Um tempo aberto?

mazza

Pensadores tentam, volta e meia, um esforço de redução para definir o seu tempo, a sua era, um ciclo. Exemplos de obras como a série de conferências de John K. Galbraith denominada “A era da incerteza” ou a de ensaios do marxista Eric Hobsbawm denominada “Era dos extremos”, numa abordagem que envolvia todos os campos de manifestação da política, da ciência e das artes.

Com a rapidez das comunicações vivemos uma época que se poderia considerar de aberta tal a resposta que é dada nos movimentos contestatórios. E isso se obsevou agora, logo depois da pregação feminista contra o assédio sexual no Globo de Ouro, com o manifesto em linha contrária de centenas de mulheres da França – atrizes, filósofas, psicanalistas, críticas de arte – divulgado no Le Monde pregando a liberdade sexual e o combate ao que chamam de puritanismo.

A forma radical com que tais pontos de vista são expostos – inclusive com o empenho dos dois lados em caricaturar duramente as posturas em conflito – leva ao maniqueísmo como se vê nos debates internos do país sobre política e alternativas disponíveis de exercício do poder, a carga do “nós contra eles”. Não há espaço para aproximações porque o direito de paquera dos homens é confundido com um ato prévio de violência e de possível estupro, e de outro lado se coloca a questão da sedução centrada sempre num relação de respeito e prazer, com o que se pasteuriza o ponto central do lado mais contundente da pregação feminista, cuja força está no sentido libertador e presente nas denúncias de sofrimento pessoal por causa do machismo, nas quais vão além de atacar o produtor Haervey Weinstein e também políticos, aí incluído o presidente Donald Trump.

Um clima de pensamento único, posto que tanta diversidade colocada permeia o debate, tanto esse quanto o nosso da política, percebendo-se a dificuldade de aproximar matizes num espectro que tende postar-se no infravermelho e no ultravioleta e sem qualquer perspectiva de aproximação para chegar à recomendação de Horácio, o clássico, em torno do “modus in rebus”, isso é “moderação nas coisas”, tantas vezes recomendado pelos juristas justamente nos momentos de extrema exasperação.

Soa irônico enxergar um tempo aberto no qual a aproximação e o diálogo são inviáveis.

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