O Haiti é aqui

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Ao ver o colégio onde trabalhava transformado em destroços, Rony Rémy sabia que o futuro no Haiti era incerto. A escola, que pertencia ao seu irmão, tinha virado pó. As esperanças de uma vida melhor em sua terra natal estavam por um fio. Durante quatro anos, ele tentou seguir a vida ao lado da família. Mas a situação era calamitosa. O terremoto de 7 graus na escala Rich ter registrado às 16h53 do dia 12 de janeiro de 2010 transformou a vida de Rony e de outros milhões de haitianos.

Após o sismo, ao menos 316 mil pessoas morreram. A organização humanitária Cruz Vermelha estimou em 3 milhões o número de pessoas afetadas pelo terremoto. Diante de tamanho impacto e da demora em ver a situação melhorar no Haiti, Rony começou a pesquisar lugares para recomeçar a vida. Até que em 2014, após se informar com amigos e conhecidos que já tinham emigrado do Haiti, ele decidiu usar as economias do salário de professor e seguir para o Brasil.

Rony Rémy ficou dois anos longe da esposa. Hoje mora com ela em Curitiba e leciona aulas particulares de francês. Diego Antonelli

Rony Rémy ficou dois anos longe da esposa. Hoje mora com ela em Curitiba e leciona aulas particulares de francês. Diego Antonelli

Fez de tudo um pouco, chegou a ser educador social em uma instituição na Região Metropolitana da capital, mas abandonou o trabalho formal para seguir sua vocação. Está cursando o segundo ano de Pedagogia na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, gradativamente, retomando a profissão que foi obrigado a abandonar quando viu as ruínas da escola onde trabalhava. Rony passou a trabalhar lecionando francês para alunos particulares. “Estou seguindo e retomando meu caminho. Eu sou professor”, afirma.

Rony é um dos quatro mil haitianos, estimados pela Associação para a Solidariedade dos Haitianos no Brasil, que vivem atualmente em Curitiba e Região Metropolitana – em todo o Paraná, o número gira em torno de cinco mil. Sua esposa chegou ao país em 2016. Formalizaram a união e hoje são pais de Rose Laure, de apenas cinco meses.

Essa é apenas uma das sagas dos imigrantes haitianos que se viram forçados a deixar família, hábitos culturais, idioma, casa, enfim, uma vida inteira para trás. Foram obrigados a aprender uma nova língua – lá no Haiti se fala francês e creóle – para conseguirem se virar. Tiveram que realizar trabalhos que nunca tinham executado. Viram-se na obrigação iminente de se adaptarem a uma nova cultura e a um modo de viver completamente diferente. “Antes de vir, eu pesquisei quanto era o salário mínimo, como eram os trabalhos oferecidos aos imigrantes e comprei um dicionário para chegar já falando um pouco de português”, comenta Rony.

Razões
Segundo as pesquisadoras Leda Maria Messias da Silva e Sarah Somensi Lima, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), o desastre do terremoto veio apenas para aumentar os danos que já existiam no país. “Antes do terremoto, o povo haitiano já sofria com o sistema insuficiente de saúde pública, a infraestrutura era precária e os serviços não eram gratuitos. Poucas pessoas tinham acesso aos cuidados médicos e, segundo uma pesquisa, 67% da população não tinha acesso ao sistema de saúde. Depois do terremoto, o que era ruim ficou ainda pior, quando cerca de 60% das estruturas médicas foram destruídas. Nove meses após o terremoto, veio o surto de cólera, matando 4 mil pessoas nas primeiras semanas e deixando mais de 400 mil pessoas infectadas”, relatam.

Com o terremoto, 1,5 milhão de pessoas perderam suas casas e muitos haitianos vivem até hoje sem saneamento básico, sem coleta de lixo e moram em acampamentos. “Depois do terremoto, algumas empresas faliram, acarretando, assim, em aumento do desemprego”, completam Sarah e Leda.

As pessoas ficaram em condições precárias de sobrevivência e perderam a força para seguir adiante em terras haitianas. “Por conta disso tudo, resolveram juntar suas economias e vir para o Brasil para tentar recomeçar. A intenção desses imigrantes era de trabalhar e ajudar seus familiares. Diante de tudo o que já passaram, tanto no Haiti quanto na vinda para o Brasil, é imprescindível que sejam adotadas políticas no país que possam garantir o mínimo de dignidade para esses imigrantes, pois estes são, acima de tudo, seres humanos”, ressaltam as pesquisadoras.

Os números de haitianos que deixaram o país
O volume de haitianos que deixou o país em busca de melhores condições de vida aumentou consideravelmente após o trágico terremoto. De acordo com um cálculo feito a partir das estimativas das Nações Unidas, a proporção de haitianos morando fora do seu país de origem em 2010 era de 9,9% em relação ao total de haitianos (incluindo os que moram no Haiti) e teria passado a 10,1% em 2015. Isso equivale a um aumento de 103.215 haitianos morando fora do Haiti.

Além disso, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), estima-se que o número total de pessoas em condições de refúgio ou semelhante provenientes do Haiti tenha saltado de 33.097 em 2010 para 73.094 em 2014.

De acordo com Wagner Oliveira, mestre em economia e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil foi um dos principais destinos dos haitianos a partir de 2010 – ano do fatídico terremoto. “Se observarmos os mesmos dados do ACNUR, vemos que o número de haitianos que entraram no país sob condição de refúgio ou similar saiu de sete em 2009 para 595 em 2010, chegando, em 2014, a 29.241”, relata.

Todavia, esse número é, provavelmente, menor do que o conjunto de todos os haitianos que, de fato, passaram a ter o Brasil como residência. “Se analisarmos apenas o mercado formal de trabalho, vemos que o número de registros de haitianos com carteira assinada chegou a 30.484 em 2014, dos quais 29.799 com ano de chegada a partir de 2010”, exemplifica.

