Shakespeare: The rest is silence

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É evidente que não existe metro capaz de medir e balança capaz de pesar o real valor, a exata dimensão, a verdadeira importância de um determinado artista. Significará isso, porventura, que se torna impossível a avaliação ou a valoração de uma obra de arte, em termos puramente axiológicos? De modo algum. Em que pese à existência de subjetivismos de várias espécies, e deixando de lado o relativismo que sempre condiciona a crítica ou análise estética, o certo é que é possível atingir porto seguro, se não no sentido de se estabelecer matematicamente o “peso” ou a “medida” de um artista, pelo menos para poder se afirmar, sem hesitação, que ele é superior a A ou inferior a B.

Desde a Antiguidade Clássica até hoje, a humanidade tem conhecido e tem se deslumbrado com um cortejo interminável de extraordinários escritores – Ésquilo, Sófocles, Virgílio, Homero, Dante, Cervantes, Camões, Shakespeare, Molière, Goethe, Ibsen, Tolstói, Balzac, Dostoievski, Kafka, Proust, Rilke, Joyce, Thomas Mann, Steinbeck, T. S. Eliot, Moravia, Malraux, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e tutti quanti. Uma cordilheira deslumbrante, com seus cumes altaneiros, com seus himalaias soberbos. Entretanto, de todos esses semideuses da criação literária, qual o maior de todos?

A resposta é fácil. Não existem dúvidas nem controvérsias a respeito. Numa enquête que eventualmente se fizesse, em todo o mundo, é quase certa que um nome reuniria, se não a totalidade, certamente a maioria absoluta dos votos: William Shakespeare (1565/1616).

Afirmar que o admirável bard de Stratford on Avon é um universo de sinfonias verbais inexcedíveis, é dizer pouco. Sozinho, com efeito, ele vale por literaturas inteiras. Uma, apenas uma de suas peças – a afirmação é de Álvaro Lins – seria suficiente para fazer a imortalidade de um dramaturgo. E Shakespeare produziu quase meia centena. Sem contar a sua torrencial produção poética, onde avultam os mais belos sonetos da língua inglesa – e da poesia universal.

Na realidade, no terreno vasto e acidentado da literatura, ninguém chegou mais longe, ninguém subiu mais alto, ninguém penetrou mais fundo nos estratos abissais, nas camadas subterrâneas da alma do homem. Ninguém foi capaz de dissecar mais minuciosamente as entranhas da consciência humana e de desvendar mais completamente os seus labirintos secretos, onde se escondem tarântulas e escorpiões. Ninguém, mais do que Shakespeare.

Tudo o que se escreveu nos últimos três séculos sobre ele, analisando a sua vida e sua obra, encheria uma biblioteca. Um crítico inglês chega a estimar em mais de vinte mil o número das obras consagradas, em todas as línguas cultas, ao genial dramaturgo e poeta. Sim, genial. Shakespeare é um dos raros homens a merecer, em toda a plenitude, esse adjetivo hoje desmoralizado pelo uso e abuso que se faz dele, a ponto de descaracterizá-lo no seu sentido semântico original. Para o arquiteto de Ricardo III, porém, o adjetivo genial não representa simples concessão do entusiasmo. É, sim, o rótulo mais perfeito e adequado para o Artista e para a Obra.

Para Shakespeare, só existem dois rivais, no terreno da Arte. Dois rivais situados, aliás, em outros planos estéticos – Leonardo da Vinci e Beethoven. Sem esses homens, aliás, a cultura construída, nos últimos séculos, por esse ser estranho que se chama homo sapiens, perderia muito da sua grandeza e do seu significado.

Shakespeare, contudo, não foi um produto de geração espontânea. Não surgiu de repente, por acaso, miraculosamente. Ele foi a resultante, o ponto de convergência de outros manejadores do verbo essencial, da argamassa luminosa com a qual se construíram belos edifícios. Apogeu, ápice de uma época, para que ele aparecesse, em toda a sua luminosidade de cometa gigante, foi necessário que existissem os Ben Johnson e os Marlowe, os Chapman e os Dekker, os Middleton e os Heywood, os Webster e os Beaumont, os Fletcher e os Massinger. Mas, ao seu lado, esses nomes parecem pigmeus.

Em muitos homens, de todos os tempos e de todas as condições sociais, pode florescer a desilusão trágica de Hamlet, o desespero de Macbeth, a loucura de Lear ou o ciúme mórbido de Otelo. Porém, Shakespeare, com palavras, apenas com palavras imateriais, emblemáticas, ergueu no espaço e no tempo esses personagens, insuflou-lhes vida, transformou-os em arquétipos. Eternizou-os.

A base das peças shakespearianas não foi uniforme. Velhas novelas italianas, vetustas crônicas anglo-saxônicas ou normandas, ou as Vidas, de Plutarco – essas as matrizes onde Shakespeare bebeu a inspiração, a fonte onde colheu os temas das tragédias e comédias magníficas.

No entanto, que maestria superior, que talento inigualável no manejo, na instrumentalização dinâmica do material colhido! E não era prosa, simples prosa, que brotava da pena do Bardo em torrentes, em caudais amazônicos – era poesia, alta, pura, transcendente poesia dramática, cuja construção é incomparavelmente mais difícil do que a prosa!

Creio que o ponto alto da obra shakespeariana se encontra nos seus dramas históricos como King John e The Life and Death of King Richard III; nas suas tragédias densas como Hamlet, Prince of Denmark, The Tragedy of Macbeth, The King Lear, Othello, The Moor of Venice e The Tragedy of Romeo and Juliet; nas suas superlativas reconstruções da Antiguidade, como Coriolanus, Julius Caeser e Anthony and Cleopatra; nas suas comédias fantásticas como As You Like It, A Midsummer Night’s Dream; nas comédias ácidas como The Merchant of Venice e Measure for Measure, Cymbeline e The Tempest.

Um universo feito de words, words, words, que iguala e supera e transcende o próprio universo real. Um universo fascinante onde há cantos e risos, choro e ranger de dentes, auroras e crepúsculos, gêneses e apocalipses.
Esse o universo construído por William Shakespeare. Não é justo, portanto, que o mundo veja nele o artista supremo da História da Literatura, o maior escritor de todos os tempos?

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