Tiradentes, o que restou de nosso herói?

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O contexto do século 18 mostra, em linhas gerais, o Brasil como colônia portuguesa. Colonizado, o país estava entregue às ordens do patrão, e elas trabalhavam para mantê-lo assim. Impostos cada vez mais pesados, leis que proibiam o desenvolvimento industrial e comercial, pouquíssima influência política.

Portugal tratava o Brasil como um apêndice da nação, que servia para exploração e retirada de suas riquezas para sustentar o país do outro lado do oceano – a relação natural entre colonizadores e colonizados.

tiradentes_1_tiradentesEm Minas Gerais, terra do ouro, a lupa da História mostra esses contornos ainda mais fortes. O metal movia a loucura portuguesa. Derrama, exemplo bem representativo da época, era um tipo de imposto que exigia que as regiões de exploração de ouro no Brasil pagassem a Portugal 1500 quilos de ouro por ano. Ainda que a extração não fosse suficiente para isso, o pagamento era obrigatório. Se uma região não alcançasse a exigência, soldados da Coroa invadiam as casas dos fazendeiros para retirar à força pertences que complementassem o valor devido. Era a barbárie – a barbárie natural entre colonizadores e colonizados.

Libertas Quæ Sera Tamen
Por outro lado, alguns intelectuais, poetas e fazendeiros letrados que haviam conhecido as ideias do Iluminismo europeu passaram a reunir-se para discutir estratégias para mudar o quadro. Os estudos daqueles que saíam para uma voltinha pelo Velho Mundo deram condições para formular ideias e estratégias para uma solução definitiva: a independência do Brasil.

Tiradentes era um militar de pouca patente, um alferes, mas era combativo, corajoso e, sobretudo, um excelente propagandista da causa do grupo, que tinha também como membros os poetas Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, o dono de mina Inácio de Alvarenga, o padre Rolim e outros da elite mineira. Neste momento, o grupo era coeso e lutava pela mesma causa. O que interessava era a independência; depois, o que seria feito com ela, provavelmente, os dispersaria. A escravidão, por exemplo, não era uma questão unânime entre eles.

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Foi durante uma reunião que esse pessoal inventou o que gostaria como nova bandeira do Brasil: triângulo vermelho em fundo branco com a frase Libertas Quæ Sera Tamen (Liberdade ainda que tardia), hoje, bandeira do estado de Minas Gerais.

Estratégia
Os inconfidentes mineiros bolaram uma estratégia: num dia de derrama, colocariam o movimento em marcha. A ideia era aproveitar a insatisfação da população e conseguir aderência à revolta.

Sonhadores, imaginavam um uníssono contando com quem nem conheciam. Mas se esqueceram de, como em qualquer estratagema, vigiar de perto os envolvidos e sabedores dos planos.

Joaquim Silvério dos Reis era um homem endividado com a Coroa portuguesa e pouco crente no resultado dos seus companheiros de revolta. Inconfidente-delator, negociou informações privilegiadas em troca do perdão de suas dívidas. Sua delação premiada o levou à prisão por quase um ano, mas também à promessa de certa quantidade de ouro, perdão das dívidas fiscais, nomeação para o cargo de Tesoureiro das províncias de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro, pensão vitalícia e outros mimos. Como seu papel de traidor virou notícia pública, ninguém sabe se Portugal cumpriu com sua parte na negociata e ninguém se importou muito com isso também. De qualquer forma, Silvério dos Reis fez seu serviço de dedo-duro direitinho: no dia 15 de março de 1789 (ano da Revolução Francesa), entregou de bandeja os planos dos inconfidentes ao Visconde de Barbacena, que repassou a delação ao rei.

Consequências
Portugal se esgueirou entre as vielas da revolução, identificou os inconfidentes e acabou com a festa. Todo mundo foi preso e enviado para o Rio de Janeiro, capital da Colônia.

O crime foi o de infidelidade ao rei. As punições para casos como este eram variadas e de acordo com o humor do mandante e o tipo da traição.

tiradentes_2_mapaComo a questão envolvia pessoas da elite mineira, gente de boa esfera social, havia jeito de mover o tabuleiro a favor de penas mais brandas para uns e mais duras para outros. Alguns inconfidentes foram degredados para a África, alguns foram presos, alguns perderam bens, alguns foram condenados a trabalhos forçados.

Tiradentes, que havia assumido a liderança do movimento, e era, como já foi dito, um alferes sem muita proteção, foi usado como exemplo. Julgamento, enforcamento e esquartejamento em praça pública – recado direto para inibir outras ações semelhantes.

