Editorial. Ed. 198

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Os políticos correm para tentar garantir um mandato e a sua permanência no jogo político. Nesta hora de leilões e troca-troca, em espetáculo deprimente na janela da infidelidade, vale tudo. O custo é astronômico. E quem paga, mais uma vez, somos nós, os contribuintes.

A reforma política não saiu. De importante, aprovou-se apenas o financiamento público das campanhas, o que não elimina o caixa dois, como observam os próprios ministros do Supremo.

Também não deve existir esperança em grande renovação. Os que estão na disputa e têm chances de chegar são os mesmos. Prova de nossa pobreza de lideranças. É até um tanto cômico. Fala-se do novo, do outsider, há discursos de mudanças. Mas 24 anos depois da primeira vitória de Fernando Henrique Cardoso sobre Luiz Inácio Lula da Silva, o ativismo dos dois ex-presidentes é um dos poucos tônicos que animam a política. Para o bem ou para o mal.

Ambos são as vozes mais presentes no momento. Lideram a audiência em eventos, entrevistas, e no digladio enfadonho das redes sociais. Lula, em exercícios tortuosos para manter seus fiéis, evitar a prisão e sustentar sua candidatura ameaçada pela condenação em segunda instância. E FHC, na tentativa de sacudir um centro apático, não raro volátil, que jura honrar princípios humanistas e por vezes flerta com a direita irracional.

O mesmo se dá no quadro político da província. Todos os candidatos majoritários são velhos conhecidos na política. Exerceram cargos máximos de governador ou senador, ocuparam secretarias, alguns caminham para terminar a carreira política à beira dos 90.

Tomemos o exemplo de Requião, que não sabe se será candidato a governador ou senador. Espera que a Lava Jato apeie todos os outros candidatos para tentar o quarto e quinto mandatos de governador.

Na República, FHC assusta correligionários quando se antagoniza com o mercado ou defende a descriminalização da maconha. E deixa seus pares tucanos enfurecidos com ações como a de apoio explícito à candidatura do apresentador Luciano Huck, abortada antes de existir.

Pré-candidato e com menor espaço de manobra depois de ser condenado a 12 anos e um mês por corrupção, Lula vai no caminho inverso. Praticamente só fala de si. De sua coragem, sua inocência, sua força, sua disposição para a briga. Os demais agentes políticos – seus companheiros e até o golpista e agora corajoso presidente Michel Temer – só entram no discurso quando se encaixam na realidade paralela de Lula.

De fala fácil e grande habilidade para envolver o interlocutor, foi assim que Lula agiu nas duas entrevistas exclusivas que concedeu em menos de 24 horas para a France Press. As entrevistas tiveram pouco em comum além da alegação de inocência. Lula falou de futebol, das chances do Brasil na Copa da Rússia, dos conselhos ofertados a Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Talvez para não virar chacota internacional, não deu um pio quanto ao delírio conspiratório de interferência dos Estados Unidos em sua condenação.

Pois, pois, é o que temos. Nada de novo. Tudo requentado, nenhuma proposta nova, discursos da esquerda populista recuam à década de 50 do século passado, os da direita de Bolsonaro e assemelhados vão carregados de moralismo chinfrim e ameaças de violência e atentados à liberdade. Essas teses requentadas correm soltas nos blogs de aluguel, nas redes e nas bocas de pregadores das igrejas de Lula e de Bolsonaro.

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