Levanta, sacode a poeira

richa0_abre

Durante alguns meses, Beto Richa passou por agruras políticas que não tinha experimentado em toda a sua história. Os mais de 75% de aprovação de seu governo desceram para 30%. Vários fatores contribuíram para essa queda de prestígio e popularidade, mas um foi fundamental. Ao perceber o agravamento da crise econômica gestada nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT, Richa tratou de aplicar as medidas preventivas necessárias para impedir que o Paraná viesse a viver a situação desastrosa em que hoje se encontra a maioria dos demais estados.

O reajuste fiscal que implicou rigorosa contenção de gastos, redução de privilégios corporativos e congelamento de despesas postergáveis atingiu de imediato setores habituados a ganhos salariais acima da inflação e a expansão de vantagens que oneram a já inchada folha de pagamentos que consome a maior parte do orçamento. A reforma da Previdência, inevitável, provocou maus bofes no funcionalismo. Tudo isso serviu de combustível para uma oposição que não mede consequências e trabalha na linha do quanto pior melhor.

Diga-se: as corporações que restaram a serviço do PT sempre contaram com o apoio de boa parcela da mídia para exercitar sua raivosa contestação. Foi essa mídia que tratou de adubar o mal-estar na sociedade provocado pela reforma fiscal com denúncias de desvios, corrupção de funcionários, fatos policiais e factoides para colocar o mundo contra o governo do Estado. Deu espaço para os mais gritantes desvarios críticos sem qualquer fundamento.
O tiro da oposição acabou saindo pela culatra. Beto Richa vai recuperando seus índices de aprovação. Uma parcela considerável da população mudou sua opinião sobre a reforma fiscal e hoje reconhece a justeza e a necessidade das medidas amargas exigidas pela crise. O estadista, que colocou acima da busca de popularidade os interesses do Estado e da sociedade, vê sua obra reconhecida. Compreende que as restrições nos gastos e na distribuição de privilégios permitiu ao Paraná assegurar recursos para investimentos em obras e estancar o crescente desemprego que assola o resto do país.

Richa voltou a conquistar apoios significativos. E não se arrepende do feito. Mesmo amargando a insatisfação social e os ataques de uma oposição ruidosa, mas capaz de mobilizar setores para o espetáculo público da contestação, caso dos professores que obedecem a uma entidade que hoje usa as reivindicações econômicas da categoria para expressar palavras de ordem de uma corrente política que desaparece sob escombros denunciada pelo maior escândalo de corrupção que se conhece em toda a história do mundo ocidental.

O governador Beto Richa (PSDB) decide seu destino político com aprovação suficiente para conquistar, facilmente, uma cadeira no Senado da República. Está num grande momento de seu mandato. Nesta entrevista, ele faz uma avaliação dos sete anos de governo e aponta o ajuste fiscal como um legado que permite hoje transformar “o Paraná num canteiro de obras”. “Nós temos duplicações de rodovias, obras de viadutos, de pontes, de trincheiras, em todas as regiões do Estado”, diz.

“Essas obras foram possíveis graças ao ajuste fiscal e por fazermos a lição de casa”, destaca Richa. “Tem estado que não paga os salários, fornecedores, muito menos faz obras ou investe nos municípios. E no Paraná está tudo rigorosamente em dia”, completa. Confira as opiniões e o balanço de Richa na entrevista.

A segurança pública continua um gargalo para os estados. Como o senhor enfrentou essa situação no Paraná?
Os investimentos em segurança pública são vultosos neste governo. Basta dizer que a contratação de policiais é a maior da história do Paraná. São 11 mil policiais contratados em sete anos, três mil viaturas compradas e agora em março serão mais 600 viaturas para as polícias civil e militar. Em fevereiro, entregamos 10 veículos para os IMLs e outros 20 chegam na próxima semana. Os investimentos nas forças policiais asseguram o enfrentamento ao crime organizado, às quadrilhas especializadas em roubo aos caixas eletrônicos e também aos carros-fortes. Nós compramos armas pesadas, como carabinas, fuzis, submetralhadoras, pistolas Glock 9mm e já está para ser entregue outro lote de 8 mil coletes balísticos. Estamos comprando mais coletes para as polícias ainda e colocamos mais helicópteros à disposição das forças policiais. Inclusive na Polícia Civil criamos o grupamento de operações aéreas com helicóptero específico e ainda em fevereiro também entregamos mais um helicóptero para a Polícia Militar.
richa2
Os investimentos nesta área têm impactado de forma positiva, traz resultados?
Todos esses investimentos culminaram com uma atuação mais efetiva da segurança pública e conseguimos o resultado apresentado agora, fechando 2017 com a maior redução da taxa de homicídios nos últimos dez anos. Conseguimos uma redução, comparando os índices de quando eu assumi o governo em 2010 com os de agora, de 33% da taxa de homicídios no Paraná. O comandante geral da Polícia Militar me passou informações de que o número de prisões diárias foi mais de 200; em 2016, eram 160 prisões por dia. Também houve investimentos em planejamento e inteligência que culminaram com esses resultados obtidos, enquanto vemos no Brasil inteiro um grave problema em segurança pública. No Paraná, conseguimos avançar bastante embora ainda estejamos longe do ideal. Temos que continuar investindo para cada vez garantir mais segurança aos paranaenses.

