Arigatô: Os japoneses no Paraná*

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Até 1909 a maioria dos paranaenses nunca tinha sequer visto um japonês. Os registros da presença nipônica pelo estado antes dessa data são raros e pontuais. Somente naquele ano é que três aventureiros chamaram a atenção dos curitibanos de outrora. Com seus traços orientais típicos, Eihati Sakamoto, Jintaro Matsuoka e Shinkichi Arikawa atraíram os olhares de praticamente toda a sociedade. Até então, pouco se conhecia sobre a etnia japonesa, seus costumes, seu idioma e seu alfabeto.

Eles, que vieram para Curitiba com a intenção de seguir viagem para a Argentina, se transformaram nos primeiros japoneses a instalar moradia no estado. Os três atuavam em construções de linhas férreas e tinham migrado para o Brasil um ano antes, tendo desembarcado em Santos (SP). Segundo as pesquisas de Maria Helena Uyeda e Cláudio Seto, os três passaram a trabalhar na Colônia Argelina até meados de 1911 quando teriam rumado para a Argentina. Contudo, o que realmente aconteceu com eles é incerto. Parte da historiografia aponta que, durante a travessia ao país hermano, os japoneses foram surpreendidos pela Guerra do Contestado e não conseguiram seguir viagem e teriam, inclusive, lutado durante o conflito.

A vinda desses três desbravadores abriu uma porta para a entrada de japoneses no estado. No ano seguinte à saída “misteriosa” de Eihati, Jintaro e Shinkichi, chegou até Curitiba Shiguetero Suguihara, que era natural da província de Hyogo. Ele montou um estabelecimento comercial chamado “Casa Japoneza”, situada na Rua XV de Novembro. No mesmo ano de 1912, o primeiro imigrante japonês pisou nas terras vermelhas do norte paranaense. Kinsue Kato tornou-se o pioneiro oriental a instalar moradia naquela região do estado, mais precisamente na comarca de Ribeirão Claro.

“A partir dessa data e intensificando-se em 1915, os imigrantes japoneses começam a chegar em um volume maior ao Paraná, sobretudo Curitiba e nas cidades da região Norte”, explica a pesquisadora Maria Helena Uyeda.

Imigrantes japoneses em navio que os trouxe para o Brasil. Crédito: REPRODUÇÃO/Os Japoneses no Paraná

Imigrantes japoneses em navio que os trouxe para o Brasil. Crédito: REPRODUÇÃO/Os Japoneses no Paraná


MISÉRIA NO JAPÃO
A saga japonesa em terras brasileiras remete ao século 19, quando o Japão da Era Meiji (1868-1912), época em que o país foi governado pelo imperador Meiji, passava por um período de rápida industrialização, modernização da produção aliada a uma profunda crise econômica. “A revolução da Era Meiji desencadeou uma desestruturação socioeconômica, provocando situações de desemprego, baixos salários, êxodos rurais, rápido crescimento populacional, falências, desorganização da produção artesanal, aumento de impostos e uma situação de miséria”, explica a historiadora Tatiana Takatuzi.

A emigração japonesa em massa iniciou-se a partir de 1885 com o incentivo do governo japonês, que levou milhares de japoneses para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar no Havaí. “A fim de contornar o problema gerado pelo crescimento populacional, o governo japonês empreendeu uma política de emigração, incentivando os trabalhos temporários no exterior. O destino dos imigrantes foram países como Austrália, Canadá, Estados Unidos, México, Costa Rica, Guatemala, Peru e Brasil”, afirma Tatiana. Calcula-se que mais de 30 mil imigrantes tenham deixado sua terra natal em busca de melhores condições de trabalho e de vida.

Foi com esse objetivo que os primeiros 781 imigrantes japoneses passaram 52 dias percorrendo 12 mil milhas dentro do navio Kasato Maru até chegarem ao Porto de Santos no dia 18 de junho de 1908. Era a primeira leva de imigrantes japoneses que aportavam em solo brasileiro. “Aos poucos eles foram indo para outros estados, como o Paraná”, afirma a pesquisadora Maria Helena. Estima-se que de 1908 a 1913 tenham entrado no Brasil perto de 3,4 mil famílias japonesas.

AS DIFICULDADES
A necessidade de mão de obra remunerada nas plantações de café atraiu tanto imigrantes europeus quanto asiáticos para o Brasil. A propaganda era que quem chegasse teria terras férteis e imensas, lucro fácil e rápido e boas condições de vida. Os japoneses viram que poderia ser uma oportunidade para escaparem da crise que assolava a terra natal. No entanto, a realidade não era bem assim.

“Além do preconceito, por ser uma raça completamente diferente dos europeus, e de não compreender o idioma português, houve algumas dificuldades materiais. Em algumas fazendas em que iam trabalhar, alguns chegaram a dormir sobre capim seco misturado com fezes de animais. Ou então se acomodavam em casebres antigos e precisavam acordar de madrugada e trabalhar até o anoitecer. Além disso, o rendimento era muito mais baixo que o prometido”, relata Maria Helena.

