Entre os Arcanos Geométricos e as Construções Líricas está o ABC da Metafísica

bini0abre

Museu Guido Viaro, Curitiba, novembro de 2017 a janeiro de 2018

Uma exposição de artes visuais é sempre um deleite para o olhar. Podemos nos perder na visão das formas e cores ali presentes, sem nos preocuparmos com as imagens que representam. “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, (Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa). Mas uma exposição de arte também é reflexão, é um caminho para entrarmos em nossas experiências pessoais a partir do que vemos. Por mais que nos afastemos de nossos pensamentos, ele sempre nos leva a rememorações.

A exposição “Arcanos Geométricos e Construções Líricas”, de Rones Dumke, em cartaz no Museu Guido Viaro, com a bela curadoria de Amarilis Puppi, não nos deixa tranquilos, acredito que isto seja sempre a intenção do artista.

Se você se ativer ao que está ali, é um belo passeio, mas na medida em que você começa a investigar as obras, ou mesmo procurar conhecer um pouco mais do artista, a exposição começa a desvelar muitas outras coisas.

Há uma imensa coerência em todo o seu trabalho, desde os primeiros desenhos, já organizados geometricamente sobre as folhas de papel, a tradição que vem de uma família de relojoeiros, depois a preciosa solução técnica aprendida no atelier do artista Carlos Scliar, e ainda o domínio da proporção e da harmonia herdado dos clássicos, características que ele nunca abandonou. É ele mesmo quem nos adverte, não adianta ter uma técnica extraordinária, ser um virtuose e não ter repertório.
bini1
Há um trabalho da série Átrios da Memória, de 2014, chamado “Metafísica”, sua organização é estritamente geométrica, a janela do quadro é dividido em nove retângulos homotéticos, no centro há uma pedra, como em René Magritte (“O Castelo nos Pirineus”, 1959), não tem peso, flutua, é o paradoxo que Magritte buscou em Zenão de Eléia e nas petrificações de Edgar Allan Poe. Para Rones, esta pedra guarda algo não só de mistério, mas também de sagrado, de reverência religiosa. Entretanto como “tudo o que é sólido se desmancha no ar” (Marx), em torno desse retângulo central os demais apresentam texturas, vestígios de figuras fragmentadas, cores ou matérias pictóricas.

“Um pouco de mistério sempre fica”, diz o artista. O enigma, o estranho, os espaços vazios, é o que provoca o desconforto, o estranhamento de estarmos em um universo atemporal. Em tudo existe a presença da memória do artista, uma memória afetiva permanente, e as suas obras parecem trabalhos de rememoração, de anamnese como em Platão. Estas reminiscências tem origem na sua observação, na construção do seu repertório e na curiosidade que o artista tem em tudo o que faz parte do universo, material e intelectual, e assim, desperta também a nossa curiosidade: somos provocados a trabalhar com a memória, com a nossa memória.

Rones insiste em seu credo, na doutrina da ideia que vem dos artistas maneiristas italianos do século XVI. Para ele, a ideia permeia toda a estética da arte moderna, vem da “Pintura como Coisa Mental”, de Leonardo da Vinci, até a “Pintura como Diagrama de Uma Ideia”, de Marcel Duchamp, que está na origem da arte conceitual contemporânea.

Todavia esta não é a primeira vez que Rones busca soluções abstratas nos seus trabalhos e como exemplos tem: a “Exposição Pinturas Abstratas de Rones Dumke”, na Galeria Arte Singullar (2002) e o Prêmio do Salão da Primavera (2006), no Clube Concórdia, com uma interpretação suprematista da tela “Eleonora de Toledo” do pintor maneirista Agnolo Bronzino.

Mais ainda, ele sempre usou soluções abstratas mesmo nos seus quadros figurativos: “uma espécie de descanso da figura na direção do abstracionismo”, usando uma frase de Guido Viaro, o escritor.

A curadoria nos dá dois caminhos: a partir da série “Construções Líricas” ou então o percurso pela série “Arcanos Geométricos”. Perseguindo a orientação cronológica, começamos pelas “Construções Líricas” – o primeiro trabalho é uma tela de grande formato (120 x 120 cm), cujos quadrados se repetem na composição variando sua posição: “Mirabile in Profundis”, de 2009.

