Chô, Urubu

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Rubem Braga foi um dos melhores cronistas brasileiros. Iniciou sua carreira no jornalismo ainda estudante, aos 15 anos. Em Recife, dirigiu a página de crônicas policiais do Diário de Pernambuco em 1932. E em 1936 lançou seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho. Agora você confere umas das hilariantes e divertidas crônicas deste escritor que tanto registrou seu talento na história da literatura do Brasil.

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Um cidadão de Porto União (Santa Catarina) foi dar um passeio em União da Vitória (Paraná). As duas cidades são uma só cidade cortada ao meio pela divisa. Em União da Vitória, o cidadão morreu de repente. Depois das lágrimas e lamentações da praxe, ele foi posto dentro de um caixão. Formou-se o cortejo para levá-lo até o cemitério da sua cidade, ali do outro lado da fronteira, em Porto União. Quando o cortejo ia transpondo a linha de limites teve de se deter. Em sua frente estava um funcionário fiscal paranaense. Esse digno fiscal queria que lhe pagassem a taxa de dez mil réis. Várias pessoas protestaram. O fiscal obtemperou que estava cumprindo o seu dever. Não podia permitir que o defunto saísse do território do Estado do Paraná sem pagar a taxa de 10 mil réis. Todos, entretanto, se negaram a pagar, alegando que defunto não é artigo de exportação. Quanto ao próprio defunto, manteve-se firme. Não puxou dinheiro nem deu uma palavra. Conservou-se dignamente como um defunto, perfeitamente duro, esticado no seu caixão. Os homens quiseram avançar. Mas o fiscal ergueu os braços. Não. Do Paraná não saía o cadáver de contrabando! Não houve remédio. Um dos homens puxou uma pelega de 10 e a entregou ao fiscal. Assim o defunto foi posto em território catarinense – e por felicidade não apareceu nenhum fiscal de Santa Catarina para cobrar direitos de entrada.

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De tudo se conclui que há neste país uma grande estimação pelos defuntos. As unidades federativas os recebem livres de direitos e se esforçam para retê-los, cercando a fronteira com fiscais.

Eu, por mim, não sou de Porto Alegre. Se por acaso morrer aqui e quiser ser enterrado na minha terra, terei de atravessar cinco fronteiras para atingir o meu cemitério natal – ou, melhor, o cemitério de minha terra natal. Seriam, só de taxas, 50 mil réis. Como sou homem de boa estatura e regular peso, creio que o frete ficaria caro. Assim sendo, aproveito a oportunidade para avisar que não faço questão. Podem me enterrar perfeitamente em um cemitério qualquer de Porto Alegre. Tenho me dado muito bem com os vivos desta cidade; creio que não me daria mal com os defuntos locais. De resto eu preferia que no lugar de me enterrar me cremassem. Ao invés de ir apodrecer vilmente embaixo do chão eu seria transformado em suave cinza e espalhado aos ventos. E nas asas do vento eu voaria disperso. Talvez partículas de meu ser voassem languidamente pela rua da Praia atrás de alguma doce e linda mulher. Talvez as outras se espalhassem por longas terras do Brasil… E passassem imperceptíveis por todos os fiscais de todas as fronteiras e fossem dançar invisíveis em volta de lugares onde lutei e amei, pousando em mãos de amigos, em cabelos de mulher. Algumas iriam até a minha terra natal. Esvoaçariam entre os galhos do velho pé de fruta-pão, subiriam numa curva suave até a caixa-d’água, até o cajueiro, e desceriam para os fundos da casa. Talvez passassem pelo tanque e entrassem na cozinha. Haveriam de parar um pouco na copa ouvindo os canários-belgas. Depois invadiriam a velha sala de jantar, sobre a grande mesa hoje quase vazia, e bailariam alegremente em volta de uma criança. Pode ser que entrassem no quarto maior e procurassem ali, em uma cadeira de balanço, uma pequena mulher morena de cabelos brancos, e pousassem em sua testa cansada como um beijo leve. Depois… Bem, vamos parar por aqui. Que soltem minhas cinzas aos ventos, e elas saberão onde ir. O diabo que as carregue. O essencial é que não paguem imposto. Oh, senhores do fisco, oh invulneráveis, oh intransponíveis senhores, taxai, taxai os vivos. Mas encolhei as vossas garras – oh insaciáveis senhores! – perante a pobre carne amarelada dos defuntos. Chô, urubu, chô, urubu!rubem_3_urubu

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