A cabeça do eleitor

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Que Brasil teremos depois das eleições deste ano? É o que todos se perguntam e correm a consultar as pesquisas de opinião para saber quem está na frente: o emporcalhado Lula que chafurdou na Lava Jato ou o êmulo da direita, Jair Bolsonaro, oficial do Exército que virou político e promete o retorno aos princípios do regime fardado que nos relegou à situação que vivemos.

Tudo será decidido pelo voto e talvez seja mais aconselhável observar as pesquisas sobre o que pensam os brasileiros. Também é preciso levar em conta as trapaças permitidas pela Lei Eleitoral para pensar no futuro. Sabemos, desde já, que a maioria absoluta está enojada com a política, os políticos, as instituições republicanas.

Uma pesquisa inédita feita pela Ideia Big Data para o Brazil Institute do Wilson Center evidencia um descrédito da população brasileira no Congresso, a falta de interesse no Legislativo e expectativas de poucas mudanças nas eleições de novembro. O levantamento aponta que 72% dos eleitores escolheram temas relacionados à honestidade como prioridade na hora de votar em seus deputados e senadores.

Em uma pergunta aberta (sem sugestões de respostas), 38% dos eleitores indicaram que o mais importante para seu voto é a honestidade do candidato ou o fato de ele não ser corrupto. A pesquisa mostra ainda que 13% dos entrevistados apontaram a transparência; 11% optaram por “estar fora das acusações da Operação Lava-Jato”; e 10% disseram que o seu candidato tem de ser novo ou de fora da política.

Na sequência das respostas, aparecem como prioridade experiência e grandes propostas (cada tema teve 5% das citações); ser da localidade do entrevistado (4%); entender os problemas do eleitor e representar os pobres (3% das citações cada um dos temas); e trabalhar duro e ser inteligente (2% para cada um). Outras respostas somam 4% do total.
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A IMAGEM DO CONGRESSO
Uma série de perguntas confirma o desencanto dos brasileiros com o Congresso. Quase um em cada três entrevistados – 73% – disseram não concordar com a expressão “O Congresso Nacional está trabalhando pelos brasileiros acima de outros interesses”, contra 22% que disseram não saber, e apenas 5% que concordaram com a afirmação.

Em outro item da pesquisa, 84% não concordaram com a frase “o Congresso representa o povo brasileiro”. Por outro lado, 79% dos entrevistados disseram não se lembrar em quem votou em 2014. Dos 21% que lembram, 85% admitiram que não acompanham seu trabalho, contra apenas 15% que seguem seus legisladores. O levantamento ainda aponta que 39% dos entrevistados acreditam que a futura formação do Congresso, após a eleição em outubro, será igual à atual, sendo 35% melhor e 26% pior.

A princípio, essa resposta pode indicar um otimismo, mas não: como a imensa maioria da população não se sente representada pelos congressistas, temos que somar as respostas dos que esperam que (a representatividade) vai piorar com os que acham que continuará na mesma, o que indica que 65% dos eleitores estão pessimistas.

A pesquisa aponta que a população também está cética sobre a aprovação da Reforma da Previdência: somente 26% acreditam que ela será aprovada como está. Outros 22% colocam a mudança no sistema de aposentadoria e pensões como prioritária, abaixo da reforma política (59%), mas acima da reforma tributária (13%).

A VELHA POLÍTICA PROSPERA
Podemos esperar grandes mudanças depois das entranhas abertas pela Lava Jato e a deposição de Lula e do PT? Qual o que? Sem a reforma política e com o financiamento público das eleições, o jogo degenerou e não há mais regra ou princípio vigente. Tanto faz se o coligado é de esquerda, direita, liberal ou estatizante. Nesta fase, a pouco mais de sete meses da disputa eleitoral, vence quem captar aliados de grande porte e agregar o maior número de nanicos. A ordem é ampliar a base política e somar mais segundos na propaganda de rádio e TV dita gratuita, mas paga por todos os brasileiros.

Pois, pois, esse é o grande trunfo do MDB do impopular Michel Temer, que o torna desejável até por seus críticos – PSDB à frente. Ou pelo PT, que renega o ex-parceiro da presidente cassada Dilma Rousseff, mas quer o partido de Temer como aliado para, por exemplo, apoiar a recandidatura de Fernando Pimentel, em Minas Gerais.

O CACIFE DE LULA
Por ter a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, o MDB do presidente tem quase três minutos para negociar. E mais de mil prefeitos espalhados por todo o país, essenciais para qualquer campanha. Diga-se que desde a redemocratização só Fernando Collor de Mello, do então PRN, chegou ao Planalto sem minutos a rodo no horário eleitoral e sem a força de um partido com capilaridade nacional. Mas isso ocorreu em uma eleição diferente de qualquer outra, exclusiva para presidente, cuja propaganda não precisava ser dividida com candidatos a governador, deputados federais e estaduais. A fragilidade da equação tempo de rádio e TV e base municipal, onde se dá a política cotidiana, pode atazanar o PT.

Embora detenha sozinho o maior tempo no horário eleitoral (1min35s por bloco de propaganda e 3,5 inserções de 30s ao dia), o partido de Luiz Inácio Lula da Silva amargou derrotas que reduziram em 60% sua força regional. Em 2016 elegeu apenas 256 prefeitos contra 630 na disputa anterior. Perdeu a cidade de São Paulo e só emplacou uma capital: Rio Branco, no Acre. Depende, portanto, de alianças regionais.

