Procissão de Eus

cronica

O escritor Milton Ericksen Carneiro nasceu no dia 16 de outubro de 1902, e viveu rodeado por uma geração de intelectuais que se destacou no cenário curitibano.
Companheiro de Léo Cobbe, Bento Munhoz da Rocha Neto, Homero Braga e outros, o médico, professor e escritor era uma boa mistura de poeta e boêmio. Além da docência na área de Biologia Geral, seus momentos eram dedicados aos livros e às discussões.
Aqui o leitor terá acesso a fragmentos do seu célebre Procissões de Eus, onde ele demonstrou a sua capacidade modernista de produção poética. Milton faleceu no dia 22 de janeiro de 1975.

“Na estrada de Tebas, Edipo encontrou a esfinge, que lhe propôs um enígma terrível.
Se o não decifrasse, fôra devorado como os outros.
Decifrou-o e foi o mais infeliz dos homens.”

Afrânio Peixoto

O que eu sou, o que eu penso que sou,
e o que os outros pensam que eu sou. Eu externo, eu interno, eu superficial, eu profundo.
Eu mesmo, eu mesmo, eu mesmo.
Eu nos outros, eu nos outros, eu nos outros.
Os outros em mim, os outros em mim, os outros em mim.
Eu místico, eu afetivo, eu racional.
Eu creio, eu amo, eu penso.
Eu hoje, eu amanhã, eu depois de amanhã.
Eu sub-eu. Eu eu. Eu super-eu.
Eu inconsciente, eu consciente, eu superconsciente.
Eu instintivo, eu humano, eu social.
O eu e o não – eu.
Eu em mim, eu fora de mim, eu de volta a mim.
Eu lógico, eu essencial, eu conceitual.
Eu introvertido, eu extrovertido, eu intro-ex-trovertido.
Eu esquizotímico, eu ciclotímico, eu esquiso-ciclotímico.
Eu presente, eu passado, eu futuro, eu eterno.
Eu estético, eu ético, eu religioso.
Eu burro, eu inteligente.
Eu culto, eu inculto.
Eu com caráter, eu sem caráter.
Eu sem vergonha, eu com vergonha.
Eu cético, eu dogmático, eu indeciso.
Eu diurno, eu noturno, eu madrugador.
Eu psicológico, eu moral, eu metafísico.
Eu Erichsen, eu Carneiro, eu Guimarães.
Eu sádico, eu masoquista.
Eu sexo, eu sexo.
Eu egoísta, eu altruísta, eu indiferente.
Eu caixa de pecados, eu penca de virtudes.
Eu platônico, eu aristotélico, eu tomista.
Eu pai, eu filho, eu irmão, eu esposo.
Eu e os meus quatro filhos.
Eu que herdei, eu que transmiti herança.
Eu amigo, eu colega, eu companheiro.
Eu paranaense, eu carioca, eu mineiro, eu brasileiro, eu cidadão do universo.
Eu ocupado, eu desocupado, eu preocupado.
Eu trabalhador, eu preguiçoso.
Eu no negócio, eu no ócio.
Eu no Grupo Escolar, eu no Ginásio, eu na Universidade.
Eu estudioso, eu vadio.
Eu altivo, eu humilde.
Eu bom, eu mau.
Eu no sono, eu no sonho, eu na vigília.
Eu boiando, eu furando onda, eu fazendo jacaré.
Eu ativo, eu contemplativo.
Eu volitivo, eu sensitivo, eu imaginativo, eu desejoso.
Eu ambicioso, eu desinteressado.
Eu mais ou menos protestante, católico, muçulmano.
Eu no cemitério, eu na Igreja, eu na boate.
Eu infante, eu adolescente, eu moço, eu maduro, eu quase velho.
Eu corpo, eu alma, eu espírito.
Eu com pose, eu sem pose.
Eu no trole, eu a cavalo num burro, eu no trem, eu no avião.
Eu aluno de medicina, eu médico, eu clínico, eu pediatra.
Eu defendendo duas teses.
Eu arguindo sete teses em seis concursos para catedráticos.
Eu fazendo 36 exames.
Eu ofertando. Eu procurando.
Eu paraninfo uma vez.
Eu homenageado especial duas vezes.
Eu dando. Eu recebendo.
Eu homenageado 15 vezes.
Eu e minha Geologia mental.
Eu e a camada da infância. Eu e a camada adolescência. Eu e a camada adulta. Eu e minha psicologia patológica. Eu e minha patologia psicológica.
Eu incendiário. Eu bombeiro. Eu simulador. Eu dissimulador. Eu mistificador.
Eu entreguista. Eu antinacionalista. Eu patriota.
Eu noivo. Eu apresentando a noiva à família. Eu me despedindo da vida de solteiro. Eu me despedindo saudoso. Eu despedindo sem saudade.
Eu procurando a estrada de Damasco. Eu subindo a escada de Jacó.
Eu Abel. Eu Caim. Eu Marta. Eu Maria. Eu doente da memória. Eu doente da inteligência. Eu doente da vontade. Eu doente do sentimento.
Eu Bicudo. Eu procurando e não achando. Eu pedindo a palavra e ninguém me dando.
Eu vendo o nascimento do 1° filho. Eu vendo o nascimento do 2° filho. Eu vendo o nascimento do 3° filho.
Eu vendo a morte de meu pai. Eu vendo a morte de minha mãe. Eu vendo a morte de minha irmã. Eu vendo a morte do meu melhor amigo.
Eu mão. Eu cérebro. Eu corpo. Eu lanterna mágica. Eu caleidoscópio.
Eu joio. Eu trigo. Eu todo. Eu parte. Eu e os meus tabus. Eu história. Eu historicidade.
Eu ateu. Eu deísta. Eu panteísta. Eu mecânico. Eu teleológico. Eu causalista. Eu finalista. Eu ocasionalista. Eu encarnado. Eu desencarnado. Eu aprendendo a viver. Eu aprendendo a morrer.
Eu educado. Eu instruído. Eu toda gente. Eu professor sem diploma de médico. Eu espírito. Eu letra. Eu diplomado seis anos depois da formatura. Eu visível. Eu invisível. Eu transparente. Eu opaco. Eu visto pelo Cobbe. Eu visto pela cozinheira. Eu filtro. Eu filtrado. Eu e tudo que li. Eu e tudo que assimilei. Eu didata. Eu autodidata.
Eu ensinando a ensinar. Eu ensinando a aprender.
Eu animista. Eu vitalista físico-químico. Eu só. Eu bem acompanhado. Eu mal acompanhado. Eu diferencista. Eu divididor. Eu semelhantista. Eu unidor.
Eu certo no que afirmo. Eu errado no que nego. Eu ouvindo “Fez Leitão, é formado pela Faculdade Nacional de Medicina”. Eu achando uma tolice e uma ofensa ao resto do corpo docente.
Eu afonsista. Eu alencarista. Eu prestista. Eu washingtonista. Eu brigadeirista. Eu juarezista. Eu antigetulista, até o dia da morte dele. Eu entusiasticamente janista.
Eu pica-pau. Eu maragato.
Eu nas filas de bondes. Eu nas filas do cinema. Eu, no Palácio, atendendo às audiências públicas. Eu atendendo, impotente, ao desfile da miséria humana.
Eu beijando vivos. Eu beijando mortos.
Eu abraçando sinceramente. Eu abraçando tamanduazícamente.
Eu vendo um delegado ser preso no dia da nomeação.
Eu ouvindo e não entendendo: éramos 80; 79 morreram de beribéri e não morri.
Eu me masturbando mentalmente. Eu me masturbando fisicamente. Eu e o meu primeiro sentimento humano. Eu e o meu primeiro pensamento eterno.
Eu arguindo três teses de doutoramento.
Eu enjoado, eu nauseado, eu angustiado.
Eu sujeito, eu objeto, eu predicado.
Eu campeão de corrida de saco, eu campeão de ping-pong.
Eu jogando futebol para Santos Dumont.
Eu bêbado, eu sóbrio.
Eu individual, eu social.
Eu cresço, eu me multiplico.
Eu como, eu descomo.
Eu brinco de peteca, eu brinco de pastelão.
Eu brinco de papagaio, eu brinco de amarelinha.
Eu jogo bilhar, eu jogo pôquer.
Eu jogo no bicho, eu jogo campista.
Eu jogo roleta, eu jogo no frontão.
Eu no Cine Mignon.
Eu no Cine Smart.
Eu no Restaurante Fontana
Eu no Restaurante Maruco.
Eu no Hotel Central.
Eu no Café Colares.
Eu nos 8 Bilhares.
Eu no Bilhar do Gravina.
Eu no Grande Café.
Eu no Palais Elégant.
Eu no Barranco.
Eu na Gota de Leite.
Eu na Iris Paranaense.

