Da amizade & dos amigos

simoes

Com base na leitura de livros, jornais e revistas, tive oportunidade de coligir, ao longo das últimas décadas, dezenas e dezenas de pensamentos, epigramas, aforismos, provérbios, máximas etc., gravitando em torno de um dos temas da minha especial predileção. Refiro-me à amizade e aos amigos.

Esses fragmentos amistosos – ou amicais – são por vezes semelhantes, formal e conteudisticamente. Mas podem ser também discordantes, contraditórios, antagônicos. Uns são luminosos, solares, apolíneos; outros, francamente sombrios. Uns sacrificam no altar do otimismo mais transparente; outros, na ara do pessimismo mais rasteiro. Alguns, inclusive, têm traços de humor na sua arquitetura ideológica: bom ou mau humor, naturalmente. Mas todos, sem exceção, profundamente saborosos. Todos com capacidade intrínseca de enriquecer o intelecto e iluminar o espírito de quem quer que deles tome ciência.

Estou convencido de que os leitores, que me dão a honra e o privilégio da leitura mais ou menos costumeira dos meus despretensiosos escritos, terão prazer em tomar conhecimento de uma pequena parte desses pensamentos, alguns dos quais verdadeiramente emblemáticos. Em função, sobretudo, da autoridade intelectual – e até mesmo moral – daqueles que os formularam pela vez primeira.

Antes, porém, de penetrar nos interstícios desse jardim pensante, se me for permitida a metáfora, afirmarei que vislumbro na amizade uma das dimensões do amor. E, por certo, não das menos significativas. Direi mais: o verdadeiro amigo é quase um irmão espiritual, da mesma forma que o irmão é um amigo de sangue. Por isso mesmo, a amizade e a fraternidade são, por assim dizer, irmãs gêmeas. Talvez siamesas.

Mas penetremos sem mais tardança nesse jardim, em cujos canteiros pontificam algumas das mais notáveis figuras das diversas áreas da criatividade humana – das letras, das artes, das ciências, da filosofia etc.

Começarei por citar aquela que me parece, na sua essência significante, a mais bela das definições já dadas a esse precioso sentimento que é a amizade. Formulou-a o imenso pensador francês que se chamou Michel Eyquem de Montaigne, uma das culminâncias da cordilheira da Cultura Ocidental. Referindo-se, num dos seus extraordinários ensaios, ao seu grande amigo recém-falecido, Étienne de La Boétie, confessava Montaigne: “Se alguém porventura me forçar a revelar qual a razão fundamental por que eu gostava dele, creio que só poderei responder desta forma: porque eu era ele, e ele era eu”. Genial pensamento esse, consubstanciando uma espécie de magnificat ou hino de louvor à amizade verdadeira, pura, autêntica, àquela amizade que só pode ter como símbolo um diamante sem jaça.

Um dos provérbios bíblicos reza assim: “É mais estimável a amizade que o ouro e a prata”. Já o latino Cícero, o mestre da oratória que disputa ao grego Demóstenes o título de primus inter pares, assinalava, com extrema economia de meios verbais: “O amigo certo se conhece na hora incerta”. E o fabulista Fedro, que bebeu na taça de Esopo, ponderava cum grano salis: “O nome do amigo é comum, mas a sua fidelidade é muito rara”.

La Rochefoucauld, mestre dos mestres do aforismo, sustentava com simplicidade: “O verdadeiro amigo é o maior dos bens”. Para continuar na douce France, volto a Montaigne: “Para cada virtude basta apenas um homem; para a amizade, são necessários dois”.

Continuando. O norte-americano Emerson, num dos seus admiráveis essays, asseverava que “um amigo autêntico é a obra-prima da natureza”. E acrescentava, com extrema finura e sutileza: “A melhor maneira de ter ou fazer amigos é sê-lo”. Uma boa tática, sem dúvida. E ainda melhor estratégia.

Voltemos à Grécia Clássica. Dou a palavra ao Pai da Filosofia, o mestre Platão e Aristóteles. Ensinava Sócrates: “O amigo é como saúde: só lhe damos valor quando nos falta”.

Deixemos, agora, que fale Diógenes. Proclamava o gramático e epicurista helênico: “A amizade é uma alma distribuída por dois corpos”. Lindo.

