Preto banguela e curitibano

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cronica_valencio2(foto) Valêncio Xavier nasceu em São Paulo, em 1933, e mudou-se para Curitiba aos 21 anos. Foi diretor de cinema e televisão. Em terras paranaenses, trabalhou na TV Paranaense, atual RPC TV, e na atual CNT, antes TV Paraná. Dirigiu filmes como O pão negro – um episódio da Colônia Cecília e Os 11 de Curitiba, todos nós. Escreveu para jornais e revistas, como Nicolau, Revista USP e o caderno Mais! da Folha de S. Paulo. Aqui você confere um de seus trabalhos na literatura, o conto Preto banguela e curitibano.

O nome dele é claro que não era Mr. Jones, conhecido como Le Negre Joyeux du Cake-Walk.

O nome dele era Deusdeu de Oliveira, filho de dona Rosinha Lavadeira e de um pai cujo nome a história não guardou.

Quando nasceu Deusdeu, não sei e não se sabe; pressupõe-se que teria uns dezessete, dezoito anos, em 1893.

Enquanto morava em Curitiba tinha profissão de menino de recados, ou pretinho de recados, quando menino e, quando moço, moço de recados. Quando foi para Paris, França, sua profissão era artista dançarino de cake-walk. Lá também esqueceu Deusdeu, e passou a chamar-se Jim Jones, Mr. Jones de nome artístico.

Não tinha os dentes da frente, por isso podemos supor que seu apelido quando menino era Chico Banguela, pois ninguém ia chamar ninguém, principalmente um preto, de Deusdeu Banguela.

A parte da sua vida em Curitiba é toda de suposições. Mas podemos chegar a algumas conclusões, todas elas devidas a uma entrevista dada por sua mãe, dona Rosinha Lavadeira, ao notável escritor e ensaísta paranaense Newton Sampaio sobre Maria Bueno, a santa dos curitibanos, entronizada e venerada em seu altar no Cemitério Municipal, onde é a defunta mais visitada nas festas de finados.

Na entrevista zelosamente guardada nos arquivos da família Sampaio, Dona Rosinha afirma que conhecera Maria Bueno, de quem fora lavadeira. Supomos, pela entrevista, portanto, que Maria Bueno não seria lavadeira como seus crentes dizem: se não para que precisaria ela de uma lavadeira?

Também dona Rosinha diz que Maria Bueno morava no Beco do Escorrega. Sabemos que o Beco do Escorrega era conhecida zona do baixo meretrício, dos amores vendidos a dois tostões; nas casinhas de porta cortada ao meio, onde as prostitutas abriam a parte de cima como uma janela e de cotovelos na parte de baixo ficavam atraindo os fregueses com gestos obscenos.

Seria, pois, Maria Bueno uma prostituta, como afirmam os detratores.

Dona Rosinha conta que também lavava a roupa para as polacas e francesas, dos bordéis de mais luxo na famigerada rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen).

Conta ela que conheceu Maria Bueno numa Marujada na frente da Catedral, em que seu filho mocinho tocava bumbo. Marujada era uma festa popular natalina que acontecia na Curitiba de então. Fantasiados de marinheiro, os participantes desfilavam cantando e arrastando um carro alegórico em forma de navio até a frente da Catedral, onde continuava a folia até meia-noite, quando começava a missa do galo. Isso, é claro, antes de os imigrantes terem introduzido entre nós, curitibanos, o Natal europeu com Papai Noel e tudo o mais.

O historiador Ruy Wachowicz, em seu excelente estudo sobre Maria Bueno, levanta a teoria de que era ela umbandista – macumbeira como se dizia então. Isso explicaria o fato de que era proibido, e é proibido até hoje, que se rezem missas por Maria Bueno em qualquer uma das igrejas de Curitiba.