Barbárie
Como se já não bastasse o julgamento sem nenhuma orientação de justiça e o crime ser uma conspiração sem resultado prático, conhecendo o fracasso em suas primeiras horas, Portugal sublinhou o autoritarismo, a violência e a barbárie com que tratava suas colônias.

O corpo de Tiradentes foi esquartejado e os pedaços espalhados pelo caminho, do Rio de Janeiro até Minas Gerais.

tiradentes_4_esquartejadoA cabeça de Joaquim José da Silva Xavier foi pendurada num poste em Vila Rica. Anoiteceu lá como exemplo do que aconteceria com outros traidores. Na manhã seguinte, nem sombra da cabeça – que não tinha longos cabelos nem barba como de Jesus Cristo (Tiradentes era militar, usava cabelo cortado e no máximo um bigode; no período em que esteve preso, aguardando julgamento, assim se manteve, porque era providência nas cadeias nenhum cabelo para evitar proliferação de piolhos e para o enforcamento a ordem era raspar a cabeça).

Perceba o tamanho da barbárie: o tronco ficou com a Santa Casa de Misericórdia, que o enterrou como indigente; o restante foi salgado para que não apodrecesse rapidamente e pudesse ser distribuído em pontos estratégicos onde Tiradentes tinha certa influência social. A casa onde morava foi destruída e militares jogaram sal em todo o terreno, providência para que nada crescesse ali. Da data de sua morte, em 1792, até a proclamação da República, em 1889, Tiradentes foi considerado como traidor da Corte, lembrado como inimigo do Brasil. Depois que o país conseguiu independência, ele mudou de página e passou a ser o mais importante herói da nação. E neste capítulo, uma curiosidade bem à brasileira: Tiradentes é o patrono das Polícias Militar e Civil, como justificam as entidades, por causa de seus ideais de liberdade e igualdade. E, ainda, com a lei de 1965, do General Castello Branco, ele é oficialmente patrono cívico da nação brasileira; a legislação manda que Tiradentes seja cultuado pelas Forças Armadas – o Brasil é uma piada sem graça.

Lula e Tiradentes
Os quadros que ilustram as passagens políticas de Tiradentes sempre o pintaram com uma feição meio de Jesus Cristo: barba, cabelos, pregação, martírio e condenação. Embora o herói nacional tenha tido voz forte para espalhar a ideia da Inconfidência Mineira e fosse um homem, por assim dizer, do povo, ele fazia parte de um movimento que tinha na elite a principal força. E como sabemos uma luta encabeçada por classe socialmente dominante não comove o povo. Então, o melhor a fazer foi transformar Tiradentes num Jesus verde e amarelo. Assim, todo o processo da Inconfidência até a Proclamação da República se transformou em luta popular, tendo como representante um sósia de Jesus, na aparência e no calvário. A construção e a idealização do herói foram de caso pensado e a prova de seu sucesso é a maneira como até os dias de hoje Tiradentes é tido como líder de um movimento principalmente social, embora representasse durante seus dias mais difíceis, em larga escala, os interesses da elite mineira.

E Lula, por que vira e mexe se compara a Tiradentes? Esta carona na boa fama do rapaz é, obviamente, pensada em detalhes; coisa para fazê-lo parecido com o mártir de Minas, com aquele que deu a vida pela causa do povo.

O terreno neste ponto do texto é perigoso, porque corro o risco de ser interpretada de forma errônea, mas sigo em frente.

Tiradentes, embora tivesse em suas raízes e história de vida algumas lutas por melhorias da fatia menos favorecida da sociedade, conseguiu projeção, nome, declínio e vitória (século depois) navegando nas causas das elites.

E Lula, quando evoca a figura de Joaquim José, se apoia no imaginário popular para, mais uma vez, utilizar os recursos de períodos autoritários que recorrem aos valores cívicos para emparelhar o indivíduo com o Estado, e, neste caso, ele é a figura do Estado, mesmo estando fora da oficialidade do poder. É aquela velha ideia de cada cidadão amar a nação e fazer os sacrifícios de que ela necessite. Coisa à la Getúlio Vargas, outro nome que Lula, volta e meia, gosta de citar.

Pegar carona na fama daquele em que o tempo e os livros já consagraram é coisa tão descarada que não deveria mais surtir efeito. Mas o país é pobre em educação, é vesgo em entendimento e cede fácil a alguns truques que vivem sendo repetidos, pelo menos, desde a Proclamação da República.

 

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