O imponderável se chama Lava Jato

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Os políticos têm frouxos intestinais quando ouvem falar na Lava Jato, Sergio Moro ou Deltan Dallagnol e Castor de Mattos 

É muito difícil desenhar o quadro político do Paraná. Há um fator imponderável que pode, a qualquer momento, mudar a ordem dos fatores, desmanchar alianças, enviar políticos para o limbo ou para a cadeia. O imponderável tem nome. Chama-se Lava Jato. Tem mentor. Chama-se Sergio Moro, mas também pode se chamar DeltanDallagnol ou Diogo Castor de Mattos, dois procuradores da República empenhados em pôr na prisão todos os políticos corruptos, seus sócios empresários, executivos envolvidos em falcatruas nas estatais e na iniciativa privada. Vão faltar celas para tanta gente. Toda vez que eles se movimentam com sucesso, muda o quadro político.

imponderavel_1_grupo1Um exemplo recente. A empreiteira paranaense J Malucelli, uma das integrantes do consórcio bilionário da usina de Belo Monte, no Pará, pagou propinas para favorecer o empreendimento, entre elas a de R$ 173 mil para um sobrinho do ex-ministro Delfim Netto, Luiz Appolonio Neto. A empresa é de Joel Malucelli, que, além de empreiteira e negócios na área de energia, é banqueiro e dono de uma rede de comunicação. Nada mais, nada menos, que o empresário mais rico do Paraná, que nas horas vagas se dedica ao futebol e à política. É suplente de Alvaro Dias, do Podemos, no Senado. Presidente do Podemos no Paraná.

Coincidência ou não, no dia seguinte veículos de circulação nacional requentaram antigo processo contra Alvaro Dias, em que ele é acusado de ter recebido propina para favorecer o fim da CPI do Cachoeira. Pergunta que não quer calar: Alvaro Dias passou a incomodar adversários também candidatos à presidência da República? Sem dúvida. Na última pesquisa divulgada, ele está à frente de Geraldo Alckmin, pré-candidato tucano, poderoso governador de São Paulo, e tira votos de todos os candidatos que tentam ganhar o centro para enfrentar os das extremas que hoje ponteiam a disputa: o direitista Jair Bolsonaro e o populista Lula da Silva que, candidato ou não, terá papel nesta eleição.

Nada ainda definido
O PT foi para o brejo. Mas seu líder populista e messiânico, Lula, respira e tem a simpatia de uma fatia expressiva de brasileiros. No mesmo dia em que o STJ lhe negou um habeas corpus preventivo, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a notícia de que mantém a liderança em todos os cenários eleitorais em que seu nome aparece como candidato à Presidência da República.

imponderavel_6_bolsonaroNa sondagem de intenção de voto estimulada para a Presidência, Lula soma 33,4%, Bolsonaro ocupa a segunda posição, com 16,8%, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), aparece com 6,4%. Brancos e nulos somam 18,2% e indecisos, 6,4%. O deputado Jair Bolsonaro lidera as intenções de voto nos cenários em que Lula não é candidato.

Na sondagem de intenção de voto espontânea para a Presidência, Lula soma 18,6%. Bolsonaro ocupa a segunda posição, com 12,3%, seguido de Ciro Gomes (PDT), com 1,7%, e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), com 1,4%. Nesta, o senador Alvaro Dias (PODE-PR) alcança 1,2% na pesquisa estimulada, o mesmo patamar obtido por Marina Silva (Rede), seguidos do atual presidente Michel Temer, com 0,4% das intenções de voto.

imponderavel_3_lulaPesquisa passada, publicada em setembro, apontava Lula com 20,2% dos votos nas respostas espontâneas, seguido por Bolsonaro, com 10,9. Agora vejam bem: brancos e nulos neste cenário estimulado somam 20,4%, enquanto os indecisos chegam a 39,7%. Ou seja, a maioria absoluta ainda não decidiu em quem vai votar. A sondagem foi realizada entre 28 de fevereiro e 3 de março, em 137 municípios, com 2.002 entrevistados. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06600/2018 e a margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

Lá como cá
No tabuleiro estadual, repete-se a situação. Tudo depende de quem se salvar da Lava Jato ou de outras pendengas baseadas em denúncias de corrupção. Esse é o medo de alguns e a esperança única de outros, que querem entrar na roda e precisam antes tirar quem lhes ocupa o espaço. Há três candidatos fortes ao governo: Ratinho Jr, Osmar Dias e CidaBorgheti. Todos nos movimentos preparatórios, mas já dando sinais de que vão pesar a barra. A campanha curta por causa da Copa do Mundo de Futebol vai tornar a disputa uma guerra capaz de repetir todas as manobras sujas conhecidas e outras que se inventam agora na era da internet e das redes sociais.imponderavel_4_grupo2

Especulações sobram e não falta quem as faça para favorecer este ou aquele candidato. A boataria nos bastidores é infernal. Os nomes de Moro, Dallagnol e Castor de Mattos provocam arrepios e suor frio nas mãos dos políticos nativos.

