pinheirinho.

Os frequentadores do Encontro eram muitos. Nomes com o Euclides Scalco, depois um sólido constituinte de 1988, professor Newton Freire-Maia e professora Eleidi Freire-Maia, Leonor Demeterco de Oliveira, Regines Prochmann, José Lamartine Correa de Oliveira, Tiana e Perci Guimarães – uma lista ampla, em que se incluíam sacerdotes de todo o Brasil, bispos, teólogos.

Alma fundadora do Mosteiro do Encontro, madre Chantal está bem presente ali, a despeito dos seus 96 anos. Alquebrada fisicamente, dependendo de atendimento 24 horas dado por enfermeira e pelas suas irmãs, Chantal é a melhor prova de um DNA privilegiado. O olhar vivo, a fisionomia linda, conversa sobre tudo e quer saber dos amigos, interessa-se pelo país e seu futuro. É dona de uma memória presente impressionante. E a passada, então, preciosa.
Mas pouco, muito pouco, mesmo quando ela era jovem consegui que falasse de sua odisseia de missionária na África. Soube, por terceiros, fragmentos de sua vida de jovem bem-nascida e bem-educada, de família “distinta” na vida da Suíça, e de seus dias na África.

O que se sabe certo é que Chantal viu barbaridades e teve a sua vida e a de suas irmãs de claustro em risco naquelas terras, numa das muitas lutas intestinas tribais que viu de perto. Congo Brazzaville? É possível. Congo (ex-belga), também possível. Em vão procurei documentos sobre o grupo de beneditinas e Chantal em terras africanas.

DOAÇÃO DE MADAME SKODA
Em 2008, quando as monjas inauguraram oficialmente o novo e amplo Mosteiro do Encontro, em Mandirituba (mas monjas estavam lá desde 1999, à espera da conclusão da capela), me lembro de uma grande presença de europeus. Vi suíços, belgas, franceses na celebração religiosa. Formavam democrática parceria com a população local e com os convidados de outras cidades. Para mim, foi notável a confirmação que lá tive: a obra, erguida sobre 25 hectares em Areia Branca do Assis, foi possível porque o ponto de partida de tudo esteve num cheque de US$ 100 mil dólares deixado nas mãos de Chantal por uma personagem até então desconhecida: a tcheca Madame Skoda.

A doação foi inesperada retribuição que a milionária, uma das descendentes dos Skoda fundadores da indústria de automóveis (hoje do grupo Volkswagen), deixara pela breve acolhida que tivera das monjas, na antiga casa.

A benfeitora esteve presente, na inauguração, por meio de dois executivos europeus que a representaram.

Na festa conheci familiares de Chantal, uma linhagem de tradicionais da política e finanças da Confederação Helvética. Um cunhado dela foi ministro da Fazenda da Suíça.

Para mim, a Chantal de 50 anos passados permanece a mesma, embora as limitações físicas explicáveis. Quando ela me diz “Senhor Aroldo, que prazer em reencontrá-lo”, revivo flashes de momentos passados no convívio fraterno.

Hoje, em meio às assustadoras mudanças no mundo ocidental, começadas – por coincidência – naquele 1968, ano do início do mosteiro, continuo com a mesma percepção dessa mulher que nasceu e continua líder. Hoje, limitada em seus passos. Mas ainda fértil modelo de ser humano que já vive, de alguma forma, “na casa do Pai”.

Madre Chantal, amparada por irmã Elizabeth, e Padre Jomar

Madre Chantal, amparada por irmã Elizabeth, e Padre Jomar


NA DESPEDIDA
No entanto, ao nos despedirmos, Chantal mostra-se mais preocupada com o dia a dia, com o hoje imediato; com a qualidade de vida, por exemplo, do entorno do mosteiro, a população para a qual as monjas têm de ser (por primeiro) sal da terra. E luz do mundo. E o são.

Nisso, ser sal da terra, elas são exemplares seguidoras de São Bento, tirando o seu sustento do trabalho de um ateliê de artes plásticas, produção de compotas e as eventuais vendas da lojinha monástica, onde também há precioso artesanato produzido no claustro.

Misto de livraria, a lojinha tem livros de qualidade, como alguns do irmão da Ordem de São Bento, padre Anselm Grumm, beneditino alemão, best seller mundo afora, autor de obras de formação espiritual e de lições de liderança.

Essa diversidade toda explica por que o Mosteiro do Encontro é único. Conhecê-lo vale um passeio, que pode ser também uma terapia. Mas não esqueça o leitor de pedir um contato com Chantal, Ana Maria, Teresa Paula e Elizabeth.

Vitral de Claudio Tozzi, o mais expressivo artista plástico brasileiro de temas sacros

Vitral de Claudio Tozzi, o mais expressivo artista plástico brasileiro de temas sacros

OFÍCIO DAS HORAS
A oração é o alimento essencial da vida monástica:
Vigílias – 4h30
Oração pessoal – até 6h30
Laudes – 6h30 (ao romper da aurora a Ressurreição do Cristo)
HORA TERÇA – 9 horas (lembra a descida do Espírito Santo)
HORA SEXTA – 11 horas (na cruz, Jesus exclamou: “Tenho sede.”)
HORA NONA – 14h15 (sua morte)
VÉSPERAS – 17 horas (celebradas ao cair da tarde, louvam o Senhor pelo dia que finda)
COMPLETAS – 20 horas (última oração coral do dia, é encerrada com um canto a Maria Santíssima, o Salve Regina)

OS SALMOS
“Nestas horas cantamos os salmos, que são para nós o pão no deserto. Eles vão penetrando pouco a pouco em nós e nos alimentam na caminhada. Todo ambiente do Mosteiro nos leva à oração; guardamos o silêncio, em geral, para estarmos atentas ao Espírito que fala em nós. Temos a “lectio divina” (leitura orante da Palavra de Deus). A oração silenciosa ocorre já na “lectio divina” e depois é o diálogo constante com Deus.”
“Sempre é útil e necessário que haja pessoas pobres e fortes – com grande capacidade de pressentir na noite a proximidade da aurora, porque vivem abertos à comunicação da Luz – que transmitam aos seus irmãos a certeza da presença do Senhor e da Sua vinda.”
“É muito viva no Mosteiro a oração de intercessão.”
(Depoimentos das monjas)

HISTÓRIA DA CASA
Congregação das Monjas Beneditinas da Rainha dos Apóstolos afiliada à Congregação da Anunciação (Bélgica).
1961 – O Mosteiro Nossa Senhora de Bêtania (Loppem – Bélgica) decide fazer uma fundação no Brasil, em resposta ao apelo do Papa João XXlll para que se fizessem mosteiros contemplativos na América Latina.
1963 – O capítulo geral votou a fundação em Curitiba, Brasil. No dia 19 de dezembro desse ano, chegam das fundadoras e tem início o Louvor Divino.
1964 – Colocação da primeira pedra.
1965 – Fundação canônica do Mosteiro.
1989 – Fundação na Amazônia, na Prelazia de Itacoatiara
1999 – Transladação do Mosteiro do Encontro para Areia Branca dos Assis (Mandirituba-PR).
2008 – Inauguração oficial do novo mosteiro (no qual as monjas já habitavam desde 1999), em Mandirituba (PR).

*No abre da matéria visão aérea desse endereço de oração e trabalho

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