Os melhores do ano

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Aramis Millarch, curitibano nascido em 1943, foi um reconhecido jornalista especializado em música e cinema, além de outras ramificações artísticas. Atuou no jornal O Estado do Paraná e, em seus 32 anos de profissão, escreveu cerca de 50 mil artigos para mais de 20 periódicos. Produzia críticas orientativas, enaltecendo os bons filmes e esculhambando os apelativos. Lamentava quando um bom filme saía de cartaz por falta de público e alfinetava os curitibanos, na época tidos como muito exigentes. Curitiba era então chamada “cidade laboratório”, para testes de produtos, peças teatrais, entre outros. Nem a Fucucu, como ele chamava, escapava, quando não concordava com algum item da programação dos cinemas da Fundação Cultural. Hoje ele nem teria o que criticar, já que não se tem uma programação regular, boa ou ruim, com o agravante que os cidadãos curitibanos sustentam uma estrutura que custa aproximadamente 54 milhões de reais ao ano entre ativos, inativos e custeio, com quase nenhum retorno.

Em sua casa, na enorme discoteca e biblioteca, nas poucas vezes em que fui, sempre havia música tocando, o barulho da máquina de escrever e uma ótima conversa. Aos primeiros dias do ano, publicava a lista dos 10 melhores filmes exibidos nas telas curitibanas no ano anterior. Para isso, convidava os poucos críticos atuantes na cidade: Francisco Alves dos Santos, Carlos Eduardo Loureiro, Estevão Rainer Harbach, por exemplo. Para completar o referendum anual, convidava pessoas que dedicavam ao cinema grande atenção cultural, frequentavam as salas com regularidade, compravam livros sobre o assunto ou discutiam os filmes em seus círculos.

Essas listas individuais com dez filmes eram de aproximadamente 15 pessoas a fim de cobrir um amplo espectro de preferências. Algumas vezes fui convidado a apresentar a minha lista. O cômputo era realizado pela ordem decrescente das listas e atribuídos pesos de 10 a 1. Ao final, o resultado indicava os 10 melhores filmes do ano.
As listas individuais eram publicadas com a relação dos 10 melhores mais os comentários do Aramis. Quando possível, divulgava também, para comparação, as 10 maiores bilheterias da cidade de Curitiba. Aí vinha o melhor: o “Festival dos 10 melhores filmes do ano” que ele promovia muitas vezes no cine Ópera e mais tarde no Excelsior, em concorridíssimas sessões. Eram ótimas oportunidades de rever ou ver alguns daqueles filmes, nos tempos anteriores ao videocassete. Aramis manteve essas listagens de 1966 até a sua morte em 1992, mas já sem o festival. Zito Alves Cavalcanti divulgou por mais alguns poucos anos, no mesmo Estado do Paraná, a lista dos melhores.

Se ainda fossem publicadas listas com os melhores filmes, esta seria a minha para 2017, ressaltando que me ative aos que foram exibidos nas salas cinematográficas curitibanas, em horários diários semanais. Deixei de lado, por exemplo, dois filmes exibidos no Festival de Cinema da Nova Zelândia, muito bons: “A encantadora de baleias” e “Mentiras brancas”, entre outras mostras.

1. “Com amor, Van Gogh” (Loving Vincent – Reino Unido/Polônia), direção de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, com Douglas Booth e Chris O’Dowd.
2. “O cidadão ilustre” (El ciudadano ilustre – Argentina), direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, com Oscar Martínez e Dady Brieva.
3. “La La Land, cantando estações” (La La Land – EUA), direção de Damien Chazelle, com Ryan Gosling e Emma Stone.
4. “Paraíso” (Ray – Rússia/Alemanha), direção de Andrei Konchalovsky, com Julia Vysotskay e Cristian Clauss.
5. “Moonlight, sob a luz do luar” (Moonlight – EUA), direção de Barry Jenkins, com Alex R. Hibbert e Ashton Sanders.
6. “Uma mulher fantástica” (Una mujer fantástica – Chile/Alemanha/Espanha/EUA), direção Sebastián Lelio, com Daniela Vega e Francisco Reyes.
7. “Eu Daniel Blake” (I Daniel Blake – Reino Unido), direção de Ken Loach, com Dave Johns e Hayley Squires.
8. “A qualquer custo” (Hell or high water – EUA), direção de David Mackenzie, com Chris Pine e Jeff Bridges.
9. “O formidável” (Le redoutable – França), direção Michel Hazanavicius, com Louis Garrel e Stacy Martin.
10. “A vigilante do amanhã” (Ghost in the shell – EUA), direção de Rupert Sanders, com Scarlett Johansson e Takeshi Kitano.

Infelizmente, como me ative a uma lista de 10 filmes, com dificuldades para classificá-los de 1 a 10, já que gostei de todos, alguns ficaram de fora, inclusive uns poucos filmes brasileiros assistíveis, já que na sua maioria são chanchadas de humor grosseiro e apelativo, que não merecem nem críticas. É de se notar também a ausência de bons filmes que passaram em outras cidades, mas não em Curitiba.

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