Em 2018, o senhor completa oito anos de governo em dois mandatos. Como está a reta final de gestão?
Estou com a consciência tranquila e a cabeça erguida. Estou entregando um Estado muito melhor do que peguei. É incomparável. Recebi o Estado com R$ 3,5 bilhões em dívidas – só de Pasep não pago pelo governo anterior foi R$ 1 bilhão. Nós estamos entregando o governo com dinheiro em caixa, tudo organizado, estrutura administrativa modernizada com o uso de tecnologia de informação. São, por exemplo, mais de 660 BIs (business intelligence) elaborados pela Celepar. Temos hoje um Estado e as empresas públicas com uma governança mais eficiente e moderna.

O senhor falou das empresas públicas. Como está a saúde da Sanepar e da Copel?
Em 2010 me acusaram de querer privatizar as empresas públicas. Hoje, a Sanepar é a melhor companhia de saneamento do Brasil, segundo o Instituto Trata Brasil. Das 11 cidades com os melhores índices de saneamento no país, cinco são do Paraná. Saneamento é saúde e desenvolvimento para o Estado. A temporada de verão está terminando nas praias paranaenses e a Folha de São Paulo apontou que o nosso litoral tem as melhores águas próprias para banho do Brasil, as praias mais limpas do Brasil. Não era assim. Antes havia as bandeiras na areia: “águas impróprias para banho, risco de contaminação”. Nós fizemos um trabalho profissional, uma governança de eficiência nas empresas públicas. Nos últimos sete anos, a Copel por cinco vezes foi a melhor companhia distribuidora de energia do Brasil e em janeiro foi escolhida em Medelín, na Colômbia, a melhor companhia distribuidora de energia da América Latina.

O Porto de Paranaguá também se tornou mais eficiente…
Veja o que era antes e o que é hoje o Porto de Paranaguá. Investimentos bilionários, públicos e privados. Antes os navios saíam do porto com meia carga porque não havia dragagem, não havia calado para os navios. Hoje, com todas as dragagens realizadas, os grandes navios saem com carga completa. Isso diminui o custo de produção no Estado e no Brasil, aumentando a competitividade dos nossos produtos. Acabaram as filas quilométricas de caminhões para desembarcar no porto.

Quais foram as medidas tomadas?
Bastou planejamento, eficiência, integração de todos os agentes do Porto de Paranaguá. O pessoal da agricultura com suas entidades, todo o trabalho conjunto. Nós modernizamos os equipamentos que eram da década de 70. Os cheaps loaders que carregam os navios hoje são modernos, há mais agilidade na movimentação de cargas. E mês a mês nós melhoramos a movimentação de cargas no porto. Houve mês em que toda semana batemos recordes na movimentação de carga.

A temporada de verão acabou e agora o litoral terá obras para pôr fim aos congestionamentos das vias de acesso às praias?
Ainda em fevereiro, lançamos, em Matinhos, os projetos que já estão prontos para serem licitados para as obras. Primeiro, elevando o calçadão de Matinhos. Nós vamos fazer a engorda da praia naquele trecho todo que há cerca de 10 anos foi levado por uma forte ressaca. Vamos recompor toda aquela faixa, com o gabiões. A partir de estudos técnicos, vai ser tudo remodelado, com novo paisagismo inclusive bem como a chegada de Matinhos em direção ao morro para a travessia da baía de Guaratuba. Nós vamos fazer a duplicação da Avenida JK, uma obra de aproximadamente R$ 300 milhões. Isso tudo graças ao ajuste fiscal. Hoje não é só no litoral, o Paraná é um grande canteiro de obras.

