Infinitas cortinas com palcos atrás

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Ela estendeu a mão e disse: “Olha minha mão”. A palma estava para cima e via-se uma mão calejada pelo trabalho. “Produção é ser peão de obra”.

Bete Carlos recebeu a Ideias para falar da vida por trás dos palcos ou, nas suas palavras, do “papagaio que come milho para o periquito levar a fama”.

O dicionário de sinônimos apresenta quatro sentidos diferentes para “produção”. O primeiro a significar “elaboração”, e com ele outros quatro: formação, criação, geração e realização. De fato, Bete Carlos elabora o ambiente propício para que artistas pisem nos palcos na mais perfeita ordem. O segundo significado é “fabricação”, seguido por outros três: manufaturação, montagem e construção. Há aqui, talvez, o que seja de fato a produção, ou ao menos aquela que pintou Bete Carlos. “Eu tenho um colete, nele há de tudo: água, comida, tesoura, fita-crepe”. Está sempre preparada para preparar algo, para o fabrico. O produtor é o homo faber. Cabe um parêntese para falar sobre o homo faber.

O homo faber é aquele capaz de racionalmente controlar seu entorno a partir de suas ferramentas. Hannah Arendt, que ajudou a disseminar a ideia, afirmou sobre o homo faber: “é amo e senhor de si não apenas porque é o senhor ou arrogou o papel de senhor de toda a natureza, mas porque é senhor de si mesmo e de seus atos”. Bete Carlos é mais ou menos isso: arrogou o papel de senhora de toda a natureza de um espetáculo, sem ela não há show e se alguém pode existencialmente, outra característica do homo faber, bradar a famosa frase “o show tem que continuar”, este alguém é ela. “Sob minha produção, nenhum show foi cancelado, nunca aconteceu”, afirmou sem soberba, mas orgulhosa.

O terceiro significado diz respeito ao “produto”, e dele uma legião de outros significados: rendimento, produtividade, artefato, resultado, obra, fruto. Dois se destacam: eficiência e trabalho. “Quando trabalhava no Canal da Música, fazíamos formaturas, além de outros eventos, é claro. Não era raro sair de lá depois das três, às vezes quatro horas da manhã e no dia seguinte estar lá de novo às 8h30”. Uma formatura para quem está atrás das cortinas não termina quando o chapéu é jogado ao alto. “Eu precisava estar atenta a tudo, aos pertences das pessoas, aos chapéus que, não raro, se perdiam, fotografias, familiares”.
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O último sinônimo associado à produção é “apresentação”. Dele deriva: exibição, exposição, mostra. Este ponto não compete muito à Bete, afinal, como ela mesma disse, ela é o papagaio que come milho. Mas não é bem assim. “Quando vejo o resultado de um show que produzi, o músico no palco cantando, tocando, a plateia aplaudindo, as luzes, o cenário, tudo, me emociono, me arrepio”. Todo o conjunto, da plateia à coxia, é a exibição de Bete Carlos, aquele é seu show, são suas notas e seus aplausos. “É muito legal quando reconhecem meu trabalho, muitos artistas o fazem. Tem gente que liga para agradecer. De maneira geral posso dizer que tenho meu trabalho reconhecido, apesar de muita gente não saber que existe isto que chamamos de produção”.

Está claro, Bete Carlos é quem faz o barco tocar em shows. Trabalha como produtora há 24 anos. Os shows do Coral Brasileirinho, Orquestra à Base de Corda, Orquestra à Base de Sopro, Vocal Brasileirão (todos grupos vinculados ao Conservatório de Música Popular Brasileira) é ela que produz. Isto e mais. Já viajou pelo Brasil acompanhando músicos. “É mais ou menos como caminhoneiro, só passa pela cidade, não dá pra conhecer nada, só hotel e teatro”. Produziu shows com Egberto Gismonti, Paulo Moska, Paulinho da Viola, Lenine, mas faz questão de destacar os artistas de Curitiba. “Gosto de fazer o que estou fazendo. De trabalhar com o Vicente Ribeiro, Julião Boêmio, João Egashira, Helena Bel, Sérgio Albach, enfim com os nossos artistas”.

No entanto, revelou que nem tudo são flores. “Um dia desses parei no hospital, era estresse”. E sobre os egos? “Atrapalha muito na hora da produção, tem artista que é muito estrela. Exige coisas descabidas”.

A Ideias quis saber o que é de fato produção, qual é o labor, o que faz: “Tudo! Tudo de tudo! Busco no aeroporto, compro comida, vejo roupa, já tive que consertar sapato. Carregar caixa, montar palco. Se o som está ruim, preciso ir até o técnico e resolver. O mesmo com a luz. E, se tudo dá certo, palmas para o artista; se der alguma coisa errada, culpa da produção. É assim, já aprendi a lidar.”
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Chico Buarque traduziu bem isso, assim como a própria Bete usando a frase popular do papagaio e do periquito, na música “Vida”: “Deixei a fatia mais doce da vida/na mesa dos homens”, e na mesma música também disse “Sei que além das cortinas/são palcos azuis/e infinitas cortinas/com palcos atrás”. Esta é a vida de produtora, se apresentar nos infinitos palcos atrás. “Nós da produção somos Bombril, mil e uma utilidades”, jeito simpático para dizer que carrega mil e uma obrigações e tarefas.

Bete Carlos aparentou cansaço e confirmou: “Nós somos em três aqui para fazer tudo, temos muita demanda, muitas apresentações, às vezes saímos de um e já vamos para outro”. A partir daí se lembrou do ritmo da Virada Cultural: “Amo fazer a Virada, apesar do ritmo insano. Gosto de estar na rua, em contato com as pessoas, mais do que aqui, trancada no escritório com as burocracias”.

Apesar de ter que lidar com alguns egos, com situações por vezes desagradáveis, com a pressão da produção, com gente metendo o bedelho no seu trabalho, “muita gente palpita”, diz, desgostosa, Bete olhando as palmas das mãos, como a buscar em cada marca o trabalho de um show, diz gostar muito do que faz e de trabalhar no Conservatório. Chico explicou o exame de autoconsciência feito por Bete Carlos, tal qual faz o homo faber com suas ferramentas sendo senhor de si mesmo, “Vida, minha vida/Olha o que é que eu fiz/Toquei na ferida/Nos nervos, nos fios/Nos olhos dos homens/De olhos sombrios/Mas, vida, ali/Eu sei que fui feliz.”

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