Os partidos sem candidato próprio à Presidência da República somam 6min6s em cada um dos dois blocos de 12min30s que serão veiculados entre 31 de agosto e 04 de outubro na mídia eletrônica. E por 13 inserções diárias de 30s, tidas como o filé do horário político por estarem diluídas na programação das emissoras.
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AS FORÇAS CONTRÁRIAS À LULA
O PSDB de Geraldo Alckmin tem 1min18s em cada bloco e confortáveis 793 prefeitos empossados no ano passado, incluindo o pupilo João Doria, na capital paulista, cuja popularidade relâmpago, rapidamente abalada, chegou a ameaçar o criador. Uma base e tanto que os tucanos insistem em usar contra eles próprios em digladio interminável.
Segundo colocado nas pesquisas eleitorais, Jair Bolsonaro terá algo em torno de 10s de tempo na TV e no rádio caso se filie ao PSL. Dois a menos do que a Rede de Marina Silva e do Podemos de Álvaro Dias. O PDT de Ciro Gomes, 33s, e o PSD, do ministro Henrique Meirelles, 54s. Até agora, já são 12 postulantes, com segundos pingados.

Bolsonaro aposta todas suas fichas no meio digital. No Facebook reúne quase cinco milhões de fãs. Sua tropa de choque, afinada e treinadíssima, joga no ataque, incentivando o ódio, que tanto sucesso faz nas redes. Imagina-se um Donald Trump que, por sua vez, crê que venceu a batalha pelo Twitter. Só que a versão trumpista tropical não tem por detrás a força do Partido Republicano que venceu as eleições e levou o magnata, derrotado no voto popular, até a Casa Branca.

NOSSA GELEIA GERAL
No Brasil, com raras exceções, as eleições majoritárias têm premiado candidatos que delegam parcial ou integralmente conteúdos não só das campanhas, mas do governo, a marqueteiros. Não raro com promessas sem lastro, generalidades e mentiras deslavadas. A essencialidade do rádio, da TV, da internet, de outras mídias e formas de divulgar uma candidatura é indiscutível. Mas são apenas meios.

Nem a propaganda nem as alianças de ocasião, muitas delas esquizofrênicas, deveriam definir a conduta dos candidatos. Muito menos impor a perversa ordem que relega ao segundo ou terceiro planos o ideário e as propostas do pretendente para minimizar as aflições do cidadão e os problemas do país.

QUEM PRECISA DE LULA?
A esquerda brasileira não encontra outro mote que não seja o de que o povo brasileiro precisa de Lula. Mas quem tem neurônios ativos e mínima capacidade de análise sabe que isso não é verdadeiro. Quem precisa de Lula não é o homem que estará às 04 da manhã na fila do ônibus para ir ao trabalho. Não é a lisura das eleições, nem o povo brasileiro.

Quem precisa de Lula são as empreiteiras de obras públicas. São os que esperam por novas refinarias Abreu e Lima. São os vendedores de sondas ou plataformas para a Petrobras. São os operadores de fundos de pensão das estatais. São os marqueteiros milionários. São os Renans Calheiros, os Jarbas Barbalhos, e os Sarneys. É a diretoria velha da Petrobras – gente que não vacilou em meter a mão no bolso e devolver 80 milhões de dólares em dinheiro roubado da empresa. São os Odebrechts, os Joesleys, os Eikes.

A esquerda perde credibilidade porque nada do que existe em relação a Lula é genuíno, verdadeiro ou sincero. Lula se apresenta como um operário, mas já passou dos 70 anos de idade e não trabalha desde os 29. Representa o papel de maior líder de massas da história do Brasil, mas não pode sair à rua há anos, com medo de ser escorraçado a vaias, ou coisa pior. O “irmão” do brasileiro pobre é um milionário e ninguém pode ser metalúrgico e milionário ao mesmo tempo. PT e assemelhados vivem denunciando as diferenças entre ricos e pobres, mas nenhum presidente brasileiro enriqueceu tanto os ricos quanto Lula – e justo aqueles que tiram suas fortunas diretamente do Tesouro Nacional. Os pobres ficaram com o Bolsa Família. A Odebrecht ficou com as refinarias, os “complexos” petroquímicos, os estádios da Copa do Mundo, os portos em Cuba.
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O CÚMULO DA DESFAÇATEZ
Petistas adoecidos pelo fanatismo chegaram a chamar Lula de “Nelson Mandela”. É demais. Nelson Mandela, que ficou 27 anos preso por ser negro e pedir a igualdade racial em seu país, e não por ter sido condenado como ladrão num processo absolutamente legal. Mandela não teve advogados milionários, nem recursos no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), nem a paciência do juiz Sergio Moro, nem liberdade para ameaçar, pressionar e insultar a Justiça. Não teve acenos de prisão domiciliar e “regime semiaberto”. Pela porção majoritária do petismo, Lula foi santificado como o homem mais importante do Brasil nos últimos 500 anos. Criou-se a fábula de que tudo depende dele, a começar pelo futuro de cada brasileiro. Nada se pode fazer sem Lula. Lula vale mais que todos e que tudo. O Brasil não pode existir sem Lula.

Tudo isso é uma completa falsificação – e é por isso, justamente, que as atuais desgraças de Lula na Justiça não estão provocando nenhum terremoto na vida nacional, e sim um final de história barateado pela decadência, rancor e mesquinharia. A verdade, em português claro, é que o Brasil não precisa de Lula. Se cair fora da vida política mais próxima, não fará falta nenhuma. Não há no Brasil de hoje um único problema concreto que Lula possa ajudar a resolver – você seria capaz de citar algum?

É verdade que “sábios” de primeiríssima linha da academia, cientistas políticos, “formadores de opinião” etc. têm se mostrado aflitos com a possível “ausência” de Lula da lista de candidatos. Nas suas angústias corporativistas, louquinhos para melhorar o salário e reduzir a carga de trabalho, dizem que seria desagradável para a imagem de pureza que caracteriza nossas eleições através do mundo.

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