Ao lembrar as Confissões de Santo Agostinho, “Oh! que admirável profundeza a das vossas palavras”, também nos fornece a sua direção. Depois de 2015 segue um novo rumo com trabalhos mais luminosos, mais agradáveis à contemplação, abandonando o que ele chamava de “Alquimia Visual” e “Ocultismo”, pois agora são construções de luz: “A arte iluminadora de Rones Dumke”, em 2015, depois da releitura que fez de “A Imitação de Cristo”, de Thomas Kempis, agora esta outra fonte espiritual entra na sua obra.
bini2
Rones continua trabalhando por analogias, por correspondência, sem uma explicação óbvia, mas com a certeza de que a beleza é a harmonia da totalidade. Poderia dizer como Guillaume Apollinaire “estou bêbado de ter bebido todo o Universo”, entretanto é o que este universo pode ter de particular o que lhe interessa, o olhar no detalhe para construir o todo, a beleza. “Adverso Fortior” (Mais forte do que a Adversidade, de 2016), é o olhar que espreita as coisas do mundo e, na sequencia, nos encontramos diante de “O Enigma do Calendário da Eternidade”, de 2017: Hieronymus, o do nome sagrado: “há vida em Marte?”. Leva-nos em direção aos metafísicos: “o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel” disse Platão no Timeu, é confronto entre o eterno e o fugaz, o perene e o transitório, o permanente e o fugidio.

“Decifra-me ou te devoro!” disse a Esfinge para Édipo, pois “o mito é a matéria ideal do poeta” afirmou o músico Richard Wagner. Rones busca seu repertório em tudo o que o cerca: imagens, livros, filmes, música incluindo as suas experiências cotidianas. Se a doutrina da ideia, para ele, vem dos maneiristas, é atraído pelos simbolistas que querem a transposição formal do irreal e do estranho, ultrapassando o ilusionismo e assim eles tiveram um papel capital no surgimento da arte abstrata.
bini4
Gustave Moreau, simbolista francês, era um cultor da linha e da cor, sua obra é a evocação do pensamento pela linha, pelo arabesco e pelos meios plásticos e o vasto campo de sua curiosidade estava nos artistas do Quattrocento italiano, ou seja, a riqueza da matéria, o refinamento do colorido e a invenção dos detalhes. Rones também quer “vestir a ideia de uma forma sensível” (Jean Moréas) e, o que o motiva, é a relação, o choque, dos materiais entre si.

Se ele começou interessado pelos artistas simbolistas, foi também atraído pelos artistas românticos enquanto estes possuíam um culto aos neoclássicos e é com eles que Rones construiu o seu repertório; da ética e da estética do classicismo vem a sua harmonia e serenidade, o monumental e o solene, e também o seu conteúdo moral, neste sabor do atemporal.

As questões metafísicas que Rones aborda também estão nos simbolistas Gustave Moreau, Pierre Puvis de Chavannes e mesmo em Paul Gauguin quando pintou a sua grande tela “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?” (1897).
bini5
No tríptico “ABC dos Metafísicos” volta às colagens com os objetos enigmáticos e os símbolos herméticos: “O que chamamos de símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós.” (C. G. JUNG, 1964, p. 20). Aqui, também metafísico porque é uma introdução ao estudo do ser ou principalmente como queria René Descartes, que a metafísica fosse meditação e reflexão vivida, pois é o eu pensante quem descobre o seu próprio ser.

Os Arcanos são, por si só, suficientemente enigmáticos. São figuras simbólicas, arquetípicas resolvidas geometricamente por Rones e com o trabalho em textura visual, que já estavam presentes em obras anteriores. A série “Arcanos Geométricos” foi realizada em gravuras digitais, pesquisa que atraí bastante o artista pelas suas possibilidades técnicas.

Esta “operação misteriosa de alquimista” se dá então na “pele” da pintura, na textura gráfica, háptica ou ótica (tátil ou visual), preservando sempre os valores da representação e muito ligado à tradição do desenho e da pintura o que não esconde a sua relação afetiva com os objetos. Quando fala desta nova produção diz que nos trabalhos geométricos, os que não são mais figurativos, ele mudou sua atitude com relação a obra, agora é mais a cor o que lhe interessa.
bini6
As colagens, os trabalhos sobre textura e cor foram o exercício preparatório, a disciplina necessária para chegar às sutilezas formais de agora, o rigor e a forma bem delineada, e a interpenetração das “malhas geométricas” – uma forma lisa que contrasta com o estriado, e o processo dialético de Rones, são os seus paradoxos que continuam a nos maravilhar.

A exposição “Arcanos Geométricos e Construções Líricas” mostra a renovação de um artista que não para de se recriar, com um senso agudo da cor e da matéria mergulhadas numa profusão de detalhes aos quais ele atribui o valor simbólico, por vezes obscuro. Voltando à Gustave Moreau, a obra de Rones Dumke é “a evocação do pensamento pela linha, o arabesco e os meios plásticos”, pois “a cor deve ser sonhada, pensada, imaginada …”.

Fernando A. F. Bini é professor de História da Arte e crítico de Arte.

bini7 bini8 bini9

Leia mais

Deixe uma resposta