Há uma expectativa de término de várias obras, entre elas a que vai em direção a Piraquara, uma região que cresceu muito, com mais de 200 mil moradores, e onde o tráfego afunilava em uma estrada só. Existe ainda o problema de Almirante Tamandaré e outros detalhes dessa região. Como isso pode ser resolvido até o final dessa gestão, ou ficar encaminhado?
Está sendo resolvido. Essa é uma grande obra aguardada há décadas na região metropolitana entre Curitiba-Pinhais-Piraquara. Quem tem passado ali na região está vendo. Com dinheiro do Tesouro do Estado, nós estamos duplicando e em alguns trechos triplicando, há um belíssimo viaduto. Visitei ainda em janeiro o canteiro dessas obras. O maior viaduto em execução em todo o Estado estará sendo inaugurado agora no final de março. Inaugurei recentemente a Rodovia do Cerne, em Campo Magro. Nos próximos dias, daremos a ordem de serviço para as obras de duplicação da Rodovia dos Minérios e a retomada da Rodovia da Uva, em Colombo. Obras como essas existem em todas as regiões do Paraná.
richa1
No interior há vários pontos e trechos de rodovias que estão sendo duplicados. Alguns em acordos com as empresas e outros o próprio governo está fazendo. Em termos financeiros, como é possível bancar várias obras simultâneas como no Norte do Paraná, chegando a Paranavaí e outros contornos que algumas cidades grandes estão ganhando?
Nós temos duplicações, obras de viadutos, de pontes, de trincheiras, em todas as regiões. Primeiro, abrimos o diálogo com as concessionárias de pedágio. Antes era só discurso político, enganação, demagogia. Quem não se lembra da célebre frase: “se eu for eleito governador, o pedágio baixa ou acaba”. Nenhuma e nem outra. Eu disse na campanha em 2010 que iria tratar esse assunto com respeito e com a responsabilidade que merece. Chamamos as concessionárias para uma conversa, fazendo prevalecer o interesse público. Tanto é que, para as novas obras, fizemos valer a planilha de custos do DER. Além disso, a taxa interna de retorno dessas concessionárias foi reduzida − algumas chegavam a 20% e foram reduzidas para 8%. As obras estão acontecendo. Só na Rodovia do Café, de Ponta Grossa a Apucarana, são sete frentes de trabalho. Ali na região de Campo Mourão e outras regiões do estado da mesma maneira. E as obras bancadas pelo Estado são inúmeras.

O senhor sempre fala do resultado do ajuste fiscal. É isso?
Essas obras foram possíveis graças ao ajuste fiscal e por fazermos a lição de casa. Eu avisava em um momento que estava sob um forte ataque, houve muita incompreensão patrocinada pelos meus adversários de forma maldosa, distorceram os fatos para confundir a opinião pública novamente, mas eu estava tranquilo, tinha convicção de que estava fazendo o melhor para o meu Estado. Não olhei a eleição, não olhei minha popularidade, olhei o futuro do meu Estado e o bem-estar dos paranaenses. E eu dizia: todos vão entender melhor quando compararem o Paraná que se preparou para enfrentar a crise e os estados que não se prepararam. Pode comparar. É só ligar a televisão, assistir ao noticiário nacional e vemos com tristeza a situação do Rio de Janeiro, que é a segunda economia do país, de Minas Gerais, a terceira economia, do Rio Grande do Sul, a quarta. Esses estados não estão conseguindo pagar o salário dos servidores, o que é uma situação extrema. Não pagam os salários, fornecedores, muito menos fazem obras ou investem nos municípios. E aqui no Paraná está tudo rigorosamente em dia.

O senhor fica até o final do mandato ou sai para disputar o Senado?
Quando era prefeito de Curitiba, perguntavam se eu ia para a reeleição, se eu deixava o mandato de prefeito para concorrer ao governo do Estado. Sempre mantive a mesma postura. Não tenho essa ansiedade que toma conta de boa parte da classe política. Desse mal eu não sofro, tudo no seu devido momento. Concordo que o prazo está se esgotando. Para ser candidato este ano, tenho que me desincompatibilizar do cargo de governador, até o dia 7 de abril. Estou conversando com muita cautela com meus aliados, com meu partido para ver o que é mais importante.

E o que pesa neste momento?
O que pesa é o desejo de continuar no mandato e que o governo está no seu melhor momento. Nós estamos no auge, há muitas obras em andamento, muitas obras sendo anunciadas ainda, obras grandes por todo o Estado. Tenho esse prazer. Não só como governador me realiza ver a situação do Estado, hoje destacada no cenário nacional. Nenhum estado no Brasil tem situação financeira e fiscal atestando o equilíbrio das contas públicas como o Paraná. Mas estou para definir ainda este mês o que faço. O grupo está dividido, pois temos dois candidatos dentro dos nossos aliados, está difícil de unir todo o time. Vou decidir ainda em março se fico ou saio para ser candidato e, se sair, com quem vamos nos aliar e coligar para as eleições.

Leia mais

Deixe uma resposta