O certo é que as operações de combate à corrupção acabaram com o PT no Paraná. As denúncias contra Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, o casal que dominava a cena petista no Estado, foram devastadoras. Além de providenciar ficha suja para uma penca graúda de membros da legenda, muitos dos que ainda estão ilesos trataram de mudar de sigla. O único que fez o trajeto inverso foi o senador Requião, que passou a defender Lula, o PT, Gleisi e até Bernardo, que um dia ele acusou.

Mas Requião é assim mesmo e ele anda de mal com a política e a política retribui. Está de mal com ele, que vive um isolamento de Robinson Crusoé. Ninguém quer fazer aliança com o bruto. Sempre atiçado pelo seu soturno Belzebu, vai distribuindo cacete aos políticos de todas as cataduras.

“O cinco estrelas é o bolsonarismo irrefletido na Itália. Surge forte nas eleições porque os partidos e seus políticos são uma merda. É o preço da submissão da política ao capital financeiro. Surgem os vândalos!”, diz o Duce das Araucárias.

O processo poderia ser diferente, mais civilizado, como quer o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que prega no deserto. “A democracia, além de ser um modo de determinar quem ascende ao poder e por quanto tempo, de definir que o povo é soberano e, portanto, os eleitores escolhem quem manda, supõe uma cultura de convivência. Nesta se aceita como legítima a diversidade de pontos de vista, respeitadas a Constituição e as leis, e também se aceita a possibilidade de quem pensa de um jeito vir a pensar de outro. Noutros termos, na luta política há adversários, não gladiadores prontos a matar inimigos”, afirmou.

imponderavel_2_malucelli_alvaroMas é ilusão acreditar que teremos algo mais próximo das regras vigentes em países em que a civilização pegou. Ele mesmo reconhece: “Infelizmente se está criando no Brasil uma cultura da intolerância. E assim em outros países, como em alguns europeus e nos Estados Unidos. Estamos vendo o renascimento da xenofobia, o horror ao ‘estrangeiro’, ao diferente. Entre nós os ânimos políticos também andam cada vez mais acirrados, tratando as diferenças como inimizades. Por temperamento e convicção, procuro me comportar dentro das regras da civilidade democrática. Busco ouvir e respeitar não só os ‘nossos’, mas os ‘outros’. Ouvir não quer dizer concordar, mas prestar atenção ao ponto de vista do interlocutor.”

Com o nosso dinheiro
Nosso sistema político-eleitoral favorece todas as falcatruas, todos os vícios. E o espetáculo emblemático de quadro horrível é a janela de trocas de partidos. A garantia de financiamento de campanha preside as negociações da “janela” que permite a deputados federais trocar de partido sem o risco de perda de mandato. Os deputados estão sendo aliciados por outros partidos com a garantia de financiamento integral de sua campanha de reeleição. O valor é o limite máximo de R$ 2,5 milhões para campanha de deputado federal, definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além do fundo partidário de R$ 1 bilhão, os partidos retirarão ao menos R$ 1,7 bilhão dos cofres públicos para financiar a campanha deste ano. Pelo critério definido no Congresso e avalizado pelo TSE, o povo é que vai pagar campanhas de tipos que frequentam as páginas policiais. As direções de partidos medianos como PP, PR e PTB decidiram priorizar a eleição do maior número possível de deputados, este ano. Trata-se de uma questão financeira: o número de deputados federais é um dos principais critérios para definir a fatia no fundo partidário.

Vai até 7 de abril o leilão eleitoral que deve arrematar mais de 50 dos 513 deputados federais e uma centena dos 1.024 estaduais do país. Ainda que amparado por lei, aprovada pelos próprios beneficiários no ano passado, o troca-troca é um dos absurdos do sistema brasileiro. Um desrespeito desmedido ao eleitor.

E não é o único: somam-se a ele os fundos públicos (o eleitoral, de R$ 1,7 bilhão, e o partidário, de R$ 888 milhões), o privilégio para os ricos, que poderão empenhar suas fortunas pessoais na campanha, o conto da carochinha de que o caixa dois foi excluído com o advento do financiamento do Tesouro. E ainda a permissão para coligações de conveniência ou os olhos vesgos para os palanques antecipados – sabe-se lá custeados por quem –, visíveis a olho nu e sem qualquer punição.

A janela da infidelidade, que há dois anos mexeu com a filiação de 90 deputados federais, é um escândalo. Contraria o princípio da proporcionalidade, critério pelo qual, goste-se ou não, os parlamentares são eleitos. Por ele, candidatos com poucos votos chegam ao Olimpo puxados por campeões, e votos conferidos só à legenda contam para aumentar a bancada do partido.

A família e apoiadores do deputado-candidato Jair Bolsonaro inauguraram a janela 2018, levando sete parlamentares para o minúsculo PSL, que pulou de três para 11 deputados e imagina fechar a vidraça com pelo menos 20. O DEM elegeu 31 federais em 2014, tem 33 e sonha entrar abril com 45. O PR quer pular dos atuais 37 para 42, e o PP, hoje com 45, sete a mais do que elegeu há quatro anos, imagina chegar a 60 deputados.