A historiadora Tatiana Takatuzi, que atua no Museu Paranaense, ressalta que, com o intuito de atrair o maior número de pessoas, agências de migração privadas investiram em propagandas atraentes, porém muitas vezes enganosas. “Já na chegada ao Porto de Santos, os japoneses descobriam outra realidade: a remuneração era baixa; as condições de moradia e de higiene eram péssimas (sem água, luz, piso ou móveis, sendo algumas casas até antigas senzalas); as famílias eram obrigadas a fazer compras de comida e outros itens nos caros armazéns da fazenda e logo se viam endividadas com os fazendeiros, gastando todo seu salário para pagar por sua sobrevivência”, ressalta.

EM BUSCA DE UMA SAÍDA
As situações eram completamente opostas ao que tinha sido propagandeado pelo Oriente. Em busca de independência, melhores condições de vida e para fortalecer sua identidade cultural, as famílias japonesas se reuniram em parcerias, cooperativas e associações. “Muitas colônias eram criadas em torno de grupos familiares”, conta Tatiana.
Esse processo se intensificou em 1911 quando os imigrantes nipônicos começaram a comprar terras e revolucionar a cultura agrícola brasileira. “Muitos imigrantes japoneses começaram a plantar verduras, o que não era comum por aqui. Pelas mãos dos japoneses foram criados muitos cinturões verdes que abasteceram várias cidades brasileiras”, conta Maria Helena. Essa forma de organização foi importante até para a preservação cultural dos japoneses, já que os imigrantes se mantiveram em contato direto e diário.

COLÔNIA CACATU
A formação de colônias japonesas teve início no estado de São Paulo, mas em pouco tempo começou a ser adotada pelos imigrantes instalados no Paraná. A primeira delas foi a Colônia Cacatu, fundada no litoral, na cidade de Antonina. Em uma visita à região, os irmãos Hara e Yassumoto se apaixonaram pela localidade e contrariaram o discurso de que o melhor seria investir no interior paulista.

“Eles chegaram em 1917 e compraram 250 alqueires de terra, dando início à colônia”, conta Rui Hara, neto de Missaku, um dos pioneiros de Cacatu. Lá eles plantavam e viviam entre eles, mantendo seus hábitos preservados mesmo tão distante de casa.

“Eram cerca de 30 famílias japonesas que foram povoando a localidade”, completa Hara. O mesmo ocorreu em 1920, com a fundação de uma colônia que recebeu o nome de Vila Japonesa, em Cambará, no norte do estado. Foi a segunda colônia japonesa fundada no Paraná e a primeira naquela localidade do estado.

No entanto, com o estopim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os japoneses, junto dos alemães e italianos, foram considerados inimigos pelo governo de Getúlio Vargas. A perseguição contra eles foi intensa. “Até as terras que minha família tinha no litoral, na colônia Cacatu, foram tomadas pelo poder público da época. E isso que meu pai foi arregimentando para ser pracinha e lutar em nome do Brasil na Itália. Foi um absurdo o que aconteceu”, ressalta Hara. Era a guerra fazendo vítimas inocentes Paraná afora.

IMIGRAÇÃO JAPONESA FOI ALVO DE CRÍTICAS PELA IMPRENSA
“Japonezes, raça fisicamente ridícula”. Foi com essa frase, xenófoba e preconceituosa, que o jornal curitibano Diário da Tarde, no dia 8 de julho de 1908, tratou a imigração nipônica para o Brasil e, consequentemente, para o Paraná. Uma das ‘preocupações’ era de que os japoneses se tornassem fortes concorrentes no mercado agrícola. Além do próprio preconceito contra a raça japonesa.

“Que raça será a nossa no futuro se nós saturarmos de immigração japoneza? (…) que híbrido iremos produzir cruzando-o com raça fisicamente ridícula”, chegava a afirmar o texto, com a língua portuguesa da época.

“Era um preconceito contra o diferente. Assim como esse, outros textos foram publicados pelo mesmo jornal fazendo campanha contra a imigração japonesa”, constata a pesquisadora Maria Helena Uyeda.

Em outro texto, veiculado no dia 9 de dezembro daquele ano, o jornal tem a ‘coragem’ de publicar que a “immigração japonesa é um perigo para o povo que a aceita”. Já no ano seguinte, em 14 de abril, quando já havia registro de japoneses no Paraná, o Diário da Tarde publica outro texto que aponta que os japoneses seriam “perniciosos concorrentes dos trabalhadores brancos. Por isso não posso admitir que se procure canalizar para aqui a immigração japoneza”.