O grande dramaturgo alemão Hebbel, assim se exprimia: “Cada amigo novo é um pedaço de nós mesmos que reconquistamos”. E o que dizia o gênio teutônico que se chamou Goethe? Isto: “É preferível ser enganado por um amigo, do que enganá-lo”. De fato: nem sempre é mefistofélico o autor de Fausto…

A França volta a convidar-nos. Escrevia La Bruyère: “É mais comum o amor extremo do que a amizade perfeita”. Um bon mot, certamente. E confessava Joubert: “Quando meus amigos são caolhos, tento olhá-los de perfil”. É isso aí a amizade: a capacidade de não querer ver defeitos no outro.

O filósofo inglês Bacon, mestre do Novum organum, foi lapidar: “Sem amigos o mundo seria um deserto”. Acrescentando que “o homem morre tantas vezes quantas perde amigos”. Quer isso dizer que ele morreu várias vezes, ao longo da vida. Mas nem tudo são pétalas de rosas nos jardins da amizade e dos amigos. Há também espinhos acerbos.

O notoriamente irônico, cético, cínico e pessimista que se chamou Ambrose Bierce, no seu curiosíssimo Dicionário do diabo, assim define a amizade: “Barco suficientemente grande para levar duas pessoas, quando faz bom tempo, mas onde só cabe uma, quando o temporal se aproxima”. Seu ancestral mais conspícuo (ao lado de Swift), que se chama Voltaire, repetindo um provérbio chinês três vezes milenar, enfatiza: “Deus me livre dos amigos, porque dos inimigos eu próprio me livro”. E foi mestre nessa arte, sem dúvida, o autor de Cândido.

O nosso Cassiano Ricardo, grande poeta e ensaísta respeitável, algo pessimista e melancólico, cantava quase na surdina: “Só tenho três amigos:/ o eco da minha voz/ a minha imagem no espelho/ e a minha sombra no chão”.

Parece haver, na sentida confissão do mestre de Jeremias sem chorar, uma ressonância, pelo menos no aspecto da triplicidade, do famoso aforismo de Benjamim Franklin, político, estadista e inventor que sabia exercitar com eficiência a liturgia da escrita. O que escrevia ele? “Há três amigos fiéis: esposa velha, cão idoso e dinheiro à vista”. Mas o inventor do para-raios ia mais longe: “O falso amigo e a sombra só nos acompanham quando o sol brilha”. Temos aí um aparente acacianismo? Não: existe aí aquilo que alguém rotularia de uma “verdade verdadeira”. Mário Silva Brito, expert em saborosos desaforismos, ofereceu-nos esta pérola: “De vez em quando, é bom sacudir a árvore da amizade, a fim de que caiam as podres”.

De passagem, lembro um famoso provérbio italiano ou, mais especificamente, napolitano, que reza assim: “Mais vale um amigo rico do que cem parentes pobres”. Existe aí, sem dúvida, pragmatismo suficiente para fazer uma “pizza” ciclópica…

Ouçamos agora, ou melhor, leiamos o que Baltasar Gracián, mestre do Barroco espanhol, tem a dizer-nos – e o diz concisa e superiormente: “A amizade multiplica os bens e reparte os males”.

Terei porventura esquecido Camões? Não, não esqueci. Aí vai ele, em dois curtos versos: “Não existe no mundo bem maior/ do que tornar amigo um inimigo”.

Para concluir com chave de ouro, darei a palavra àquele que o Camões do século vinte, Fernando Pessoa, considerou o maior artista da nossa língua. Refiro-me ao padre Antônio Vieira, o gênio dos Sermões e das Cartas, que disputa a Bossuet – e a meu ver ganha o confronto – a condição de maior orador sacro do mundo. Desentranho das suas epístolas cinco breves, porém densas e ricas colocações:

• É amigo o que ri quando rio, chora quando eu choro, e folga quando eu folgo.
• O certo e o verdadeiro amigo não é aquele que nos adula ou elogia, mas o que nos corrige, repreende ou morigera.
• O homem carente de amigos é um estrangeiro em sua própria pátria.
• A pura, a verdadeira amizade só pode florescer e frutificar entre iguais − nos bens ou nos males, no contentamento ou na aflição.
• Faz-se um amigo verdadeiro em anos de convivência, mas é possível perdê-lo num só dia.

Poderia continuar, mas paro por aqui, leitor amigo. Com toda a minha amizade.

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