Sai Beto Richa, entra Cida Borghetti

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Enfim, acabou o segredo de polichinelo mais cultivado na política paranaense nos últimos anos. Beto Richa se desincompatibiliza do cargo para ser candidato a senador da República, contrariando as previsões mais controversas e apaixonadas. Muita gente queria que ele ficasse no cargo. A começar pelos ocupantes de altas posições no secretariado ou na direção das estatais. Para estes, o ciclo de governo chega ao fim.

Também pretendiam que ele ficasse até o fim os candidatos a governador que se beneficiariam nessa hipótese. Permanecendo, Richa evitaria a posse de CidaBorghetti como governadora e virtual candidata à reeleição. Mas Richa não poderia encerrar uma carreira política brilhante, que vem de mandatos de deputado, de prefeito de Curitiba por duas vezes e de governador também reeleito. Além disso, se ficasse no cargo, ele bloquearia as candidaturas de seu filho, Marcelo, a deputado estadual, e a de seu irmão, José “Pepe” Richa Filho, a deputado federal.

Ora, pois, está consumado. Beto Richa (PSDB) deixa o cargo para concorrer ao Senado. De acordo com a legislação eleitoral, ele teria até o dia 7 de abril para se desincompatibilizar. Com a saída de Richa, assume a vice-governadora CidaBorghetti (PP), pré-candidata ao governo. Ela é mulher do ministro da Saúde, Ricardo Barros, que também já anunciou que deixará o cargo para concorrer às eleições. Ele deve ser candidato a deputado federal pelo Paraná, função da qual se licenciou para assumir o ministério.

Cautela
“Sempre tomo decisões de disputar a eleição ou não com muita serenidade, muita cautela, ouvindo a opinião de muitas pessoas”, afirmou Richa. Em relação a possíveis trocas no secretariado, com a saída de secretários que podem se candidatar, Richa afirmou que a definição das substituições fica a cargo de CidaBorghetti.

“As mudanças, os nomes que ela vai querer substituir, isso é atribuição dela. Se me perguntar, posso dar minha opinião”, comentou. O governador disse ainda que não teme a perda do foro privilegiado por causa de denúncias envolvendo o governo. “Estou absolutamente tranquilo, tudo devidamente justificado e as defesas apresentadas de algumas denúncias vazias que houve”, afirmou.

O governador Beto Richa é filho do ex-governador José Richa e de Arlete Richa. É formado em engenharia civil pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR). Richa iniciou a vida pública em 1994, elegendo-se deputado estadual pelo PSDB, sendo reeleito quatro anos depois. Foi eleito governador do Paraná em primeiro turno em 2010 e reeleito, também no primeiro turno, em 2014.

Empresária e jornalista, a vice-governadora CidaBorghetti é formada em administração pública, com especialização em Políticas Públicas. É casada com o ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP), e tem uma filha: Maria VictóriaBorghetti Barros (PP), que concorreu à Prefeitura de Curitiba na última eleição municipal. Cida começou na política como militante do PDS jovem. Foi deputada federal e deputada estadual por dois mandatos consecutivos. Atualmente, é a coordenadora das relações do Paraná com a bancada federal e com o Governo Federal.

Continuidade
Não há dúvida. A campanha de CidaBorghetti será marcada pela ideia de continuidade do governo de Beto Richa. E, para que não haja tropeços no discurso e na comunicação, ela deve repetir o time que fez as últimas campanhas de Richa. Tudo como dantes, pouco vai mudar nos postos mais importantes do governo de CidaBorghetti.

Seu líder do governo na Assembleia continuará o mesmo, Luiz ClaudioRomanelli, do PSB. E o time da campanha será o que sempre cuidou de Beto Richa. Marcelo Cattani está a arrumar a trouxa para deixar seus cargos na prefeitura de Curitiba. Será o coordenador de marketing e propaganda. Para comandar, na prática, a campanha, as conversas se estendem ao marqueteiro Nelson Biondi.

E tudo ficará perfeito se o secretário de Comunicação Deonilson Roldo continuar no posto, entregando apenas a chefia de gabinete. Por enquanto, ele analisa essa possibilidade e a alternativa de assumir uma diretoria da Copel. Paulino Viapiana, o terceiro da trinca com Deo e Cattani, já está com Cida Borghetti há meses, preparando conteúdos, uma sugestão de Richa.

Momento difícil
Em discurso de prestação de contas da administração, Richa disse sobre o momento mais difícil desses sete anos e três meses de mandato. Destacou o ajuste fiscal, que começou a implementar depois da reeleição, em 2014. Entre as diversas medidas impopulares adotadas, estão aumento de tributos como o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), adiamento da data-base do funcionalismo e uma polêmica reforma na previdência dos servidores estaduais, aprovada em 29 de abril de 2015. Naquela ocasião, mais de 200 manifestantes contrários ao projeto, que protestavam em frente à Assembleia Legislativa (AL), ficaram feridos, na chamada Batalha do Centro Cívico.