As perdas devem sobrar para o PT e o PSDB, que de 2014 para cá já viram suas bancadas serem reduzidas de 68 para 58 e de 54 para 46, respectivamente.

Política dá nojo
Diante disso, não há como entusiasmar o eleitor que não quer saber de política. “Política dá nojo”, dizem. Deverá decidir seu voto na reta final. Pudera, o presidente da República respira por aparelhos. Ministros da Corte Suprema metem o bedelho onde não devem. Parlamentares empenham-se em escapulir da Lava Jato, em fazer leis para surrupiar mais dinheiro do contribuinte e garantir caixa de campanha. Difícil imaginar saídas para um país que agoniza em condições tão lastimáveis. Muito menos quando os “salvadores” em campanha antecipada são o mesmo do mesmo. Até aqueles que se acham diferentes.

imponderavel_5_grupo3Há de tudo. Os piores políticos que fazem joguete com a candidatura à Presidência da República em 2018, à qual se lançam a todo vapor, fingindo não postular a indicação para disputar o cargo. Ainda fazem pose ao lado daqueles que estão prontos para trair. Olha o caso de Alckmin. Ele não pretende encarnar o novo. Nem poderia. Mas incrementou sua agenda de viagens a outros estados e tem feito esforços para mostrar exatamente o inverso do que pregava quando inventou o seu pupilo para a prefeitura paulistana: tenta disseminar que faltaria a Doria o atributo experiência que ele, em seu terceiro mandato como governador de São Paulo, exibe.

Jair Bolsonaro (PSC-RJ), deputado federal desde 1991, também se imagina fora do grupo dos “famigerados” políticos profissionais. Com discurso moralista, próximo ao fascismo, faz a alegria da extrema direita e pratica com o dinheiro público o que critica: tem usado a cota de representação parlamentar para custear a sua pré-campanha, algo, para dizer o mínimo, ilegal.

Marina Silva (Rede), que se enxerga acima do bem e do mal, mas que costuma se esconder quando o caldeirão ferve, aparece na TV pregando a “operação lava-voto”, entregando-se à pegadinhamarqueteira. E Ciro Gomes (PDT) abusa de sua língua ferina na luta para virar notícia, ainda que esteja discursando para plateias de meia dúzia.

Empoleirado em palanques, Lula está em campanha desde sempre. E lidera todas as pesquisas eleitorais nas duas pontas – maior preferência e maior rejeição. Mas consegue reunir cada vez menos gente em torno dele. Até no Nordeste, onde o PT esperava torcidas maiores e mais comprometidas para a caravana reeditada que o ex começou na semana passada, Lula brilha menos do que o PT e ele próprio imaginavam.

No discurso, repete a cantilena, sempre na terceira pessoa, de que todos estão contra Lula, as elites e a mídia. E se supera na egolatria. No passado se comparou a Jesus; agora, no interior da Bahia, aos deuses da bola: o argentino Messi, do Barcelona, e Neymar, nesse caso ao assegurar que terá protagonismo nas eleições de 2018 mesmo se for impedido pela Justiça de disputar o pleito. “Serei o cabo eleitoral mais valioso deste país – como o Neymar está para o PSG, eu estarei para as eleições de 2018”.

Anda-se para trás
Pode até ser, embora os fatos apontem o inverso. Na primeira partida que disputou com a camisa do PSG, Neymar jogou um bolão e marcou contra o Guingamp. Já Lula estreou com derrota do candidato petistaJailson Souza nas eleições suplementares na pequena Miguel Leão, interior do Piauí, para quem o ex gravou vídeo de apoio. Foi um desastre.

A pulação de galho em galho sempre foi uma excrescência, mas hoje a barganha é ainda mais desavergonhada. Até 2014, a corrida atrás dos deputados de outras siglas se dava, basicamente, para ampliar segundos no horário de propaganda eletrônica dito gratuito. Não raro – e nada garante que não se repetirá – utilizavam-se também coligações com partidos de aluguel para satisfazer a mesma cobiça.

Agora, além do rádio e da TV, o argumento é dinheiro vivo de fundos pagos por todos os brasileiros – R$ 1,5 milhão ofertam o PT, PMDB e PSDB, R$ 1,8 milhão a R$ 2 milhões cobre o PTB, R$ 2,5 milhões grita o DEM. Lances feitos e administrados diretamente pelos donos dos partidos.

Em pleno século XXI, o Brasil caminha firme e forte para institucionalizar o coronelismo. Só terá dinheiro na campanha eleitoral quem o chefe mandar. Ou os ricos e muito ricos, o que no eslomismoperoes igual. Só o eleitor, negando votos aos oportunistas, pode consertar esse descalabro.

Muitos de nossos políticos parecem viver em realidade paralela. E os demais candidatos em campanha, todas elas personalistas, também não trazem qualquer alento ao eleitor e ao país. Repete-se a mesmice. Ou pior, anda-se para trás.

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