Imigrantes japonesas trabalhando na colheita de café. Crédito: coleção  Vladimir Kozak/ Museu Paranaense

Imigrantes japonesas trabalhando na colheita de café. Crédito: coleção Vladimir Kozak/ Museu Paranaense

CASAMENTOS ARRANJADOS
Para migrar ao Brasil não bastava força de vontade e coragem para enfrentar quase dois meses a bordo de um navio. Uma das condições do governo brasileiro na política de imigração dizia respeito à composição da unidade familiar, sendo necessária uma família com pelo menos três membros com idade entre 12 e 45 anos capacitados para o trabalho agrícola.

“Em função dessa exigência, muitos recorreram aos casamentos arranjados. Entre 1908 e 1923, a ocorrência desses casamentos foi frequente entre os imigrantes japoneses que vinham para o Brasil”, conta a historiadora Tatiana Takatuzi. Os casamentos arranjados eram realizados, muitas vezes, entre amigos e até entre parentes.

CURIOSIDADES
PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Com o início da Primeira Guerra Mundial, o número de imigrantes subiu consideravelmente, chegando a um total de mais de 160 mil japoneses que entraram no país entre 1917 e 1940.

O PRIMEIRO JAPA
Antes de o processo imigratório japonês iniciar, um professor de ginástica de Dom Pedro II acompanhou a comitiva do imperador durante a visita ao Paraná, em 1880. Este professor era o acrobata japonês Manji Takezawa, que havia sido contratado por Dom Pedro dez anos antes. Ele foi o primeiro japonês a pisar em terras paranaenses.

AS INFLUÊNCIAS CULTURAIS
Gastronomia, dança, apresentações de taiko (uma variedade de instrumentos japoneses de percussão), idioma, budismo, disciplina, inovação agrícola… A influência da cultura japonesa abarca diversas esferas da nossa sociedade.

“Os imigrantes deixaram um legado de trabalho árduo no campo, além, é claro, das danças e músicas, incluindo o costume do karaokê”, conta a pesquisadora Maria Helena Uyeda.

Outro ponto que ela destaca é a prioridade dada à educação. “Muitos filhos e netos dos imigrantes tiveram o incentivo para estudar e ter uma formação. A ideia era se tornar vencedor em terras estrangeiras, contribuindo para o desenvolvimento da nova casa”, salienta Maria Helena.

Rui Hara, que é neto de imigrante, comenta que alguns hábitos culturais são preservados, mas que outros acabam se misturando à cultura ocidental. “Esse é um processo que eu creio ser natural. A religião é um exemplo. Poucos que eu conheço seguem o budismo e muitos são cristãos”, ressalta.

Para a historiadora Tatiana Takatuzi, a cultura não é uma coisa estática e está em constante mutação. “Por isso, deve-se considerar que a cultura que o imigrante trouxe do Japão também se transformou. A manutenção da língua é uma importante característica que marca a identidade desses imigrantes e seus descendentes, mas que também sofreu mudanças. Por isso, temos que considerar que a cultura dos japoneses no Brasil diz respeito ao constante significar e ressignificar padrões, tradições e memória, construídos historicamente e em consonância com a globalização cultural em que vivemos”, pondera.

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Apresentação cultural de taiko, em Curitiba. Tradição é mantida pelos descendentes japoneses em todo o Paraná. Crédito: Cesar Brustolin/Divulgação

Apresentação cultural de taiko, em Curitiba. Tradição é mantida pelos descendentes japoneses em todo o Paraná. Crédito: Cesar Brustolin/Divulgação

RELATO
FAMÍLIA VEIO AO PARANÁ ÀS CEGAS
Aos cinco anos de idade, Yuichi Oshima encarou quase dois meses de navio ao lado de seus pais e dois irmãos até desembarcar no Porto de Santos. O plano era conseguir trabalhar e retornar ao Japão, que acabava de sofrer com a trágica Segunda Guerra Mundial.

“A gente não sabia muito bem o que fazer aqui”, conta Yuichi. A família acabou sendo contratada para atuar em fazendas na cidade de Tamboara, no noroeste do Paraná. “Viemos às cegas. O Japão estava sofrendo muito com o impacto da guerra”, conta.

Sem falar o idioma e sem compreender o alfabeto, Yuchi e os irmãos foram mandados para a escola para auxiliarem os pais na compreensão do português. “Eu ia bem na escola e fui gostando de estudar. Mas até hoje meu pai não fala português direito. Mas eles se sacrificaram para que os filhos pudessem estudar e ter um futuro melhor”, comenta. Na década de 70, Yuichi chegou a Curitiba onde começou os estudos de Engenharia Civil na Universidade Federal do Paraná (UFPR). A família migrou para a capital e atuou no ramo do comércio.

* No abre da matéria família de imigrantes japoneses em descanso após o trabalho na lavoura./ Crédito: REPRODUÇÃO/Os Japoneses no Paraná

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