Ora, se Maria Bueno era macumbeira é de se supor que uma sua amiga tão íntima, como se dizia ser Dona Rosinha, também o fosse. E seu filho, sendo hábil tocador de tambor, a ponto de tocar na banda da Marujada, obviamente participaria como músico nas cerimônias de outra espécie de culto popular, esse de origem negra (a Marujada é de origem portuguesa), a macumba.

Naquele tempo não existiam em Curitiba tantos terreiros de umbanda e tantos umbandistas, de todas as classes sociais, como existem hoje – até mesmo descendentes de imigrantes que, como todos sabem, são quase sempre extremamente bem dotados para a música. Sendo assim, um músico negro de reconhecido talento, como Deusdeu, certamente seria figura de destaque na bandinha dos terreiros de macumba.

E se até a própria santa Maria Bueno foi macumbeira sabe-se lá se o Deusdeu também não foi um cavalo de santo, ou coisa parecida.

É claro que essas suas habilidades musicais muito o ajudaram a fazer sucesso como dançarino de cake-walk na Europa. Pode ser até que sua condição de umbandista tenha-o ajudado na sua turnê europeia. Os europeus são muito chegados às nossas bruxarias, tal como somos às deles, como gnomos, cristais, anjo da guarda, etc…
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Não se sabe como Deusdeu foi parar na Europa. A julgar por algumas notícias − tipo fofocas − que alguns jornais curitibanos deram no começo do século, diríamos que ele foi para Paris acompanhando uma das francesas que aqui ganhavam a vida nas casas da rua Ratcliff.

Sem citar nomes, as notícias contam do escândalo que armou um conhecido milionário industrial do mate ao descobrir que a prostitua francesa, sua manteúda, dividia seus carinhos com outro, e ainda por cima um negro banguela.

O industrial do mate deu violenta surra na francesa e expulsou-a do bordel, e da cidade. Naqueles tempos um industrial, ainda mais do mate (o mate era então o esteio da economia paranaense), tinha autoridade para tanto.

Suponhamos que Deusdeu tenha sido o amante da infeliz francesa. É óbvio que se ela o amava o teria levado consigo para Paris, para continuarem ali seus amores pecaminosos, causa maior da tragédia que ocasionou sua expulsão de Curitiba, cidade que a acolhera tão generosamente.

São suposições com os dados que temos. Mas o que é a História senão o resultado do conjunto de suposições levantadas dos dados reais pesquisados?

Sobre os começos da vida de Deusdeu em Paris nada sabemos. Sabemos apenas de seu estrondoso sucesso como Mister Jones dançarino de cake-walk.

O cake-walk é dança de negros americanos, que fez grande sucesso na França nos começos do século. Assim como fizeram o tango, o shimmy e o brasileiríssimo maxixe, durante algum tempo, até caírem no esquecimento. O francês, assim como o brasileiro, é cheio de manias musicais que surgem num estouro e desaparecem para sempre: que fim levaram o twist e o balancê?

Do sucesso de Deusdeu, Mr. Jones, sabemos pelos cartões-postais coloridos de grande circulação até 1904/1907, enviados para sua mãe (arquivo familiar Sampaio), e que ilustram este modesto trabalho. E mais alguns anúncios de seus espetáculos em jornais parisienses, e sua participação no filme Le Cake-Walk au Nouveau Cirque, dos Irmãos Lumière (S/D, acervo Cinemateca Francesa).

Nada mais sabemos de sua vida e sua morte. Apenas que deve ter ganho muito dinheiro em sua carreira na Europa, pois nos cartões-postais de Mr. Jones Deusdeu aparece sorrindo com uma bela dentadura que deve ter mandado fazer, a peso de ouro, por fino dentista parisiense. Ouro que não conseguia ganhar em Curitiba.

É preciso que se pesquise mais sobre a vida e obra desse importante artista paranaense. Que se reúna material e se faça um museu sobre ele, assim como existem museus Guido Viaro, Alfredo Andersen, De Bona e João Turin.

É preciso preservar a memória desse negro de alma branca e dentadura branca, o curitibano Deusdeu de Oliveira.

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