“Hoje o Paraná tem uma situação privilegiadíssima no cenário nacional, a melhor situação fiscal e a melhor situação financeira. Quem colhe os frutos somos todos nós, paranaenses. O Paraná é um canteiro de obras e temos grandes investimentos nos 399 municípios do Estado (…) Não me arrependo nem um minuto da decisão de fazer o ajuste fiscal. Hoje o Paraná dá exemplos ao Brasil. O país inteiro reconhece as medidas certeiras, que se revelaram muito bem-sucedidas”, comentou.

A possibilidade de renúncia em abril era cogitada desde que Beto foi reconduzido ao cargo. Nos últimos meses, porém, o governador vinha desconversando sobre o assunto e até mesmo cogitando finalizar o mandato e encerrar sua carreira política. Em janeiro, ele chegou a dizer que a tendência seria continuar. Se isso acontecesse, as candidaturas de seu filho Marcello Richa à AL e de seu irmão, PepeRicha, à Câmara Federal, esta última ainda não confirmada, ficariam comprometidas, por conta da lei de nepotismo.

“Aqueles que me conhecem sabem que não tenho apego a cargo, título ou posição. Estou na política para servir. Por isso que sempre tomo decisões de disputar eleição ou não com muita serenidade e muita cautela, ouvindo opinião de muitas pessoas. Tenho sim honra de ser governador do Paraná. Não posso deixar de dizer que me sinto honrado em merecer a confiança dos paranaenses para ser governador por duas vezes, em eleições vencidas no primeiro turno. E sempre procurei retribuir essa confiança com trabalho, dedicação e seriedade, para não decepcionar ninguém”, afirmou.

Caminho natural
Ainda conforme o governador, a disputa do Senado é “um caminho natural”. Se não concorresse, ele também perderia o foro privilegiado, algo com que garante não se preocupar. “De forma alguma. Não tenho nenhum receio, tanto que estou me desincompatibilizando do cargo”. Beto falou ainda que, a princípio, é contra a prerrogativa. “Mas também, se você for acompanhar, o que tem de excesso que as pessoas cometem, o que tem de perseguição a agentes públicos e governantes, nesse aspecto seria para impor algum limite, dentro da realidade hoje do País. Enfim, muita coisa tem de ser reavaliada”, opinou.

Apesar de garantir que deixa a chefia do Executivo “em ótimas mãos”, numa referência a Cida, o governador não quis adiantar quem apoiará em outubro. O restante da chapa do PSDB tampouco foi definido. Além da pepista, estão no páreo o deputado estadual Ratinho Jr. (PSD), que foi secretário de Estado na maior parte da gestão, o ex-senador Osmar Dias (PDT) e o prefeito de Guarapuava, CesarSilvestri Filho (PPS). “Será quem oferecer segurança em relação ao Estado e que seja bom gestor público. Não quero correr o risco de o Paraná perder tudo o que foi conquistado”.

Mudança de comando
Com a mudança no comando do Executivo, inicia o troca-troca no secretariado. Pepe (Infraestrutura e Logística), Valdir Rossoni (Casa Civil), Michele Caputo Neto (Saúde), Douglas Fabrício (Esporte e Turismo), João Carlos Gomes (Tecnologia) e ArtagãoJr. (Justiça) devem deixar suas pastas para disputar cargos eletivos. O diretor-presidente da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), MounirChaowiche, e o diretor-geral do Departamento de Trânsito (Detran), Marcos Traad, são outros nomes ventilados para a Câmara e a Assembleia, respectivamente. Gomes, Chaowiche e Traad participaram de eventos públicos liderados pelo governador Beto Richa em Londrina na última semana.

A “debandada” facilita o caminho de Cida para montar o novo primeiro escalão. “Esses secretários que estão saindo para buscar a oportunidade de servir o Paraná na Câmara, no Senado ou na Assembleia serão substituídos, obviamente. Os nomes serão acordados com o governador antes de sua saída. Quero, mais uma vez, reafirmar que o nosso governo será de continuidade”, assegurou a pepista. Quanto à relação com o Legislativo, ela disse não ter nenhuma preocupação. Ratinho Jr. hoje controla a maior bancada. “Eu fui parlamentar por oito anos. Conheço a Casa e entendo a responsabilidade dos deputados de continuarem nos apoiando”.

 

FOTO: Orlando Kissner / ANPr

 

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