* * *

Eu na 25ª hora. Eu vis a tergo. Eu vis para frente. Eu libidinoso. Eu puro. Eu idólatra. Eu iconoclasta. Eu muito distante de mim. Eu muito perto de mim. Eu Erichsen, logo kierkegaardiano. Eu no labirinto. Eu perdendo o fio. Eu como se. Eu lugar comum. Eu lugar único. Eu pensamento puro. Eu pensamento de. Eu greve. Eu miserável. Eu escrevendo no quadro negro. Eu passando a esponja. Eu fazendo borrões. Eu espécie impressa. Eu espécie expressa. Eu linha-espaço. Eu espaço-linha. Eu nas linhas. Eu nas entrelinhas. Eu me olhando cada vez mais no espelho. Eu em maré de sorte. Eu em maré sem sorte. Eu finito. Eu com ideia de infinito. Eu com sede de água. Eu com sede de saber. Eu induzindo. Eu deduzindo. Eu análise ascendente. Eu espécie impressa. Eu espécie expressa. Eu penso, logo não existo. Eu Fernando Alencar. Eu Queiroz Rezende. Eu e uma Miltaria inumerável. Eu e o Miltinho. Eu e o Miltão, o John, o inglês. Eu o corpo no cemitério. Eu e a alma nos eus. Eu Milton. Eu Notlim. Eu incondecorável ordem de Malta: – avô Erichsen não aceitou condecoração motivo fútil. Eu incondecorável Spinoza: honras, glórias, riquezas, tiram-nos liberdade. Eu incondecorável Camões: honras é preferível merecê-las sem as ter, do que tê-las sem as merecer. Eu vendo o Cometa de Halley. Eu achando meus filhos uns portentos. Eu atirando a 1ª pedra. Eu com a espada de Dâmocles. Eu escondendo a cabeça como avestruz. Eu martelo. Eu bigorna. Eu e mais 12 milhões de penicilina. Eu parnanguára de nascimento. Eu ponta-grossense de coração: oh que saudade que tenho. Eu curitibano naturalizado. Eu curitibano de Vila Izabel e de quatro casas da Aquidaban. Eu curitibaníssimo da Brigadeiro Franco, 61. Eu curitibaníssimo da Água Verde. Eu no Internacional Infantil F. C. Eu no 3° time Acadêmico. Eu no time Pé no Crânio. Eu e uma russa “quando pela rua ando”. Eu e uma alagoana. Eu e uma argentina: se soy así, que voy hacer – Melodia de Arrabal. Eu e uma teuto-brasileira. Eu presidencialista. Eu materialista capitalista. Eu democrata cristão. Eu olhando pelo buraco da fechadura. Eu e um certain cynisme.

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