O “faroeste”*

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O menino Zito acordou cedo para ir ao cinema. Fazendo pequenos serviços aqui, ali, ou pedindo ao pai, contava seus trocados para uma farta matinê, ou no cine Broadway, ou no Odeon, e, poucos anos depois, no cine Curitiba, os chamados “poeiras” da capital paranaense. No programa, três filmes, ao menos dois faroestes, dois seriados, uma comédia curta, trailers, mais o jornal. Este era o prato dominical do menino que, pouco depois do meio-dia, já estava na porta do cinema escolhido.

Como em outras latitudes do mundo, o menino admirava a honestidade do mocinho, seu traje e cavalo, invariavelmente brancos, símbolo talvez da pureza de ações. As aventuras desenrolavam-se nas poeirentas pradarias do oeste americano, mas, na hora final do filme, o mocinho já estava perfeitamente limpo. E as mocinhas? Sempre vinham nas diligências com a mãe e o pai, geralmente para assumir o cargo de professora na pequena localidade. Totalmente brancas, jamais ganhavam cor, mesmo no inclemente sol do deserto. Ingênuas, parece que serviam apenas para serem agarradas pelo bandido e no final salvas pelo mocinho, raramente participando das ações. O bandido era um mal necessário ‒ o menino o detestava. Sempre de preto, sujo e mal-encarado, ficava eternamente bebendo no “saloon”. O chefe do bando usava sempre uma corrente supostamente de ouro, cruzando a barriga, e consultava o relógio de bolso preso a ela. Raramente desgrudava da cadeira no seu empoeirado escritório lá no fundo do dito “saloon” de onde só saía no final do filme, para a surra aplicada em nome da moral e dos bons costumes, pelo mocinho, nobre e altaneiro guardião da ordem. Havia os índios, Cheyenes ou Apaches, seus tambores, carroções, aguardente vendida pelo bandido para incitá-los na luta contra os brancos, sem nenhum interesse nas terras.
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Estes meninos vibraram desde “O grande roubo do trem” (The great train robbery, 1903), que criou um novo e excitante gênero para o cinema. Sonhavam com William Farnum, Tom Mix, John Wayne, Gene Autry, Roy Rogers. Qual destes garotos não brincou de mocinho com seus revólveres, cartucheiras e espoletas a imitar armas de verdade, vendidas em lojas de brinquedos ou feitas em casa esculpidas em madeira? Estes filmes eram, em grande maioria, os chamados “B”, produções de baixo orçamento, considerados por muitos um subgênero. Todavia, grandes diretores criaram verdadeiros épicos, como John Ford. Deu status artístico ao faroeste com o clássico “No tempo das diligências” (Stagecoach, 1939), com John Wayne e o primeiro fotografado na imensidão do Monument Valley, no deserto do Arizona, que se tornaria sua locação favorita e usada em outros filmes. Foi um dos maiores e prolíficos cineastas do sistema de estúdios, com inúmeros filmes premiados. Para ficarmos somente nos seus faroestes, podemos citar ainda “Rastros de ódio” (The searchers, 1956), com Wayne, Vera Miles e Natalie Wood, considerado também um clássico e um dos maiores no gênero; “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, 1962), com Wayne e James Stewart, com a visão que poderia ser resumida em uma das frases finais do filme: “entre o fato e a lenda, imprima-se a lenda”, como a redenção da formação mitológica americana. Além destes, “Matar ou morrer” (High noon, 1952), de Fred Zinnemann, com Gary Cooper e Grace Kelly, e “Os brutos também amam” (Shane, 1953), dirigido por George Stevens, com Alan Ladd e Van Heflin, um clássico, filmado nas montanhas Great Teutons, Wyoming. Howard Hawks apareceu no gênero com “Rio vermelho” (Red river, 1948) com Wayne e Montgomery Clift. John Sturges, Michael Curtiz e tantos outros marcaram suas carreiras no gênero. Em todos os casos, era o oeste americano inventado pelo cinema, com raros filmes realistas e que ninguém queria ver. Mais ainda pela música, também uma invenção maravilhosa de Hollywood, com grande orquestra, timbres sustentados por metais, que nos transmite a ideia de espaço, amplidão, heroísmo. Aaron Copland, Elmer Bernstein e Jerome Moross foram mestres em temas para estes filmes.
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Mas, em meados dos anos sessenta, surge uma origem insuspeitada do faroeste. Conhecida como spaghetti, vinha da Itália uma safra de filmes, gerados nos estúdios Cinecittà. O mocinho não era mais o rapaz distinto dos velhos tempos. Violência, sujeira, música com temas mexicanos, tiros na face: os pistoleiros são gentalha imunda, não têm caráter. Como escreveu Almir Feijó, “porcaria subintelectual dos spaghetti westerns de Sergio Leone et caterva, que enterraram o gênero por quase vinte anos.” A crítica americana surrava estes filmes, também por se atreverem a invadir o sacrossanto território norte-americano dos filmes de faroeste, divertimento para os menos exigentes.

O gênero ressurge de tempos em tempos, como em “Os imperdoáveis” (Unforgiven, 1992), estrelado e dirigido por Clint Eastwood, que começou a carreira em faroestes para a TV e se tornou um astro com os spaghetti. É um ótimo exemplo de western noir, principalmente nos momentos finais, estrelado ainda por Gene Hackman e Morgan Freeman e ganhador de quatro Oscars, inclusive o de melhor filme. Mais recentemente, com ótimas incursões de Quentin Tarantino, o faroeste sobrevive. “Django livre” (Django unchained, 2012), com Jamie Foxx, Samuel L. Jackson, Leonardo di Caprio e música de Ennio Moricone, que presta referência aos spaghetti dos quais gostava; e “Os oito odiados” (The hateful eight, 2015), com Kurt Russel e Jennifer Jason Leigh, maravilhosamente fotografado em película 70 mm e lançado nos EUA também nesse formato (no Brasil, foi lançado em digital, perdendo muito da beleza fotográfica).

* No abre da matéria John Ford em Monument Valley, no deserto do Arizona, sua locação predileta, durante as filmagens de “Crepúsculo de uma raça” (Cheyenne autumn, 1964).

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