Segundo estimativas mais recentes divulgadas pelo governo federal, existem no Brasil cerca de 80 mil imigrantes haitianos que ganharam a concessão de visto humanitário ou estão em processo de residência permanente.

“O que explica a emigração de haitianos é um conjunto de vulnerabilidades: instabilidade política, mazelas sociais e econômicas e catástrofes ambientais frequentes”, reforça o pesquisador Oliveira.

Aulas de português
A língua corrente da grande maioria da população haitiana é o créole. O outro idioma oficial é o francês. Para facilitar o convívio social dos haitianos que moram no Paraná, algumas instituições oferecem aulas de português aos imigrantes.

Grupo de haitianos tem aulas de língua portuguesa em projeto municipal. Everson Bressan/SMCS

Grupo de haitianos tem aulas de língua portuguesa em projeto municipal. Everson Bressan/SMCS

Uma dessas instituições é a Universidade Federal do Paraná (UFPR), por meio do projeto “Português Brasileiro para Migração Humanitária”, organizado pelo Curso de Letras e pelo Centro de Línguas e Interculturalidade (Celin).

Também é ofertado o curso instrumental de Língua Portuguesa oferecido por meio do projeto Haiti, da Secretaria de Educação de Curitiba. Em quatro anos, o programa, de acordo com dados da prefeitura, já beneficiou aproximadamente 470 haitianos.

Visto humanitário
A solicitação e autorização de vistos para nacionais haitianos pelo governo brasileiro está amparada pela Resolução Normativa (RN) n.º 97, de 12 de janeiro de 2012, do Conselho Nacional de Imigração (CNIg), que “dispõe sobre a concessão do visto permanente previsto no art. 16 da Lei n.º 6.815, de 19 de agosto de 1980, a nacionais do Haiti” .

A concessão tem caráter humanitário e se deve às dificuldades enfrentadas por esse país em decorrência do terremoto de 2010 e das subsequentes crises humanitárias que se desdobraram.

Aspectos religiosos

Haitianos durante evento para receber certificados do Projeto Haiti Levy Ferreira/SMCS

Haitianos durante evento para receber certificados do Projeto Haiti
Levy Ferreira/SMCS

As filiações religiosas mais praticadas pelos imigrantes haitianos são o catolicismo e o protestantismo. Curioso que o voduísmo – religião legal no Haiti – é pouco comentando pelos imigrantes. Segundo Berthony Pierre, o vodu, mesmo sendo um hábito cultural do país, é praticado de forma mais velada no próprio Haiti. “As pessoas, em geral, não falam muito que o seguem”, comenta o imigrante.

O mesmo é relatado por RonyRémy. “As pessoas praticam. Mas nem sempre é de forma aberta”, explica.

Segundo a base de dados da CIA (órgão de inteligência dos EUA), em dados citados em uma reportagem da agência de notícias BBC, metade da população haitiana pratica o vodu, embora 96% se digam cristãos. O culto, levado ao país por africanos escravizados, tem parentesco e grande similaridade com as principais linhagens do candomblé do Brasil.

Pierre, o artista
Berthony Pierre é um artista. Um artista que já foi segurança de loja, atuou em fábrica de fogão a gás, trabalhou em transportadora e hoje se dedica ao seu sonho: cantar. Já tem até canal no Youtube cantando músicas sertanejas e em kompa, ritmo haitiano parecido com o merengue.

Berthony Pierre era repórter de rádio no Haiti e hoje se dedica a manter a cultura haitiana viva em Curitiba. Diego Antonelli

Berthony Pierre era repórter de rádio no Haiti e hoje se dedica a manter a cultura haitiana viva em Curitiba.
Diego Antonelli

Pierre está no Brasil há seis anos. Morou em Manaus, por sete meses, Pato Branco, por seis meses, e depois migrou para Curitiba. Hoje ele é vice-presidente da sede paranaense da Associação para a Solidariedade dos Haitianos no Brasil. Ao vir para cá em busca do sonho de uma vida melhor, Pierre deixou no Haiti a filha de nove anos. “Não vejo a hora de ver minha filha pessoalmente”, conta. Hoje o contato é apenas virtual.

Ele, que era repórter de rádio no Haiti, pensa em cursar Jornalismo no Brasil. Além disso, está planejando montar, via Associação, um centro cultural para fomentar e estimular a preservação da cultura haitiana no Paraná. “Quero montar algo para que a nossa cultura seja mantida por quem mora aqui”, afirma.

Mas por enquanto está focado no lado cultural. Além de cantar em bares pela noite curitibana, está montando uma agência de viagem e ainda planeja abrir um bar temático em terras curitibanas. “Trabalhei em um monte de função que não era o que eu sabia fazer. Agora estou buscando o meu caminho para uma vida melhor, trilhando meus passos”, conta Pierre, que aprendeu a falar português sozinho.

Hoje ele considera Curitiba sua casa, mas já passou por olhares preconceituosos e sofreu com a ‘sisudez’ do paranaense. “O pessoal daqui é mais fechado, mas tem muitas pessoas que ajudam a gente. Não posso reclamar de nada. Sobre preconceito, a gente percebe uma coisa ou outra, um olhar mais desconfiado, mas isso quem tem que julgar é Deus”, sentencia.

 

Monumento inaugurado em 12 de janeiro de 2011, um ano após o terremoto, em homenagem aos militares mortos em Porto Príncipe, capital do Haiti Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Monumento inaugurado em 12 de janeiro de 2011, um ano após o terremoto, em homenagem aos militares mortos em Porto Príncipe, capital do Haiti
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

 

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