Percepção microscópica do real

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No aconchegante bistrô Café Tiramisù, no Museu Guido Viaro, em Curitiba, o escritor Marcio Renato dos Santos lançou A certeza das coisas impossíveis, seu sétimo livro de contos — evento realizado no dia 3 de março deste ano. Com a simpatia que lhe é peculiar, o escritor recebeu calorosamente muitos amigos, familiares e escritores. A presença do escritor Cristovão Tezza, uma referência nacional, chamou a atenção do público — sinalizando o prestígio da literatura de Marcio Renato dos Santos, destaca o jornalista Aroldo Murá.

CristovãoTezza marca presença no lançamento de A certeza das coisas impossíveis

Cristovão Tezza marca presença no lançamento de A certeza das coisas impossíveis

Além de Tezza, estiveram lá os escritores Andrey Luna Giron, Antonio Cescatto, Carlos Machado, Cezar Tridapalli, Guido Viaro, João Lucas Dusi, Luiz Rebinski, os jornalistas Aroldo Murá, Felipe Kryminice, Katia Kertzmann, Omar Godoy e Walter Schmidt, o desenhista Simon Taylor, entre outros. Estive lá, representando os escritores da Academia de Letras dos Campos Gerais.

Entrar em contato com a prosa de Marcio Renato dos Santos é uma experiência inesquecível. Ele escreve bem, basta? Ele escreve muito bem; tem dicção única. Publicado pela Editora Tulipas Negras, em edição esmerada, A certeza das coisas impossíveis é composto de 11 narrativas saborosas nas quais o autor seduz o leitor com uma prosa ágil, perturbadora e permeada de uma criticidade incisiva.

Logo na epígrafe destinada à abertura da obra, fica claro o quanto essa busca será uma aventura de uma escrita em se tornar algo para além das palavras: “As coisas não existem. O que existe é a ideia melancólica e suave que fazemos das coisas.” (Hilda Hilst)

Por meio de uma linguagem que entremeia o cotidiano, o ramerrão da vida diária, a subjetividade das personagens e dos tempos narrados remonta um crescente interesse em questões sociais mais amplas, transmutando, entretanto, em uma penetração cada vez mais aguda de uma percepção microscópica do real. Uma estrutura enigmática a estimular a invenção ficcional para além da representação de uma suposta realidade advém desse petitpavê, tão típico de uma Curitiba mais que latente, calçamento de relações entre o real e o irreal conformando uma insólita tapeçaria de relações humanas. Tal condição se verifica, exemplarmente, na engenhosidade de “Vertigo [passo a passo]” e “Um episódio na ex-quinta comarca”.

Marcio Renato dos Santos e Luísa Cristina do Santos Fontes no Café Tiramisù

Marcio Renato dos Santos e Luísa Cristina do Santos Fontes no Café Tiramisù

Sua literatura, à certa semelhança daquela de Dalton Trevisan, uma referência no gênero — além das personas Marias, Ritas e Joões, aqui há o Xarlí, o Coronel, o Fulano —, também pode ser considerada como ética, posto que existem princípios ontológicos que se sobrepõem às personagens, causando-lhes os dramas, à medida que são desafiados ou quebrados. No entanto, essas constatações se dão com indiscutível naturalidade, segundo o curso natural das coisas, e sem nenhuma angústia metafísica, pois haja o que houver, de qualquer maneira, a ordem termina amplamente restabelecida.

Os estratagemas empregados são de natureza variada:

“Não gosto do que sou obrigado a fazer em troca do dinheiro que me garante quatro refeições por dia, roupa, comida, bebida, celular, TV a cabo e outras despesas. Mas sem este emprego, nem sei o que seria de mim. Talvez eu me tornasse um desses vagabundos que me incomodam e que, hoje, tirei do meu caminho.” (p. 101)

Sua emoção é trabalhada por um estilo vigoroso, implacável, e é esse estilo que imprime às ideias uma potência legítima, impregnada, por vezes, de alto sopro lírico (observar, por exemplo, o conto “Fluxo”). A arte é a mola dessa transformação, pois não se trata de relatos reais mas de artifício, artifício de uma realidade delicadíssima que passa a existir: a certeza das coisas impossíveis.

Temos, assim, efetivamente, uma obra arrebatadora, que nos comove e nos provoca a lúcida admiração que só as verdadeiras obras de arte, no sentido substantivo, conseguem nos provocar.

De olho no contista (ele está de olho em você)

Diego Vera

Marcio Renato dos Santos, que completa 44 anos em abril, é um velho conhecido da Ideias. Trabalhou na revista desde sua primeira edição, em 2003, até 2007, quando trilhou outras veredas. Mas ele continuou por longa temporada colaborando com textos inéditos. Por falar nisso, não vai mais colaborar com a Ideias?

Estimulado por Fábio Campana, escreveu contos, publicados na EtCetera, outra revista (e que revista!) da Travessa dos Editores. Em 2013, a editora publicou Golegolegolegolegah!, reunião de contos inéditos do autor, com texto de apresentação assinado por Campana. Marcio é autor, até o momento, de sete livros de contos, entre eles Minda-au (2010, Record), Outras dezessete noites (Tulipas Negras, 2017) e o recém-publicado A certeza das coisas impossíveis.

Em 2012, teve um conto incluído na antologia O livro branco (Record) e, em 2013, uma de suas narrativas foi traduzida para o alemão, conteúdo do livro Wirsindbereit, publicado na Alemanha. Em 2015, Marcio Renato dos Santos foi um dos convidados do 5.º Festival Nacional do Conto, realizado em Florianópolis.

Mais que isso. Ele é um sujeito que lê permanentemente, não apenas contos, mas romances, poemas, ensaios, biografias e notícias. Falar sobre sua ficção? Melhor é ler e reler seus contos. Eu, se fosse você, e se ainda não conhecesse a obra dele, não perderia tempo. Os livros de Marcio Renato dos Santos estão à venda no site e nas lojas da Livrarias Curitiba e em sebos. Interrompo este texto, você deve deduzir, para voltar a um dos contos deste curitibano que circula, discreto, com óculos escuros, pelas ruas da cidade a observar quase tudo, quase todos. Inclusive você.

Luísa Cristina dos Santos Fontes nasceu em Barra do Piraí (RJ). Professora aposentada da Universidade Estadual de Ponta Grosa (UEPG), é autora, entre outros, dos livros Anita Philipovsky — a princesa dos campos (Biografia, 2002), Literatura e mulher — das linhas às entrelinhas (Ensaios, 2002) e A literatura de autoria feminina em suas interdi(c)ções (Ensaios, 2015). Vive em Ponta Grossa (PR).

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